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Economia sob pressão

Novo tarifaço dos EUA entra em vigor: saiba tudo sobre produtos taxados, exceções e impactos no país e no RS

Sobretaxa de 25% anunciada após investigação comercial vai atingir cerca de 4 mil produtos

22/07/2026 - 10h00min


Pedro Garcia
Pedro Garcia
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SAUL LOEB/AFP
Governo de Donald Trump alega supostas práticas comerciais desleais por parte do Brasil.

Sem avanços nas negociações diplomáticas, o novo tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros entrou em vigor às 01h01min desta quarta-feira (22), no horário de Brasília. A sobretaxa de 25% deve atingir cerca de 18% das exportações nacionais e quase a metade dos embarques do Rio Grande do Sul para o mercado norte-americano.

Confira nesta reportagem:

Com a nova taxação, confirmada na última quarta-feira pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), a tarifa efetiva média sobre todas as exportações do Brasil para os EUA vai subir de 11,7% para 18,2%, segundo a Global Trade Alert, plataforma independente de monitoramento de políticas comerciais.

Com isso, o país passará a ser o segundo mais tarifado pelos EUA, atrás apenas da China, cuja tarifa média chega a 27%. Até então, o Brasil estava na 13ª posição.

O impacto sobre o Rio Grande do Sul

O tarifaço vai impactar quase metade das exportações do Rio Grande do Sul (48,2%) para os Estados Unidos, segundo cálculo da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs). O país é o segundo principal destino dos embarques do Estado.

Embora o governo norte-americano tenha divulgado uma ampla lista de exceções, somente 2% do total exportado pelo RS aos EUA foi incluído, com destaque para alguns itens de couro e pescado.

Enquanto isso, setores relevantes para a economia gaúcha permanecem afetados, como: 

  • Máquinas e equipamentos.
  • Equipamentos elétricos.
  • Calçados.
  • Móveis.
  • Tabaco.
  • Produtos metalúrgicos.
  • Diversos bens manufaturados.
Bruno Todeschini/Agencia RBS
Exportações para os EUA já caíram 13% desde o ano passado.

A nova sobretaxa se somará às tarifas aplicadas com base na Seção 232 da Lei de Expansão Comercial de 1962, sobre produtos como aço, alumínio e seus derivados, e que atingem 36,9% dos embarques do Estado. No total, de acordo com a Fiergs, 85,1% das exportações do RS aos EUA estão sob impacto de taxação extra.

Esse cenário, conforme a entidade, mantém um elevado nível de restrição ao comércio bilateral, reduzindo a competitividade da indústria gaúcha no mercado norte-americano.

A tarifa de 25% coloca o Brasil entre os países com maior custo de acesso ao mercado norte-americano, atrás apenas da China, ampliando nossa desvantagem frente aos principais concorrentes internacionais.

CLAUDIO BIER

Presidente da Fiergs

O impacto sobre o país

A sobretaxa de 25% vai afetar importantes setores exportadores do país, como madeira, máquinas e equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados e açúcar. Ao todo, a lista de produtos sujeitos à nova tarifa tem cerca de 4 mil itens. Confira alguns:

  • Fuel oil (óleo combustível usado principalmente em geração de energia e em processos industriais).
  • Gasolina.
  • Carregadeiras.
  • Transformadores elétricos.
  • Bulldozers (equipamentos como escavadeiras e tratores).
  • Motoniveladoras.
  • Pneus para automóveis, caminhões e ônibus.
  • Açúcar de cana.
  • Etanol.
  • Tabaco em folhas.
  • Portas e madeira serrada.
  • Madeira compensada.
  • Calçados de couro.
  • Granito e pedras trabalhadas.
  • Matérias proteicas.
  • Chapas de alumínio.

O governo federal estima que 18% das exportações brasileiras para os EUA serão afetadas, o equivalente a US$ 7,4 bilhões.

A sobretaxa agrava um cenário que já vinha pressionando as exportações nacionais. De acordo com a Confederação da Indústria Nacional (CNI), desde 2025 as exportações brasileiras para o mercado norte-americano diminuíram 13%, o equivalente a US$ 2,6 bilhões. A retração foi influenciada pela redução de 8,7% nas vendas de bens industriais.

Os efeitos do aumento de tarifas dos Estados Unidos estão sendo cada vez mais sentidos pela indústria brasileira: 20 dos 27 Estados reduziram suas exportações ao mercado norte-americano no primeiro semestre.

RICARDO ALBAN

Presidente da CNI

Mateus Bruxel/Agencia RBS
Setores importantes para o RS, como o de calçados, não entraram na lista de exceções.

Quais produtos entraram na lista de exceções

Apesar do impacto do tarifaço, alguns dos principais produtos de exportação do Brasil estão na lista de exceções, que tem cerca de 2,2 mil itens. Confira alguns:

  • Produtos bovinos
  • Café e especiarias
  • Aeronaves civis e peças
  • Suco de laranja
  • Frutas e nozes
  • Minérios e combustíveis
  • Produtos químicos e farmacêuticos

Quais são os argumentos dos EUA?

O tarifaço é baseado em uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) no âmbito da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, para analisar supostas práticas comerciais desleais por parte do Brasil. Ao final da apuração, o órgão recomendou a imposição de uma tarifa geral de 25% sobre diversos produtos brasileiros.

Entre as práticas apontadas no relatório do USTR que prejudicariam a economia americana, estão:

  • Barreiras digitais: decisões do Judiciário brasileiro que impactaram big techs americanas e alegações de favorecimento estatal ao sistema Pix.
  • Mercado de etanol: dificuldades de acesso de produtores dos EUA ao mercado brasileiro.
  • Fatores ambientais e governança: falhas na fiscalização do desmatamento ilegal e problemas no combate à corrupção.

O governo brasileiro vai retaliar?

Embora a Casa Branca não dê sinais de que esteja disposta a negociar mais, o governo brasileiro descarta, até o momento, adotar medidas comerciais de reciprocidade.

Nesta terça-feira (21), após se reunir com representantes de setores atingidos, o vice-presidente Geraldo Alckmin confirmou que retaliar não está no radar do Planalto.

A ideia não é retaliação. Olho por olho pode acontecer dos dois ficarem cegos.

GERALDO ALCKMIN

Vice-presidente

Empresários de setores afetados também defendem que o governo siga tentando reverter a sobretaxa por meio de negociação.

— Entendemos que nós temos que continuar pela via diplomática-empresarial, o que nós estamos fazendo — disse José Velloso, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), após a reunião.

Também nesta terça-feira, na véspera da entrada em vigor da sobretaxa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma postagem em rede social na qual afirmou que "nada é mais sagrado do que a defesa da soberania nacional". "Ninguém diz o que vamos fazer. O Brasil não se entrega”, escreveu o presidente.

ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/AFP
Mauro Vieira e Marco Rubio em encontro em novembro de 2025: negociações diplomáticas não avançaram.

As medidas para aliviar o impacto

Além de uma possível retaliação, o governo federal também estuda medidas para aliviar o impacto do tarifaço. Na última sexta-feira (17), o Ministério da Fazenda solicitou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a liberação de R$ 7,25 bilhões ao Tesouro para socorrer empresas afetadas. 

A ideia é oferecer novas linhas de crédito com juros subsidiados, reforçando o Fundo de Garantia à Exportação (FGE).

Outras medidas, como ajustes no Plano Brasil Soberano para ampliar a elegibilidade das empresas, abertura de novos mercados para exportações e ações para reduzir o chamado Custo Brasil também estão no radar do Planalto.

Risco de nova taxação em breve

Além da tarifa adicional de 25%, há possibilidade de uma nova taxação contra o Brasil ser confirmada ainda esta semana. Em entrevista nesta terça-feira (21) à CNBC, o chefe do USTR, Jamieson Greer, afirmou que o governo americano anunciará "em breve" uma decisão sobre tarifas relacionadas ao uso de trabalho forçado nas cadeias de produção

De acordo com Greer, 60 países devem ser atingidos pela medida. O Brasil está na lista e pode ser taxado em 12,5%, conforme recomendação do relatório preliminar publicado pelo USTR no dia 3 de junho.

— Os Estados Unidos têm leis que proíbem o comércio de bens produzidos com trabalho forçado. A maioria dos outros países não possui tais leis, e aqueles que as possuem não as aplicam de fato — alegou Greer.


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