Direto da Redação
Diogo Duarte: uma corrida desastrosa
Jornalistas do Diário Gaúcho opinam sobre temas do cotidiano


Dia desses, quando chegou a hora de ir ao trabalho, tive que tomar uma difícil decisão: a de ir até a parada de ônibus e aguardar o transporte coletivo, ou escolher a alternativa mais confortável e financeiramente irresponsável de chamar um carro de aplicativo. Lógico que escolhi a segunda. “Vou passar no crédito, problema para o Diogo do mês que vem", pensei, influenciado pelo frio que tem tomado conta de Porto Alegre.
Mesmo escolhendo a opção mais cara, utilizei a minha estratégia de comparar o preço da corrida em dois aplicativos diferentes, para ver em qual deles estava mais barato. Estavam parecidos, menos de um real de diferença. Decidi chamar nos dois apps e ver em qual aceitava primeiro. Ambos encontraram um motorista no mesmo segundo. No que estava um pouquinho mais caro, um carro moderno, eletrificado, a três minutos de distância. No outro, um carro comum, a seis. Como não estava com pressa, fui na opção mais barata, com a intenção de minimizar o impacto negativo no meu bolso. Cancelei a outra e parti. Que erro.
Ao entrar no carro, fui surpreendido por um celular caído no vão entre a porta e o banco do veículo. Entreguei ao motorista, que olhou para mim como se eu estivesse lhe dando uma bomba.
– Ah não, de novo não – disse o homem, que era grisalho e aparentava ter algo entre 65 e 70 anos de idade.
Desorientado, ele parou o carro e começou a tentar desbloquear o aparelho, protegido por senha.
– Deve ser do passageiro que deixei antes de ti. É a segunda vez que isso acontece nessa semana.
Preocupado com o horário, disse ao motorista que aguardasse um pouco, que certamente alguém iria ligar em busca do aparelho. Convencido, ele colocou o celular no banco do carona e seguiu viagem. “Ufa", pensei, achando ter me livrado de um grande transtorno.
Menos de cinco minutos depois, ouço um celular tocando. Surpreendentemente, não era o do dono misterioso, mas o do próprio motorista. Ele atendeu e colocou a ligação no multimídia do carro, com um volume estourado. Era impossível não ouvir.
Pelo que consegui entender, o motorista era dono de um apartamento que estava sendo alugado a um morador que estava causando problemas para seus vizinhos. O condutor procurava uma brecha no contrato para despachá-lo, motivo pelo qual seu advogado ligou.
A conversa se estendeu, e ficou claro que, por mais que tentasse, o motorista não conseguia prestar atenção no trânsito e na ligação ao mesmo tempo. Ele começou a fazer o contrário do que o GPS orientava, virando em todas as ruas erradas (e a previsão de chegada aumentava a cada uma delas).
Respirei fundo e aceitei que não havia o que fazer além de aguardar o fim da conversa. O problema, para o meu azar, é que segundos após isso acontecer, o cidadão que esqueceu o telefone dentro do carro se deu conta do ato falho e ligou para o próprio celular. Lá foi meu amigo motorista atender mais uma vez. E novamente o caminho indicado pelo GPS foi para o espaço.
Depois de muita luta, os dois conseguiram se entender e agendaram a devolução do aparelho, que ocorreria após o fim da minha corrida – que ao invés dos típicos 10 minutos, se estendeu por 32. Na chegada, o motorista se desculpou pela confusão. Tudo tranquilo. Pelo menos alguém recuperaria o que perdeu naquela tarde gelada, mesmo que não fosse eu. E ainda ganhei um incentivo (ou uma punição) para parar de gastar com o que não deveria.