Medo da população
Porto Alegre lidera preocupação com enchentes entre 10 capitais brasileiras, mostra pesquisa
Alagamentos ultrapassaram a poluição do ar como principal tema ambiental; na capital gaúcha, 64% dos entrevistados mencionam o problema, o maior percentual entre os municípios analisados



A enchente virou o principal medo ambiental dos moradores de 10 capitais brasileiras, e em nenhuma delas a preocupação é tão alta quanto em Porto Alegre.
É o que mostra a pesquisa "Viver nas Cidades: Meio Ambiente e Mudanças Climáticas" lançada nesta terça-feira (2) pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos-Ipec.
Na capital gaúcha, 64% dos entrevistados apontaram enchentes e alagamentos como o maior problema ambiental — o índice mais alto entre todas as cidades consultadas.
O tema não é novidade para os porto-alegrenses: já liderava as preocupações locais em 2024, quando somava 60%, e ganhou ainda mais peso depois da inundação que tomou conta da cidade em maio daquele ano.
Inversão de prioridades
Enquanto a enchente avançava, a preocupação com a poluição do ar perdia força entre os gaúchos. O problema, citado por 38% dos moradores de Porto Alegre em 2024, caiu para 21% no novo levantamento.
A inversão de prioridades acompanha o que o instituto descreve como uma preocupação que sai do campo abstrato e passa a refletir o que as pessoas vivem no dia a dia.
No total da amostra, as enchentes foram citadas por 39% dos entrevistados e ultrapassaram a poluição do ar, que ficou com 34%.
Os alagamentos aparecem em primeiro lugar também em Goiânia (50%), Belo Horizonte (49%), Recife (41%) e Rio de Janeiro (40%).
A poluição do ar deixou o topo em quatro capitais e seguiu como principal problema apenas em São Paulo, onde foi apontada por 51% dos paulistanos.
Ao todo, seis das 10 cidades pesquisadas mudaram o primeiro colocado do ranking de problemas ambientais entre uma rodada e outra.
O recorte por perfil mostra que a enchente preocupa mais os entrevistados de maior escolaridade (43%) e os das classes A e B (43%) e C (40%). E em menor porcentagem os das classes D e E (28%).
A poluição do ar, por sua vez, é mais lembrada por quem tem renda familiar acima de cinco salários mínimos (39%).
Calor e enchentes lideram o impacto no dia a dia
Quando o assunto é o efeito mais sentido das mudanças climáticas na própria vida, o calor excessivo continua em primeiro lugar no resultado geral da pesquisa, com 33% das menções.
Ainda assim, o item registrou a maior queda da pesquisa: era apontado por 49% no ano anterior, uma diferença de 16 pontos percentuais.
Em seguida vêm a poluição do ar (22%), o preço dos alimentos (15%) e as enchentes (11%).
Porto Alegre e São Paulo fogem da regra nacional. Na capital gaúcha, são novamente as enchentes e os alagamentos que mais pesam, citados por 34% dos moradores como o principal impacto da crise do clima. O calor excessivo, que era a maior queixa local, recuou para 25%.
Já em São Paulo, a poluição do ar é a consequência mais sentida, para 31% dos entrevistados.
O que os moradores esperam das prefeituras
A pesquisa também mediu a confiança da população no poder público local. No resultado geral, 84% dos consultados acreditam que os governos municipais podem contribuir no combate às mudanças do clima.
Em Porto Alegre, esse reconhecimento subiu de 75% para 84%, o maior avanço entre as capitais, à frente de Belém e Belo Horizonte.
Entre as ações cobradas das prefeituras, o controle do desmatamento e da ocupação de áreas de manancial aparece como prioridade nacional, lembrado por 57% de quem acredita no papel dos municípios.
A capital gaúcha mudou o foco de suas demandas: em 2024, os moradores pediam principalmente a destinação adequada do lixo (60%). Agora, a prioridade passou a ser o controle do desmatamento e da ocupação de áreas de manancial (56%), enquanto a cobrança por melhorias na coleta de resíduos caiu para 45%.
Como foi feita a pesquisa
O levantamento ouviu 3,5 mil internautas de 16 anos ou mais, de todas as classes sociais, residentes há pelo menos dois anos em Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia. A coleta foi feita online, entre 1º e 27 de dezembro de 2025.
O nível de confiança é de 95%, com margem de erro de dois pontos percentuais para o total da amostra e de até seis pontos nos resultados por cidade, como Porto Alegre.
Os resultados serão apresentados em evento aberto e gratuito nesta terça-feira (2), às 11h, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, em São Paulo, com participação remota de Marina Silva, deputada federal licenciada e pré-candidata ao Senado.
Para o instituto, os episódios recentes de inundações, deslizamentos e alagamentos ajudam a explicar por que a agenda climática deixou de ser uma preocupação distante e passou a ser percebida na rotina das cidades.