Estrelas da Periferia
Uma década de palco, brilho e resistência
Após 11 anos de trajetória, Amy Babydoll apresenta show de drag autoral, "Cabaret LaGorda" no Estúdio Stravaganza, nos dias 27 e 28 de junho

Faz uma década que Amy Botelho subiu ao palco em um show de drag pela primeira vez. Gaúcha de Charqueadas, Amy começou a atuar na cena cultural LGBT+ em 2015, quando tinha apenas 19 anos:
— Eu assistia muito Drag Race (reality show dedicado ao universo drag). Aí um dia, eu parei e pensei: "eu consigo fazer isso, vou tentar, vou brincar um pouco também". Aí dessa brincadeira eu acabei descobrindo que era isso que eu que eu gosto de fazer mesmo. Nesse período eu estava fazendo faculdade de Produção Cênica, e aí comecei a fazer shows e alguns concursos de drag lá também.
Dois anos mais tarde, Amy foi chamada para integrar o elenco da Workroom, bar de drag de Porto Alegre que operou entre 2017 e 2025. Foi nesse período que Amy começou a aprofundar sua personagem no palco, Amy Babydoll, e a trabalhar naquele que se tornaria o seu primeiro grande espetáculo como artista solo: o Cabaret LaGorda.
— Eu sempre quis ter um espetáculo meu. Ninguém estava me chamando, estava meio difícil se manter, e aí eu inventei o Cabaret LaGorda — explica a artista.
O espetáculo foi se transformando ao longo do tempo. A temática, porém, segue a mesma: uma retrospectiva da vida da artista que revisita experiências pessoais enquanto, simultaneamente, olha para os caminhos possíveis da arte drag e das experiências trans no presente.
— Quando eu comecei meu processo de "montação", assim, de drag queen, eu era um homem gay. E aí, no meio disso eu acabei me descobrindo com o olhar trans e travesti e também, então hoje em dia é um pouco mais difícil de ver essa diferença entre a pessoa e a personagem. As linhas foram ficando borradas, com o tempo. Hoje em dia, a personagem sou eu, só que muito mais bem produzida e mais "solta", porque a drag dá uma máscara de força e de coragem, de audácia, também. E é justamente sobre isso que fala o espetáculo — explica.
Estreia
Após uma série de sessões-teste, a nova versão do Cabaret LaGorda vai chegar oficialmente aos teatros no final do mês. O espetáculo estreia com duas apresentações nos dias 27 e 28 de junho, às 19h, no Estúdio Stravaganza, espaço que há mais de duas décadas se consolida como um dos pólos da produção cultural independente de Porto Alegre.
A apresentação deve contar com a participação de Donnatela Calabouço, persona drag de Mariana Alves, que foi criada a partir do projeto Drag por uma Noite — iniciativa coordenada por Amy que visa proporcionar uma chance de que pessoas que nunca se montaram antes tenham a oportunidade de experienciar a arte drag.
Em cena, Donatella interpreta uma manifestação do monólogo interior de Amy ao longo da peça:
— A Donatella foi um achado. Eu adorei ela de cara, sabia que ela era uma pessoa que vivia a arte drag, que respirava a arte drag, e me lembrou muito de mim quando eu comecei. As pessoas também diziam que a gente era muito parecida. Aí eu sabia que precisava incorporar ela em alguma coisa, porque a gente já tinha trabalhado antes em uma outra noite antes e foi maravilhoso. Aí no Cabaret LaGorda ela veio para somar, e é um grande amor para minha vida.
Mais que um espetáculo, a apresentação no teatro representa, para Amy, uma oportunidade de mostrar seus talentos para o grande público.
— A gente ganhou espaços que foram abrindo, florescndo, como a Workroom, e aos poucos eu fui vendo eles fecharem. A gente teve vários bares e casas noturnas assim. Claro que a cena muda, as artistas vêm e vão, mas eu gosto de dizer que por causa desses fechamentos, também, a gente teve que se unir. Somos artistas e estamos mais unidos, acho hoje. Eu tenho muito orgulho que a minha comunidade, pelo menos, é muito unida. Acho que vem uma nova geração aí também que tá muito melhor do que a minha, assim, sinceramente. E espero que isso só aumente — destaca Amy.
*Com orientação e supervisão do jornalista Alexandre Rodrigues
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