Direto da Redação
Gian Panisson: Os olhos falam
Jornalistas do Diário Gaúcho opinam sobre temas do cotidiano


Todo dia, no intervalo do almoço, eu desço quatro andares e caminho até o prédio ao lado onde é servido o buffet aos funcionários. A gente costuma se organizar em pequenos grupos para que esse seja um momento também de confraternizar com os colegas.
Um dia desses, o almoço foi silencioso. Cada um no seu celular. Menos eu, que havia deixado o dispositivo na minha mesa na redação. Eu estava desesperado por conversar e interagir. Depois de duas tentativas mal sucedidas eu desisti. As pessoas até ouviam o que eu dizia, mas ninguém tirava os olhos da tela. Eu me senti perdido, baixei a cabeça como os outros, mas em vez da tela, eu encarava o fundo do meu prato.
Voltei para o trabalho incomodado, pensativo, lembrando de outros cenários similares. Todos nós já olhamos para o celular por um segundo e, quando percebemos, cinco minutos tinham passado.
Naquele dia entendi que os olhos falam. Se estamos conversando e você não tira os olhos do celular, hoje isso é considerado normal. E o rosto fica esquecido.
Alguns dias depois encontrei um conto do Valter Hugo Mãe que finalmente traduziu o meu incômodo. Ele escreve que o rosto de cada um é imenso como a paisagem e, visto com atenção, tem distâncias até infinitas, e que se não estivermos atentos, vamos perder muito do mais importante que acontece ao nosso redor.
Aquele texto me marcou. Depois disso, eu comecei a esquecer o meu celular na minha mesa propositalmente. Ainda é estranho ser o único olhando para os rostos enquanto todos olham para as telas. Mas aprendi com Valter Hugo Mãe que um rosto é uma paisagem infinita. E nenhuma tela que conheço consegue competir com isso.
Tenho esperança de que meus olhos consigam dizer aos amigos que dividem a mesa comigo o quanto sou feliz por estar ali, com eles. Afinal, muitas vezes, são os 40 minutos mais divertidos do meu dia.