Dia do Cooperativismo
"É mais que um trabalho, é um compromisso com a vida": como costureiras mudaram a realidade de bairro em Porto Alegre
Há 30 anos, a Cooperativa Univens — Unidas Venceremos —, gera renda, oportunidade e renovação para a comunidade do seu entorno

Na zona norte de Porto Alegre, o fio que ganha forma pelas mãos de mulheres costureiras tece uma trama que vai muito além da vestimenta e se traveste em mudança social. Há 30 anos, a Cooperativa Univens — Unidas Venceremos —, gera renda, oportunidade e renovação para a comunidade do seu entorno.
O trabalho feito pelas mulheres da Vila Nossa Senhora Aparecida, no bairro Sarandi, é um caso emblemático da cooperação pelo trabalho. Juntas, as 24 costureiras cooperadas dividem as tarefas, os ganhos, o tempo, o espaço e os problemas.
Tudo começou em 1996, quando a necessidade de gerar renda encontrou ocasião no ofício das mulheres da comunidade, recorda a diretora presidente da cooperativa, Nelsa Fabian Nespolo, 63 anos. O sonho coletivo, naquela época, era costurar para o Hospital Conceição, centro de saúde referência para os moradores do bairro:
— Dois fatores se juntaram: precisávamos de renda e havia a vontade de costurar para o hospital. Mas, para isso, precisávamos ser uma cooperativa. E assim começamos. É mais que um trabalho, é um compromisso com a vida.

Como no bordado à mão livre, nem tudo saiu como o planejado, e outras tramas foram se mostrando possíveis ao longo do percurso. Enquanto a meta de atender a rede hospitalar não desenrolava, uma encomenda de 500 camisetas para vestir metalúrgicos deu o fôlego para avançar. Aos poucos, os equipamentos foram adquiridos, os clientes foram chegando e a rede feminina tramada pela costura foi ficando mais firme.
Foi só em 2024 que o sonho da Univens enfim alcançou o seu primeiro objetivo, com a seleção na primeira chamada pública promovida pelo GHC. Em seguida, os lençóis costurados na Vila Nossa Senhora Aparecida chegaram ao Hospital da Criança, referência no tratamento infantil no Rio Grande do Sul. Em 2025, as peças já cobriam adultos na hematologia e na oncologia, e atualmente estão em ampliação para a maternidade do Hospital Fêmina, também na Capital.
O plano é ir além. Outra disputa de compra pública está em aberto para atender ao Grupo Hospitalar Conceição, além de negociações em andamento com três hospitais privados do Interior. Por serem feitos de tecido orgânico, os lençóis da cooperativa irritam menos a pele dos pacientes, conferindo um ganho aos tratamentos de saúde.
— Queremos muito ampliar a entrega para outros hospitais, porque isso nos dá uma segurança de renda certa, e o restante buscamos com outros produtos que a gente faz. Ampliar a compra pública significa crescer a cooperativa. Muitas vezes, essa é a única renda da família — diz Nelsa.
Trabalho para todas
Da costura das mulheres, produzem-se roupas, uniformes escolares e de firmas, produtos corporativos, bolsas, sacolas ecobags e os lençóis hospitalares. Mas nem sempre as mãos da comunidade souberam costurar. O grupo de cooperadas reúne desde as que já manuseavam a máquina àquelas que aprenderam na cooperativa.
Há seis anos entre elas, Vera Monticeli, 63 anos, diz ser grata pela oportunidade de trabalhar junto às mulheres. Tudo o que sabe de costura, diz, aprendeu ali.
— Fiz um curso básico na cooperativa e a Nelsa me convidou para trabalhar. Hoje eu digo que sei costurar. Tudo o que eu sei de costura eu aprendi aqui dentro. (Estar) onde todo mundo faz junto, onde todo mundo pega junto, é muito gratificante — conta.
O perfil na cooperativa é diverso. Muitas são viúvas, outras são mães solo, e há as que são chefe de família — da qual o único sustento vem da renda da cooperativa. Também há as que trabalham de casa, sem frequentar a sede, e as que se dedicam aos reparos.
— A cooperativa dá uma segurança financeira, e, portanto, de vida. Sobretudo, para as mulheres. É tão importante ter uma rede de proteção na nossa volta e um grupo onde se pode contar os problemas... Tem dias que a vida é mais difícil. E compartilhar as alegrias também. É o verdadeiro sentido de cooperar, num todo, na vida das mulheres — diz a diretora presidente.
Referência na comunidade

O impacto econômico e social desde que o cooperativismo passou a fazer parte da comunidade vai além dos limites da Univens e se revela em mudança de realidades. O dinheiro que passou a circular a partir da venda das peças girou também o comércio, os serviços e as oportunidades para novos negócios no bairro.
Mais do que isso, chegou à qualidade de vida das mulheres. Todas moram perto da cooperativa, algumas delas vão de bicicleta, e isso representa tempo a mais com as suas famílias. Quando a reportagem esteve na sede, no fim de junho, os últimos cliques das fotografias foram feitos antes da pausa de duas horas delas para o almoço.
— A cooperativa aproximou as pessoas, gerou renda, sem falar na qualidade de vida que é morar perto do trabalho. É um valor de economia, de vida, de uma cooperativa que dá certo. Aqui, você continua encontrando as pessoas, então há um cuidado nas relações pessoais — diz Nelsa.
A história tramada ao longo de três décadas é referência na comunidade. Na enchente brutal de 2024, quando a água submergiu grande parte do bairro Sarandi, a calçada da Univens foi o limite para o avanço da cheia. O local então se transformou em abrigo e apoio para a comunidade, um símbolo de cooperação entre as suas pessoas.
— É nos momentos de crise que as pessoas entendem a presença e o impacto positivo das cooperativas nas comunidades. São elas que estão ali prestando apoio — comenta o superintendente do Sescoop/RS, Mário de Conto.
No Brasil, o Dia do Cooperativismo é celebrado no primeiro sábado de julho.
Região Metropolitana é a que mais coopera
As costureiras da Univens integram a Justa Trama, uma rede de trabalho que conecta 700 pessoas no país todo. A estrutura reúne todas as etapas do processo de produção das peças, do plantio do algodão orgânico, à tecelagem e à costura.
A expressividade da Univens, aliás, é uma marca do cooperativismo na Região Metropolitana gaúcha. A região do Estado é a que concentra o maior número de cooperativas associadas ao Sistema Ocergs, o Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Rio Grande do Sul – são 67 ao todo, com mais de 323 mil associados.
Juntas, as cooperativas da região, que inclui o Delta do Jacuí, faturaram R$ 9,5 bilhões em 2025, cifra 18,2% maior que a do ano anterior. A região concentra 17,9% do total de cooperativas vinculadas à Ocergs.
No ramo do trabalho, são 34 cooperativas e 9.441 cooperados no RS. O setor que foca na inclusão social e na valorização das pessoas faturou R$ 909 milhões em 2025, com R$ 31,9 milhões em sobras, que são os valores que retornam para as comunidades.