Pra Cima, Rio Grande
Jaqueta de guarda-chuva e "software do lixo": como a reciclagem transforma resíduos em renda e valor
Da grande indústria a ateliês autorais, iniciativas no RS apostam na economia circular para unir tecnologia, logística reversa e inclusão social em um mercado bilionário

Do pequeno ao grande negócio, as oportunidades na gestão de resíduos podem ser gigantescas. Se por décadas a questão do lixo foi vista como um problema menor ou delegada a terceiros, hoje seu papel é central na geração de valor. E isso vai além de novos produtos: envolve compromisso ambiental e posicionamento social — atributos essenciais para as marcas contemporâneas.
As iniciativas que atentam ao que seria lixo como potencial de valor crescem nas companhias de todo porte, da mesma forma que crescem as ferramentas que aproximam quem produz de quem possui a matéria-prima de reuso. Do plástico PET que vira banco de ônibus ao guarda-chuva que vira jaqueta, o mercado se enche de opções que aliam sustentabilidade e viabilidade econômica.
O coordenador do Conselho de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Guilherme Portella, destaca a crescente conscientização no setor produtivo para integrar a sustentabilidade às linhas de montagem. Ele lembra que, desde 2015, uma associação de logística reversa de embalagens, a Aslori, aproxima empresas de cooperativas e recicladoras que deem o destino correto aos resíduos de produção.
Em 2025, R$ 4,8 milhões em recursos da associação foram direcionados para iniciativas de fomento às recicladoras, como melhora de infraestrutura e equipamentos específicos.
Portella ressalta que existe uma meta federal que obriga as indústrias a reciclarem no mínimo 30% do que colocam no mercado. Essa regra impulsiona a economia circular entre os negócios. Das próprias embalagens longa vida, como as da Tetra Pak usadas em laticínios, já se fabricam telhas residenciais e até tubos de caneta.
Vemos uma adesão cada vez mais significativa, e isso é fundamental para o consumidor, que está atento e prioriza marcas com essa sensibilidade socioambiental. É uma mudança de postura e de conscientização.
GUILHERME PORTELLA
Coordenador do Conselho de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul
Guarda-chuva que vira moda

Em Porto Alegre, uma iniciativa verde transforma um resíduo improvável em artigos de moda. É o ateliê da marca Cós, que produz capas e jaquetas a partir do tecido de guarda-chuvas inutilizados.
A sócia-fundadora da marca, Marina Anderle Giongo, conta que a ideia nasceu em um projeto de extensão universitária que buscava formar mão de obra especializada para moda autoral e sustentável, já com uso de resíduos.
Em 2021, o trabalho foi finalista de uma competição de negócios sociais em Montreal, no Canadá. O projeto apresentado na ocasião — um quimono feito de tecido de guarda-chuva — foi o início de um modelo que viraria a principal vitrine do negócio.
A partir daí, o interesse, as parcerias e os contatos foram crescendo, até que a ideia virou marca que hoje atua como peça-chave na engrenagem da logística reversa. Uma das principais conexões ocorreu com a tradicional fabricante de guarda-chuvas Fazzoletti, que passou a fornecer peças com avarias ou devolvidas em lojas para que ganhassem nova utilidade.
A empresa chegou a fornecer 6 mil unidades de guarda-chuvas para a Cós, após a enchente de 2024 comprometer parte do prédio da Fazzoletti em Porto Alegre. Com higienização e tratamento adequados, os tecidos puderam ser reaproveitados.
A partir do contato com usinas de triagens de resíduos, como a Ksa Rosa e a UT Vila Pinto, a marca autoral tem buscado ampliar o escopo de fornecedores da “matéria-prima” das roupas. Aqui, mais do que reuso sustentável, entra um trabalho social com as comunidades que separam o lixo. A partir de oficinas, além de ensinar a técnica da costura, a marca também capacita os recicladores sobre as possibilidades do tecido do guarda-chuva e a melhor maneira de reaproveitar as peças.
É uma relação ganha-ganha. No valor que pagamos pela peça, calculamos o tempo que leva para tirar o tecido e pagamos o mesmo valor/hora que seria para a costura.
MARINA ANDERLE GIONGO
Sócia-fundadora da Cós
— É um valor bem alto se comparado a outras coisas que eles recolhem — explica Marina, sobre o trabalho dos recicladores.
A marca também tem instalado coletores de guarda-chuva pela cidade para reaproveitar o seu tecido. Um deles fica na sede do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS), no 4º Distrito, e outro na Oficina Muda.
Para confeccionar uma jaqueta, são necessários os tecidos de três a quatro guarda-chuvas. Já os acessórios demandam menos matéria-prima: com metade de um guarda-chuva, por exemplo, é possível produzir uma pochete.
Profissionalização da cadeia

Profissionalizar a cadeia do lixo no Brasil ainda é um dos desafios para que as iniciativas de reuso funcionem em sua totalidade. Mas já há ferramentas no mercado que conseguem aproximar parceiros e garantir mais dignidade aos trabalhadores da reciclagem.
De acordo com dados de pesquisa da Mastersenso Consultoria Industrial, a indústria brasileira de reciclagem processa mais de 15 milhões de toneladas de materiais ao ano e movimenta mais de R$ 80 bilhões. No entanto, grande parte do volume de resíduos recicláveis é proveniente de catadores autônomos e a maior parte do mercado é movimentada por pequenos negócios, que, muitas vezes, têm pouca infraestrutura física e tecnológica para impulsionar um crescimento de mercado.
Fundado há 20 anos, em Alvorada, e hoje com unidade no Tecnopuc, o Grupo Sygecom atua nesse cenário desenvolvendo softwares de gestão projetados para o setor de reciclagem. As soluções atendem áreas comerciais, administrativas, de transporte, estoque, logística e contabilidade.
As opções vão desde plataformas robustas para grandes indústrias até versões mais simplificadas para catadores autônomos. As soluções tecnológicas permitem rastrear o resíduo desde a coleta até o processamento, gerenciar os negócios, além de otimizar compra e venda de materiais.
Com o aplicativo Recicla Fácil, por exemplo, é possível fazer a gestão do trabalho dos catadores, otimizando a rotina de coleta, registrando volumes de materiais, listando clientes e programando entregas. É uma funcionalidade que permite que o catador visualize seu desempenho e tenha mais previsibilidade de renda.
— O setor da reciclagem é a espinha dorsal de um futuro mais sustentável e de uma economia circular real. Ao fornecer as ferramentas certas, permitimos que esse setor alcance seu potencial máximo, transformando um segmento subvalorizado e estigmatizado em uma indústria organizada e que contribui com o país de forma indiscutível — diz o CEO do Grupo Sygecom, Dinho Machado.