Bahia
Servidor que amputou o próprio pé para tentar receber R$ 1,5 milhão de seguradoras é condenado; veja o que se sabe sobre o caso
Vanderley dos Santos Gomes afirmou que foi agredido durante assalto seguido de sequestro, mas contradições em relato levantaram suspeitas da polícia

O servidor público Vanderley dos Santos Gomes planejou a amputação do próprio pé para tentar obter cerca de R$ 1,5 milhão em indenizações de seguros, segundo a Justiça da Bahia. O caso foi registrado em 2019, mas voltou a repercutir neste domingo (21) após serem revelados novos detalhes da ocorrência. As informações foram apuradas pelo g1.
Inicialmente, Vanderley afirmou que tinha tido o pé amputado durante um assalto seguido de sequestro na cidade de São Gonçalo dos Campos. Disse, ainda, que os criminosos levaram celular, relógio e outros bens.
No entanto, a mochila do servidor foi encontrada, próxima ao local onde ele foi socorrido, com os pertences que teriam sido levados e o pé amputado. Essa primeira contradição no relato, amparada por uma série de outras inconsistências, levou a desconfiança das autoridades e posterior condenação do servidor público.
O que aconteceu
Segundo o depoimento inicial apresentado por Vanderley à Polícia Civil, ele chegou sentindo dores em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade de Cruz das Almas na noite de 10 de julho de 2019, mas não foi atendido por falta de receita. O servidor trabalhava em Amélia Rodrigues, no Recôncavo baiano.
Ao sair da UPA, Vanderley disse ter sido abordado por homens armados. Ele afirmou que foi colocado à força em um carro, vendado, amarrado e levado até uma estrada rural próxima à BR-101, onde os criminosos teriam lhe roubado R$ 2 mil em espécie, além do relógio e celular, o agredido e amputado o pé direito dele antes de abandoná-lo.
Vanderley contou que acabou desmaiando devido à dor e acordou sozinho na estrada, na zona rural de São Gonçalo dos Campos. Ele foi socorrido, passou por atendimento e cirurgia, e o crime foi registrado como assalto.
Dias após a ocorrência, Vanderley estava prestes a receber cerca de R$ 1,5 milhão em indenizações por invalidez permanente quando o volume de dinheiro e a quantidade de apólices contratadas alertaram o sistema de inteligência das seguradoras, que desconfiaram do "golpe do seguro".
Série de contradições
Com o alerta das seguradoras, as investigações policiais também identificaram elementos que colocaram a versão do servidor público em dúvida. O principal deles foi a descoberta da mochila a cerca de 350 metros do local onde Vanderley foi encontrado. Dentro dela estavam o pé amputado e objetos que o servidor havia informado terem sido roubados durante o assalto.
A Polícia Civil e as seguradoras também consideraram incomum a alegação de que sequestradores teriam amputado o pé da vítima sem exigir resgate ou apresentar qualquer outra motivação aparente. Além disso, Vanderley alegou esquecimento e não soube afirmar diversos fatores cruciais do crime, como o instrumento utilizado para a amputação, o que aumentou as suspeitas das autoridades.
Outro fator decisivo foi a contratação de quatro seguros de vida e acidentes pessoais poucas semanas antes do episódio. Somadas, as apólices previam indenizações de até R$ 1,5 milhão em caso de invalidez permanente. Conforme a CNN Brasil, os contratos foram feitos em:
- 17 de junho de 2019, com seguro de R$ 200 mil
- 19 de junho de 2019, com seguro de R$ 400 mil
- 29 de junho de 2019, com seguro de R$ 800 mil
- 04 de julho de 2019, com seguro de R$ 100 mil
A condenação
Para a Justiça baiana, a proximidade entre as contratações de seguro e a perda do membro de Vanderley indicava planejamento de fraude. Em 2023 o Juízo Criminal da Comarca de São Gonçalo dos Campos condenou Vanderley por estelionato em primeira e segunda instâncias.
A defesa do servidor recorreu, mas em 2025 a Segunda Câmara Criminal do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) manteve a condenação.
Porém, no mesmo ano, a Vara de Execuções Penais de São Gonçalo dos Campos substituiu a pena de dois anos de reclusão por medidas restritivas de direitos, incluindo 720 horas de prestação de serviços à comunidade e o pagamento de R$ 7.590.
O que diz a defesa de Vanderley
Além do recurso em 2025, a defesa de Vanderley também apresentou um pedido de prequestionamento para que a ação fosse avaliada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Contudo, o Tribunal de Justiça da Bahia negou o pedido. O órgão entendeu que todos os pontos e legislações questionados já haviam sido amplamente analisados e debatidos durante o processo, descartando a necessidade de enviar o caso a Brasília.
Como a decisão transitou em julgado e não restam mais recursos disponíveis, Vanderley começou a cumprir a pena em maio deste ano.
O que dizem os advogados das seguradoras
O advogado Adriano Scattini, da Advocacia Zacarelli, escritório que representou todas as seguradoras envolvidas, afirmou ao g1 que "o caso é um dos mais emblemáticos num mercado em que, só em 2024, contabilizou mais de R$ 1,1 bilhão de indenizações evitadas em golpes comprovados".
A empresa declarou em nota que o primeiro sinal de alerta foi a grande quantidade de apólices contratadas pelo servidor. Segundo a organização, a renda dele seria insuficiente para mantê-las a longo prazo, sendo cada contrato firmado com uma seguradora líder de mercado.
"Casos como esses são detectados porque as empresas operam de maneira integrada, que é o melhor meio de combater a epidemia de fraudes contra os seguros", explicou Scattini.
O que falta esclarecer
Embora a Justiça tenha considerado comprovada a tentativa de fraude, alguns aspectos do caso permanecem sem resposta. Um dos principais questionamentos é se Vanderley contou com a ajuda de terceiros para realizar a amputação.
Também não foram divulgados integralmente os laudos periciais e médicos que embasaram a condenação, o que impede conhecer detalhes sobre como a lesão foi produzida. Porém, os advogados das seguradoras afirmam, com base nas perícias médicas, que a amputação do pé foi feita por alguém com conhecimento técnico:
"Quem ajudou ele tinha conhecimento de técnicas cirúrgicas, o que invalidou a versão de violência e do assalto", disse Scattini.