Coração dividido
"Talvez eu comemore os gols do Haiti e do Brasil", diz haitiana que reconstrói a vida em Porto Alegre
Clodia Pierre vive há seis anos no Rio Grande do Sul e está orgulhosa de ver o seu país na Copa do Mundo

O cumprimento saiu com a naturalidade de quem reencontra antigos amigos.
— Oieeeeeee!
Do topo da escada é possível ver o sorriso de Clodia Pierre. Ela desliza pelos degraus. A conversa emenda. A pronúncia limpa das palavras. A desenvoltura. O domínio do vocabulário informal.
Em pequenos momentos escapa um quase imperceptível sotaque. Demora até que origem linguista reapareça.
Como demorou para passar o tempo naqueles anos longe do pai e da mãe. Joacius saiu da Ilha de la Gonâve, no Haiti. A viagem de navio até Manaus durou uma semana. Só depois perambulou até chegar a Porto Alegre. O ano era 2014. Uma Copa do Mundo depois, aportou a mãe, Maritha Deluscar.
Clodia ficou com os 12 irmãos na ilha caribenha. Há seis anos foi a vez de ela e do caçula chegarem ao Rio Grande do Sul. As respostas, quase sempre, iniciam com interjeição alongada antecedida por um sorriso de orelha a orelha.
— Poooooois é, o Haiti é um país bonito, mas sem oportunidades mesmo para quem tem curso. Não tem trabalho — lamenta a vendedora de uma empresa de telecomunicações e modelo de 25 anos.
Clodia chegou a Porto Alegre grávida do pequeno Mike Bryan. A mãe fala o português de uma formada em tecnologia e gestão comercial pela Fardegs. Sem falar sequer um “oi”, terminou o último ano do ensino médio em uma escola pública da Capital.
Na marra, aprendeu a pegar o ônibus sozinha. A resolver problemas. Se comunicar. Acostumada a blusas de mangas curtas, vestidos sem mangas, bermudas e chinelos, mudou os hábitos no sul do Brasil.
Ela veste calça jeans. Um casaco longo de lã. Uma manta protege o pescoço. O penteado do dia forma bolas de cabelo pendentes como se fossem enfeites em uma árvore de natal.
— Siiiiim, quero voltar para visitar. Porque é um país lindo. Sinto falta da comida, dos familiares. Represento o Haiti onde eu vou.
O coração dividido entre Brasil e Haiti

Ela ganhou um irmão brasileiro, o 14º filho de Joacius e Maritha. Uma outra razão para ficar com sentimentos mistos na partida entre Brasil e Haiti, nesta sexta-feira (19).
— Meu Deeeeus, estou com o coração dividido. Tenho um carinho pelo Brasil, mas o Haiti é o meu país. Talvez eu comemore os gols do Haiti e do Brasil, que me acolheu. Aqui eu tenho um futuro brilhante — explica.
A voz carrega o orgulho de ver o país mais populoso do Caribe no palco máximo do futebol. Reflete a satisfação de enxergar na seleção de futebol a própria luta por dias melhores.
A camisa do Haiti para a Copa foi modificada pela Fifa. A entidade proibiu a utilização de uma imagem alusiva à Batalha de Vertières, travada em 1803 e decisiva para a independência do país.
A entidade impôs a medida por considerar a figura — pessoas hasteando a bandeira do país — de cunho político. É o único momento em que o sorriso se apaga um pouco do seu rosto.
— A imagem representa nossas lutas, nossa batalha pela independência. Fiquei chocada com a decisão.
As origens
Antes de Joacius e Maritha enviarem dinheiro de Porto Alegre para a família, suavam sob o sol do Caribe na lida do campo. Venda de pão para os vizinhos. Fabricação de carvão. Plantação de milho. O cereal era utilizado como escambo no mercado. Entregavam o milho, recebiam o arroz.
O valor enviado para a América Central ajudava a pagar a escola, mas não a alimentação no horário escolar. A jornada escolar era feita de barriga vazia. Comida apenas em casa. Era mais barato.
Há pouco mais de um mês, os Pierre trouxeram mais sete integrantes da família. Fizeram vaquinhas e empréstimos para arcar com os custos. Outros ainda estão na fila.
— Não falo do Haiti, eu falo do meu país.
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