Bairro Sarandi
"Quero montar meu próprio negócio": curso de costura ajuda imigrantes a empreender em Porto Alegre
Na busca pela independência financeira, venezuelanos, haitianos, cubanos e até brasileiros se unem para aprender a confeccionar bolsas, roupas e outros itens

Quem se aproxima de uma sala no térreo do Vida Centro Humanístico, no bairro Sarandi, zona norte de Porto Alegre, e escuta o barulho das máquinas de costura já imagina que um ateliê funciona por ali. No local, cerca de 20 pessoas, a maioria mulheres imigrantes, vindas de países como Venezuela, Cuba, Haiti e Colômbia, manuseiam tecidos que viram bolsas, roupas e até pantufas.
Com duas turmas e aulas duas vezes por semana, às terças e quintas-feiras, um curso promovido pela Associação Família Imigrante tem como objetivo principal promover a independência financeira de pessoas em situação de vulnerabilidade social. Dezenas de mulheres ainda aguardam por uma vaga.
— Algumas conhecem pelo boca a boca, chegam ali na frente (na recepção) e perguntam por um curso, ou vêm aqui no Cadastro Único, enxergam a placa e batem lá (na porta da associação). Temos também bastante brasileiras. É uma mistura de culturas — explica Neusa Batezini, fundadora da associação, criada em 2015.
O trabalho é feito com tecidos que, assim como as máquinas, foram recebidos por meio de doações. Desde março deste ano, quem ministra as aulas da capacitação é a professora Simone Marjorie Silvério, formada em Design de Moda. Com os olhos marejados, ela conta que, de certa forma, se enxerga nas alunas:
— Estou ensinando o que eu sei e aquilo que eu entrego, elas me devolvem em dobro. Durante muito tempo, foi isso que me trouxe uma certa independência, e é o que eu estou propondo para elas agora. Quando elas nos mostram o que conseguiram montar sozinhas, é uma felicidade. É muito bom ver que fazemos parte disso, mesmo sendo uma parte pequena — diz Simone.
Para além da costura
Durante as aulas, os participantes riem, colaboram uns com os outros e elogiam peças feitas pelos colegas. O clima é de empoderamento.
Inscrito pela esposa no curso de corte e costura, o haitiano Isemael Joseph chegou ao Brasil há quase 11 anos. Ele trabalha como cozinheiro em um hospital da Capital, mas conta que seu sonho sempre foi ser estilista. Quando a reportagem esteve no local, ele trabalhava em um casaco para presentear a companheira.
— Esse aprendizado é uma coisa impressionante. A profe apoiou a ideia de fazer um casaco, e estou trabalhando nele agora. Vai ficar muito legal — conta.
Já a cubana Surisaday Duran Creme, 19 anos, conheceu o curso a partir de uma amiga. Para ela, além do aprendizado prático, a iniciativa tem sido uma oportunidade de fazer parte de “uma família muito grande":
— Eu vim para cá com o plano de ajudar a minha família, que está lá em Cuba, mas agora descobri que estou grávida. Como não posso trabalhar, entrei no curso para aprender uma coisa nova e poder montar meu próprio negócio. Estou aprendendo a fazer calças, casaquinhos e muitas outras coisas.
Próximos passos
Além de abrir novas turmas, o desejo de Neusa e Simone é criar uma cooperativa, para que as mulheres imigrantes possam utilizar os aprendizados do curso para prestar serviços a empresas. A expectativa é de tirar a ideia do papel a partir de 2027.
Além disso, ainda neste ano, será iniciado um projeto apelidado de “As Migras”, no qual as estrangeiras poderão vender roupas adquiridas por um valor baixo, revertido para a própria associação. Para prepará-las, a entidade ofereceu uma capacitação na área de finanças pessoais e empreendedorismo.
A Associação Família Imigrante atende cerca de 250 famílias de imigrantes com auxílio para alimentação e outros tipos de ajuda. Está recebendo doações de máquinas de costura, tecidos, roupas em bom estado, alimentos, itens de higiene pessoal, entre outros. Para ajudar, basta entrar em contato pelo Instagram @associacaofamiliaimigrante.
*Sob supervisão e orientação de Émerson Santos