Direto da Redação
Pedro Garcia: Trinta e seis poses
Jornalistas do Diário Gaúcho opinam sobre temas do cotidiano


Houve um tempo, acredite se quiser, em que não podíamos fotografar tudo a todo momento.
Ou melhor, até podíamos, mas era bem complicado.
Primeiro, porque não andávamos com uma câmera no bolso o dia inteiro. Não dormíamos com elas na cabeceira e não as levávamos até pro banheiro. Mesmo as máquinas compactas ocupavam algum espaço e precisavam ser guardadas em bolsinhas próprias. Só saíam da gaveta quando julgávamos que valia a pena.
Ademais, para fazer fotos, não bastava a câmera: precisávamos também de rolos de filmes. Eles vinham em potinhos redondos com tampas de plástico transparentes que ficavam pendurados nas gôndolas junto aos caixas dos supermercados, perto das pilhas e das balas de goma.
E, pasme: o número de fotos era limitado. Limitadíssimo, para os padrões atuais. Os rolos mais acessíveis, e que quase sempre usávamos, eram os de 12 poses.
Se o acontecimento era um churrasco em família ou um show, terminava ali mesmo - uma dúzia de cliques e não se fala mais nisso. Algumas vezes nos permitíamos pegar um de 24 - para uma comemoração de aniversário talvez, e olhe lá.
O supra-sumo, no entanto, era o de 36. Era o filé mignon da fotografia amadora, um luxo reservado a viagens, formaturas e outras passagens-chave da vida. Era esbórnia, flash que não acabava mais.
Chegar para uma excursão de escola ou um passeio com amigos exibindo um rolo desses podia até soar ostentação.
E a questão nem era o preço, mas o excesso. O que podia ser tão importante a ponto de merecer tantos registros?
Ocorre que, diante da finitude, éramos obrigatoriamente mais seletivos com aquilo que fotografávamos. Quando algo interessante surgia, era preciso um cálculo rigoroso para concluir se valia ou não gastar uma pose.
As fotos realmente representavam a calcificação da memória, um passe para a vida eterna. Uma vez reveladas, viravam monumentos em porta-retratos nas prateleiras das salas ou enchiam álbuns de capa dura guardados como tesouros e que serviam, por anos ou décadas, como álibis das nossas lembranças, sobretudo das boas. Eram a certeza de que o que realmente importava jamais seria apagado pelo tempo.
Essa lógica muda quando as câmeras estão sempre por perto. Não é preciso mais selecionar. Há quem fotografe antes mesmo de levantar da cama. Se antes 36 fotos podiam ser suficientes para documentar umas férias do início ao fim, hoje é fácil bater essa marca em uma sexta-feira chuvosa.
Fotografar deixou de ser um ato que agrega valor, e passou a ser um reflexo, tão banal quanto escovar os dentes.
Quando o número de poses não é mais uma preocupação, tudo se torna digno de retrato: a banana amassada de manhã, a fila de espera no banco, o porta-canetas na mesa de trabalho, o livro no sofá antes de dormir. E as cenas se tornam repetitivas e monótonas: o mesmo pôr do sol visto da mesma janela, a mesma piscadela no mesmo espelho do mesmo elevador.
Nos transformamos em geradores compulsivos de imagens perecíveis. A maior parte do que clicamos sobrevive somente ao tempo ditado por um algoritmo, ou à capacidade de armazenamento de nossos dispositivos. Muito pouco resiste no médio e longo prazo ao empilhamento contínuo e ensandecido de lembranças fugidias.
A ausência de limitações também impôs a mania da busca por uma certa perfeição estética. Na era analógica, era natural deparar com um tio que "dormiu" na foto, nos divertíamos quando todos saíam de olhos vermelhos, como se fossem personagens de um filme de terror de baixo orçamento, e pouco importavam os turistas japoneses passando no fundo. Hoje, o clique é repetido duas, três ou tantas vezes forem necessárias até garantir que todos encolheram suas barrigas e escolheram seus melhores lados do rosto. E se algo escapa, ainda pode depois ser corrigido por um filtro ou uma inteligência artificial.
O curioso é que, no tempo das 36 poses, elas, as fotos perfeitas, também surgiam. Mesmo que as câmeras fossem rudimentares e ninguém entendesse nada de enquadramento ou luz, de alguma forma elas saíam, nos garantindo orgulho e saudade por muito tempo. Talvez por pura sorte. Talvez porque a ideia de perfeição fosse outra.