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No CadÚnico

População em situação de rua mais do que dobra em cinco anos no RS

Levantamento da UFMG aponta que Estado tem 17.574 pessoas sem moradia. Em Porto Alegre, alta no período foi ainda maior

01/06/2026 - 12h27min


Gabriela Plentz
Gabriela Plentz
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Mateus Bruxel/Agencia RBS
Em Porto Alegre, alta foi ainda mais expressiva.

A população em situação de rua mais do que dobrou nos últimos cinco anos no Rio Grande do Sul. Conforme levantamento da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), são 17.574 pessoas vivendo nas ruas do Estado em maio de 2026. Em 2021, eram 7.248, um aumento de 142,5%.

Os números são baseados nos registros do Cadastro Único (CadÚnico), do governo federal, e foram compilados pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, vinculado ao programa Polos de Cidadania da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O relatório classifica a situação gaúcha como crítica. O RS tem o sexto maior contingente de pessoas em situação de rua entre os Estados do Brasil — tem também a sexta maior população total.

Pessoas em situação de rua nos Estados

  1. São Paulo - 159.290
  2. Rio de Janeiro - 35.406
  3. Minas Gerais - 34.849
  4. Paraná - 18.430
  5. Bahia - 17.579
  6. Rio Grande do Sul - 17.574
  7. Ceará - 15.366

Procurado pela reportagem, o governo do Estado emitiu nota na qual afirma que atua de forma complementar no atendimento a essa população, uma vez que a responsabilidade é das prefeituras. O Executivo estadual enfatiza que, desde 2021, destinou R$ 244 milhões aos fundos municipais de Assistência Social.

O governo do Estado ainda destaca o programa RS Social Recomeço, que prevê implantação de unidades de moradia transitória em Porto Alegre, Caxias do Sul, Santa Maria e Pelotas, municípios que concentram os maiores contingentes de pessoas em situação de rua no Estado (veja nota na íntegra ao final da reportagem).

Porto Alegre

Na capital Porto Alegre, o crescimento da população em situação de rua, pelo levantamento da UFMG, é ainda mais expressivo no período: 253,5%.

Em maio de 2026, a Capital tinha 7.240 pessoas em situação de rua. Em 2021, eram 2.048. O número de 2026 de Porto Alegre é semelhante ao total do Estado em 2021.

No ranking das capitais brasileiras, Porto Alegre como a oitava com mais pessoas em situação de rua, sendo a 12ª em população total. O primeiro lugar é de São Paulo, com 108,2 mil.

A prefeitura de Porto Alegre considera que os dados compilados a partir do CadÚnico não representam, necessariamente, o cenário atual observado nas ruas da Capital, uma vez que as informações são registradas pelas próprias pessoas, que podem sair das ruas e não atualizar o cadastro. 

Por isso, um censo da população de rua está sendo realizado pelo Executivo em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Um resultado preliminar deve ser divulgado em julho (veja nota completa ao final do texto).

Brasil

No Brasil, 388.855 pessoas estavam registradas no CadÚnico como em situação de rua em maio de 2026. O número representa um crescimento de 145,8% em relação a 2021. Sete em cada 10 pessoas que declaram viver nas ruas são negras, segundo o estudo da UFMG.

O que explica o aumento

O documento aponta quatro motivos para a escalada em todo o Brasil:

  1. o fortalecimento do CadÚnico, que ampliou o registro de pessoas que antes não apareciam nas estatísticas;
  2. a insuficiência histórica de políticas públicas de moradia, trabalho e educação;
  3. a precarização das condições de vida de populações já vulneráveis, agravada pela pandemia de Covid-19;
  4. as emergências climáticas extremas e os deslocamentos forçados.

O que diz a prefeitura de POA

A Prefeitura de Porto Alegre esclarece que os dados sobre a população em situação de rua divulgados a partir do Cadastro Único (CadÚnico) não representam, necessariamente, o cenário atual observado nas ruas da Capital.

O CadÚnico é um instrumento destinado à identificação e caracterização socioeconômica de famílias para acesso a programas sociais. As informações registradas são autodeclaradas pelos cidadãos e dependem de atualização periódica, o que pode resultar em defasagens e divergências em relação à realidade encontrada nos territórios.

Para obter um retrato mais preciso, a Prefeitura de Porto Alegre realiza a quarta edição do Censo da População em Situação de Rua, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e a Fundação Empresa-Escola de Engenharia da Ufrgs (Feeng).

A etapa de coleta de dados em campo já foi concluída e o levantamento encontra-se em fase de análise. O estudo trará informações detalhadas sobre o perfil socioeconômico dessa população, fatores que contribuem para a situação de vulnerabilidade, acesso aos serviços públicos e perspectivas de reinserção social.

A divulgação dos resultados preliminares está prevista para julho. A prefeitura reforça que o censo em andamento será a principal referência para dimensionar a realidade atual da população em situação de rua em Porto Alegre e orientar a formulação de políticas públicas voltadas a esse público.

O que diz o governo do RS

No Rio Grande do Sul, o Governo do Estado atua de forma complementar, apoiando financeiramente e fortalecendo políticas públicas voltadas à proteção social da população em situação de rua, embora a responsabilidade direta pelo atendimento a essa população seja dos municípios, conforme previsto na legislação.

Com a reformulação do cofinanciamento estadual da Assistência Social, por meio do Piso Gaúcho, instituído em 2024, os municípios passaram a ter maior autonomia para aplicar os recursos estaduais conforme as demandas específicas de seus territórios, inclusive em ações direcionadas às pessoas em situação de rua. O novo modelo substituiu a lógica anterior de percentuais fixos por modalidade de atendimento, permitindo maior flexibilidade e efetividade na gestão local da política socioassistencial.

Desde 2021, quando foi instituída a Política Estadual para a População em Situação de Rua, a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) já destinou mais de R$ 244 milhões aos fundos municipais de assistência social, recursos que também podem ser aplicados no atendimento a essa população conforme as demandas locais identificadas pelos municípios. Além disso, em 2023 e 2024, o Estado repassou R$ 725.424,37 e R$ 3.576.970,08, respectivamente, para os 11 municípios gaúchos que possuem Centros de Referência Especializados para Pessoas em Situação de Rua (Centros POP).

Entre as principais iniciativas atualmente em andamento está o programa RS Social Recomeço, que prevê investimento de R$ 40 milhões para implantação de unidades de moradia transitória em Porto Alegre, Caxias do Sul, Santa Maria e Pelotas, municípios que concentram os maiores contingentes de pessoas em situação de rua no Estado.

O programa busca promover a saída qualificada de indivíduos e famílias da situação de rua, por meio de módulos habitacionais integrados a serviços essenciais, como saúde, educação e assistência social, com foco na reinserção socioeconômica e no fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. A seleção dos participantes será realizada pelas prefeituras municipais.

O Governo do Estado também vem fortalecendo as políticas públicas voltadas à população em situação de rua por meio do Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política para a População em Situação de Rua (CIAMP/RS), através da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH), instância que reúne representantes do poder público e da sociedade civil. O Comitê coordena a construção do Plano Estadual para a População em Situação de Rua, elaborado a partir das políticas, programas e serviços já ofertados pelo Estado, buscando integrar e qualificar as ações existentes.

Paralelamente, o Estado mantém tratativas com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul para a implantação de um Observatório voltado à produção de dados e ao monitoramento das políticas públicas destinadas à população em situação de rua.

Essas iniciativas serão apresentadas e debatidas durante a 25ª Reunião do CIAMP Nacional, que ocorrerá entre os dias 17 e 19 de junho, em Curitiba (PR), fortalecendo a articulação entre União, estados e municípios. Na ocasião, o Estado também irá manifestar formalmente interesse em aderir ao Plano Nacional Ruas Visíveis (PNRV), após a realização de adequações técnicas necessárias.

As ações já desenvolvidas e em construção convergem com as diretrizes do PNRV, demonstrando que o Rio Grande do Sul vem estruturando instrumentos de governança, planejamento, monitoramento e participação social alinhados às estratégias nacionais de promoção e garantia dos direitos da população em situação de rua.

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