Caminho alternativo
Nem SUS nem plano de saúde: entenda por que as clínicas populares conquistam cada vez mais pacientes
Redes expandem unidades, realizam milhares de consultas por ano e atendem principalmente pessoas que buscam acesso rápido a especialistas e exames

Descontente tanto com o primeiro atendimento quanto com a demora para consultar um médico especialista na rede pública, Francisco José Nunes dos Santos, 53 anos, recorreu a uma alternativa cada vez mais comum entre milhares de gaúchos: as clínicas populares de saúde.
— Aqui eu consigo atendimento em poucos dias, faço os exames e ainda a consulta de retorno por um preço acessível — lista Francisco.
Ele pagou R$ 129 pelas duas consultas com um cardiologista e mais R$ 60 por um eletrocardiograma na Central das Consultas da Avenida Assis Brasil, próxima ao Lindoia Shopping, na zona norte de Porto Alegre.
Além disso, conseguiu a consulta com o cardiologista na mesma semana em que fez o primeiro contato. No posto de saúde, consultar um especialista demoraria "no mínimo, uns quatro meses", informaram-lhe.
Do outro lado da Assis Brasil, funciona outra unidade da Central de Consultas. Na quadra seguinte, está a SOS Consultas Médicas, concorrente que atua no mesmo segmento. Pouco adiante, há ainda uma unidade de outra rede, a Salute.
Preço baixo com alto volume
O mercado das clínicas de saúde mais acessíveis se consolidou em Porto Alegre entre os anos 1990 e 2000.
Hoje, há redes com múltiplas unidades na Capital e na Região Metropolitana que realizam centenas de milhares de atendimentos por ano. O modelo se sustenta no alto volume de consultas e exames, permitindo a oferta de preços mais baixos.
As clínicas oferecem consultas com dezenas de especialistas em diferentes áreas da medicina, com equipes de profissionais contratados — de forma exclusiva ou não — atuando, em geral, em um modelo de divisão da receita obtida com as consultas entre médicos e clínica.
Normalmente, as redes oferecem também a possibilidade de realização de variados exames laboratoriais, além de serviços de odontologia.
Além do preço acessível para os atendimentos avulsos, a maioria dessas redes de clínicas conta também com planos de assinatura, com pagamento mensal por volta de R$ 50, e que dá desconto em consultas e exames. Normalmente, também é possível cadastrar familiares para obter um desconto progressivo.
Essas clínicas têm se popularizado junto a uma parcela significativa da população, que são as pessoas que não têm plano de saúde, não têm recursos para ir nas clínicas particulares mais caras, e que não querem, pela demora, por desconfiarem do serviço, ou por alguma outra razão, fazer o atendimento da rede pública. Formou-se uma lacuna na oferta de atendimento em saúde, e as clínicas populares ocupam esse espaço.
ALCIDES SILVA DE MIRANDA
Professor do curso de Saúde Coletiva da UFRGS
Atendimento consolidado
Este mercado engloba algumas clínicas individuais ou redes menores, mas é ocupado principalmente por algumas grandes redes já consolidadas e com múltiplas unidades. Francisco foi buscar seu atendimento na mais recente unidade da rede Central de Consultas, inaugurada no início deste mês de junho. É a oitava da rede, que tem pontos também em Alvorada, Cachoeirinha, Canoas e Gravataí.
A Central de Consultas foi fundada em 2004, com uma sala onde funcionavam dois consultórios em um prédio na Praça Dom Feliciano, Centro Histórico da Capital. Hoje, a rede realiza aproximadamente 200 mil consultas por ano e conta com cerca de 20 mil assinantes em seu plano de benefícios.
— Quando começamos, esse mercado ainda não estava claramente estruturado. Percebemos que havia uma dificuldade muito grande da população para conseguir uma consulta com especialista. Na rede pública, essa espera pode ultrapassar um ano em alguns casos. Comecei atendendo com um colega, depois chamamos outros médicos conhecidos, e assim seguimos já há 22 anos — destaca o ginecologista Luiz Osório, diretor médico e sócio-fundador da Central de Consultas.
Bianca Rosa, auxiliar administrativa, 30 anos, trocou de emprego recentemente, e seu novo plano de saúde corporativo ainda não está liberado. Como precisava fazer um exame ginecológico anual, também buscou a Central de Consultas.
Estava na época do meu exame e eu não podia esperar, então vim fazer aqui, que também tem as consultas. Tudo dá uns R$ 200. Já tinha vindo outra vez e gostei do atendimento, então voltei enquanto meu plano de saúde novo não é liberado.
BIANCA ROSA
Paciente
Uma outra rede, com ainda mais tempo de atuação neste mercado, é a Salute, fundada em 1996. Hoje são 10 unidades, cinco em Porto Alegre e outras cinco na Região Metropolitana — em Gravataí, Canoas, Cachoeirinha, Alvorada e Viamão.
A Salute realiza aproximadamente 400 mil atendimentos por ano, com projeção de ultrapassar a marca de 450 mil em 2026.
— Exames laboratoriais, consultas com especialistas, ecografias, raios-x, ressonâncias, tudo isso acaba tendo uma fila muito grande na rede pública, e tem clínica particular que cobra R$ 500, R$ 600 só por uma consulta inicial. Tem uma parcela da população que fica no meio desse caminho, além de ter uma camada que vem crescendo nos últimos anos, que são os autônomos, motoristas de aplicativo, entregadores, MEIs, outros prestadores de serviço, que trabalham por conta própria e não têm acesso a um plano de saúde corporativo — destaca Rafael Sá, CEO e presidente do conselho da rede.
— Esse é um mercado cada vez maior, e mesmo dentro dele há uma segmentação, atendendo principalmente as classes C, D e E. Dentro desse mercado, buscamos nos posicionar com um atendimento premium, com forte controle de qualidade no serviço e nas instalações, mas há espaço também para outras propostas — complementa o CEO da Salute.
Mercado importante também para médicos
Além de ampliar o acesso da população a consultas e exames, as clínicas populares também se tornaram uma importante alternativa de trabalho para médicos. A Central de Consultas conta com cerca de 300 médicos em sua equipe fixa, além de cerca de 30 dentistas.
— Para o médico também é importante. Porque é difícil ingressar no corpo clínico de um hospital e tem gente que não quer ir para a rede pública ou abrir o próprio consultório. Nas clínicas tem uma facilidade. O profissional chega aqui e só precisa atender. Não precisa se preocupar com questões administrativas de um consultório, fazer a gestão, contabilidade, pagar funcionários, investir em marketing, fazer uma busca ativa de pacientes — aponta Luiz Osório.
Uma das médicas da rede é Maria Giselda Paz Platcheck, especialista em obstetrícia e ginecologia desde 1982. Além de ter um consultório particular que divide com outros colegas, atua na Central de Consultas há três anos.
Pra mim é ótimo aqui, porque oferecem uma boa estrutura, com boas instalações. E complementa meu trabalho no consultório. Lá tem momentos de mais movimento e outros menos. Aqui tem um fluxo contínuo de pacientes.
MARIA GISELDA PAZ PLATCHECK
Médica ginecologista e obstetra
Pela grande quantidade de médicos atuando nestas clínicas, há profissionais nos mais variados momentos de carreira. Contudo, de acordo com o vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do RS (Cremers), Eduardo Neubarth Trindade, dois perfis se destacam.
— Há muitos médicos que já estão em um estágio mais avançado da carreira, que muitas vezes não querem mais manter um consultório, e também médicos buscando ingressar no mercado de trabalho, recém-formados, ou mesmo no fim da residência. Por isso, os pacientes devem se certificar, quando buscarem a consulta com um especialista, se o profissional é devidamente qualificado — ressalta.
As políticas sobre residentes variam entre as redes. Enquanto a Salute afirma trabalhar apenas com médicos que concluíram residência nas especialidades ofertadas, a Central de Consultas informa que também conta "com uma porcentagem pequena" de profissionais em fase final de formação, mas a condição, quando ocorre, é informada previamente aos pacientes.
— Se eventualmente o médico com o horário disponível mais próximo do desejado pelo paciente ainda está realizando a residência, a gente avisa da disponibilidade, fala da possibilidade, que o médico está concluindo a formação dentro da especialidade, mas diz que não é um especialista ainda — afirma Osório.
Integração
Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Rio Grande do Sul conta hoje com cerca de 2,6 milhões de pessoas com planos de saúde, o que equivale a aproximadamente 24% da população.
Além disso, há filas de meses para consultas com especialistas no sistema público de saúde. Nesse contexto, e com centenas de milhares de atendimentos realizados anualmente no Estado, as clínicas populares de saúde estão cada vez mais integradas ao sistema de saúde gaúcho.
— Ao oferecer atendimentos de qualidade, acesso rápido a especialistas e preços acessíveis, a clínica favorece o acesso de uma boa parte da população à saúde. Além disso, facilita a realização de exames e consultas periódicas como forma de monitoramento preventivo. Isso ajuda a evitar o desenvolvimento de doenças ou o agravamento de alguns quadros —argumenta Luiz Osório.
Já o professor Alcides Miranda pondera que as clínicas populares podem servir como um complemento, mas não devem ser encaradas como substitutas ao sistema público de saúde.
— As clínicas populares oferecem serviços mais básicos e exames mais limitados. Quando o paciente precisa de um tratamento mais complexo, para um caso de maior gravidade, ou precisa de intervenção cirúrgica e não pode arcar com esses custos, volta para a rede pública — avalia.
Miranda também pondera que a existência das clínicas populares não exime o poder público de trabalhar com serviços adequados e prazos razoáveis:
— O sistema público de saúde também atende, não podemos esquecer, pessoas que não têm sequer condições de ir nas clínicas populares. Por isso, os gestores não podem se eximir de estruturar a rede para a população toda — reforça.
O que dizem as secretarias
GZH questionou as secretarias Municipal de Saúde de Porto Alegre e Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul se elas enxergam as clínicas populares como um sintoma das dificuldades de acesso à saúde ou como parte da solução para a demanda por atendimentos. Também perguntou se a rede pública teria capacidade de absorver a demanda atualmente atendida por essas clínicas.
Ambas responderam por meio de nota. A Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre afirmou que se manifesta "apenas sobre os serviços públicos de saúde sob sua gestão no âmbito do Sistema Único de Saúde". Já a Secretaria Estadual da Saúde apresentou dados sobre a Atenção Primária à Saúde e o programa SUS Gaúcho, mas não respondeu diretamente aos questionamentos sobre as clínicas populares.
Leia abaixo, as íntegras das notas:
Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Porto Alegre:
"A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) manifesta-se apenas sobre os serviços públicos de saúde sob sua gestão no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). O SUS, por determinação constitucional, garante atendimento universal e gratuito a todos os cidadãos, sem distinções.
Porto Alegre possui atualmente a maior cobertura potencial de Estratégia de Saúde da Família entre as capitais brasileiras com mais de 1 milhão de habitantes. De acordo com dados do e-Gestor Atenção Primária à Saúde, do Ministério da Saúde, 94,84% da população pode ser atendida pelas equipes de saúde da rede municipal, considerando a capacidade instalada nos territórios."
Secretaria Estadual da Saúde do RS:
"A Atenção Primária à Saúde (APS), que é principal porta de entrada do sistema de saúde, está presente nos 497 municípios do Estado, e tem como responsabilidades promover a saúde, prevenir doenças, realizar diagnóstico, tratamento, reabilitação e acompanhamento contínuo das pessoas ao longo da vida.
Também deve coordenar o cuidado entre os diferentes níveis de atenção, garantir o acesso oportuno aos serviços, desenvolver ações de vigilância em saúde e atuar junto à comunidade, considerando as necessidades do território e os princípios da integralidade, equidade e participação social.
O RS conta com 2.768 unidades básicas de saúde (UBS) e 2.709 equipes da Estratégia da Saúde da Família (ESF), o que representa que 98,30% do Estado conta com equipes de saúde para atender a população. As equipes da ESF são responsáveis por acompanhar as famílias de áreas específicas ao longo do tempo, promovendo cuidado contínuo e preventivo. No total, atuam no território gaúcho 3.480 equipes de saúde na atenção primária, além de 1.500 equipes de saúde bucal.
Filas
O programa SUS Gaúcho, do governo do Estado, está investindo mais de R$ 1 bilhão em mutirões realizados em dezenas de hospitais para reduzir filas e o tempo de espera por atendimento especializado. Deflagrado em outubro de 2025 com foco inicial em oftalmologia e ortopedia de joelho, o programa já apresenta resultados expressivos: na oftalmologia geral adulto, a fila caiu de cerca de 133,8 mil pessoas (em abril de 2025) para aproximadamente 45 mil, enquanto na ortopedia joelho passou de cerca de 20,8 mil para cerca de 8,7 mil pacientes aguardando atendimento.
A partir de 2026, novas especialidades foram incorporadas, ampliando o escopo da iniciativa para cirurgia geral adulto e pediátrica, ortopedia geral adulto, urologia adulto, urologia pediátrica, urologia litotripsia, otorrinolaringologia e dermatologia. Desde fevereiro de 2026, essas áreas também vêm apresentando redução nas filas, com destaque para a otorrinolaringologia (de aproximadamente 20,6 mil para 14,4 mil), evidenciando o avanço da estratégia de ampliação do acesso e qualificação da atenção especializada no Estado.
O acompanhamento do tempo de espera para consultas especializadas é realizado com base em critérios técnicos que consideram múltiplas variáveis assistenciais e operacionais. O cálculo do tempo de espera expresso no GERCON está disponível para o usuário no Portal Cidadão. O cálculo leva em conta o tempo até o primeiro agendamento da solicitação, e os resultados variam conforme a especialidade médica e a classificação de prioridade de cada paciente."