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Café vai voltar a subir? Entenda por que produto ficou mais barato no RS e saiba o que esperar para os próximos meses

Nos últimos 12 meses, custo do produto caiu quase 15% na região metropolitana de Porto Alegre. No entanto, problemas com a safra podem reverter cenário

14/07/2026 - 09h50min


Anderson Aires
Anderson Aires
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Você que está acostumado a passar aquele cafezinho pela manhã antes de sair de casa ou a participar da vaquinha na empresa para a compra do café deve ter sentido certo alívio no bolso recentemente.

Nos últimos 12 meses, o preço do produto caiu quase 15% na Região Metropolitana de Porto Alegre. O recuo ocorre após sucessivas altas nos últimos anos, que chegaram a levar o café em pó a custar mais de R$ 30 nas gôndolas. Especialistas atribuem a atual queda à expectativa de uma safra mais robusta. No entanto, alertam que problemas climáticos recentes colocaram esse cenário em dúvida e podem voltar a pressionar os preços.

Dados do último Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo IBGE na sexta-feira (10), apontam que o preço do café moído caiu 14,39% no acumulado de 12 meses na Grande Porto Alegre. No país, o valor do produto recuou 15,98%.

Se olharmos apenas a variação mensal, de um mês para o outro, o café moído caiu 3,72% no país em junho, e 2,20% em Porto Alegre.

— Para quem tem um consumo praticamente semanal, que nem o meu, né, é bem perceptível. Então, pelo menos por hora, a gente sente, a gente percebe no bolso essa diminuição dos preços — relata o assessor de investimentos Guilherme Bertolucci, 39 anos, enquanto compra o produto na versão moída, em um supermercado da zona norte de Porto Alegre.

No corredor do supermercado visitado por Bertolucci, algumas versões mais em conta do pó estavam acompanhadas de cartazes de oferta, exibindo reduções da casa dos R$ 30 para valores em torno de R$ 25 e até de R$ 23,90 para R$ 18,90, na manhã de segunda-feira (13).

Motivos para a queda

Boa parte da explicação para a queda nos preços do café está no fato de o grão ser uma commodity, cujo preço é influenciado pelas negociações nos mercados internacionais. Assim, as expectativas sobre o tamanho e a qualidade da safra afetam as cotações da matéria-prima, que acabam sendo repassadas, com o tempo, para a indústria e o varejo. Isso ocorre porque a oferta esperada do produto influencia os estoques globais e, consequentemente, os preços praticados no mercado. Ou seja, as cotações costumam reagir às expectativas e podem subir ou cair antes mesmo de a safra confirmar — ou não — essas projeções.

O diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Celírio Inácio, afirma que a recente redução dos preços ocorre na esteira das mudanças de perspectivas em relação à safra do café. Nos últimos anos, o mercado de café transitou de um cenário de relativa estabilidade para outro de forte volatilidade, com problemas climáticos reduzindo a produção global e elevando o custo da matéria-prima. Isso levou a sucessivos repasses de preços ao varejo. No entanto, nos últimos meses, entre o fim de 2025 e meados de 2026, a expectativa de uma safra recorde reduziu a pressão sobre as cotações internacionais do café, segundo o dirigente:

— Os preços da matéria-prima começaram a se arrefecer e o industrial, beneficiando-se disso, começou a comprar cafés mais baratos e por consequência oferecer cafés também com preços melhores para o consumidor.

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Produto apresenta preços menores ante anos anteriores

O economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), também destaca essa melhora na oferta de café, que acaba abrindo espaço para preços mais baixos nas gôndolas. Ele destaca, no entanto, que esse movimento de queda expressiva ocorre na comparação com um produto que subiu muito nos últimos anos:

— O café começou a mostrar algum alívio para o consumidor, e o IPCA de junho reforça essa tendência, com nova queda no preço do café moído. Isso acontece porque parte da acomodação das cotações internacionais e uma melhora na oferta começam, finalmente, a chegar ao varejo. Como o produto passou por aumentos muito intensos nos últimos anos, o repasse da queda costuma ser mais lento do que o da alta.

Braz afirma que, nas cafeterias, o alívio deve ser mais lento. Isso porque o grão é apenas “uma parte do preço da xícara”, que também incorpora outros custos, como mão de obra, aluguel, energia, leite, açúcar e embalagens.

Companheiro do dia a dia

Por fazer parte da rotina de grande parte dos brasileiros, o café também tende a ter uma demanda mais estável do que a de outros produtos. Mesmo em períodos de preços elevados, muitos consumidores continuam comprando a bebida, o que ajuda a sustentar as cotações e reduz o espaço para quedas mais acentuadas.

Citado no início da reportagem, o assessor de investimentos Guilherme Bertolucci afirma que o café mais barato traz alívio ao orçamento, já que é um item que ele dificilmente consegue tirar da lista de compras, mesmo quando os preços sobem. Como trabalha em casa, acaba tendo a bebida como uma aliada na rotina. 

— Na verdade, vai impactar mais, sinceramente, no meu bolso. Porque eu não deixo de tomar meu café quando ele está mais caro. Nessas épocas, eu acabo gastando mais no mês. Infelizmente, muitas vezes eu deixo de comprar outros insumos para conseguir comprar o café — comenta. 

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Bertolucci não abre mão do café.

Situação parecida é a da aposentada Sonia Pedrazzini, 71 anos. Ela relata que costuma comprar sempre a mesma marca. Em momentos de preço mais em conta, fica mais fácil garantir o cafezinho de todo o dia. Quando o cenário é de alta, ela acaba percorrendo mais estabelecimentos em busca de ofertas. Se nem mesmo a ronda maior pelo varejo ajuda, busca alternativas:

— Se a marca que eu gosto tá muito mais cara, vamos dizer assim, eu vou para outra, óbvio.

Próximos meses

O diretor-executivo da Abic afirma que as últimas informações sobre a safra indicam uma possível reversão da tendência de queda dos preços. O cenário de alívio ao consumidor está sob ameaça devido a chuvas atípicas que prejudicaram a colheita e a qualidade dos grãos. Com a quebra da expectativa de uma safra recorde e a manutenção de estoques globais baixos, a previsão é que novos aumentos de preço comecem a ser repassados às prateleiras dos supermercados.

— É muito difícil de responder isso, mas, nesse cenário atual, nesse momento, sem entender o que vai acontecer, eu diria que no início do mês que vem, no mais tardar, essa reposição nos preços vai começar a aparecer nas prateleiras — projeta Celírio Inácio.

O economista André Braz afirma que ainda existem condições que dão esperança para manutenção de preços menos pressionados aos consumidores. No entanto, reforça que qualquer problema na produção ou um novo choque de oferta podem interromper esse movimento e até provocar uma nova rodada de altas.

— Para os próximos meses, o cenário continua bastante sensível. Se a safra brasileira confirmar uma recuperação e o clima colaborar, é possível que o consumidor veja novas reduções graduais. Por outro lado, o mercado de café continua muito dependente das condições climáticas, especialmente durante o período de florada, além de fatores como estoques apertados, câmbio e oscilações das cotações internacionais — avalia Braz.

Os ramos de cafeterias e cafés especiais e certificados sentem a alta de forma mais rápida por dependerem de lotes específicos que valorizam antes do "café comum", segundo os especialistas. Portanto, é um segmento que pode sofrer mais com possível elevação dos preços.

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