Violência na Capital
"Nunca imaginei na minha vida que ia ter um ataque homofóbico", diz professor de balé espancado na Redenção
Nesta quinta, polícia cumpre mandados na investigação do caso. Suspeitos trabalham como seguranças

Cléber Veiga começou a frequentar aulas de balé ainda adolescente. No teatro, foi incentivado a aprender a dançar e, assim, descobriu a arte pela qual se apaixonaria. A dança, que exige disciplina e dedicação, acabaria por transformar-se também em sua profissão. Aos 49 anos, é dono de uma escola de balé clássico na Avenida João Pessoa em frente à Redenção, em Porto Alegre.
O parque virou praticamente o seu quintal, onde passeia com os cães, encontra amigos e paquera. Na madrugada de 9 de maio, no entanto, o passeio habitual terminou de forma violenta e traumática. O professor relata ter sido espancado por três seguranças durante um ataque homofóbico. Cléber sofreu múltiplas fraturas no rosto, em razão das agressões. O ombro direito também foi fraturado e seis dentes, quebrados.
O caso foi registrado na Polícia Civil e passou a ser investigado pela Delegacia de Combate à Intolerância, que realiza nesta quinta-feira (2) uma ofensiva contra os suspeitos do crime. A Operação Pride cumpre três mandados de busca e apreensão, sendo dois na casa dos investigados e um numa das empresas que havia contratado o serviço de segurança. Os nomes dos envolvidos não foram divulgados.
— Identificamos que a agressão foi praticada por três seguranças, dois deles contratados por um estabelecimento comercial da Redenção e um deles por um restaurante, que estava em reformas, temporariamente fechado. São duas empresas. Na sede da empresa ativa, estamos cumprindo mandados de busca e apreensão — explica o delegado Vinicus Nahan, titular da Delegacia de Combate à Intolerância.
Durante as buscas, foram apreendidos celulares, dinheiro, aparelho de choque, um cassetete, uma soqueira, uma faca e uma espingarda de pressão.
A polícia chegou a pedir a prisão preventiva dos suspeitos, em razão da gravidade dos fatos e das lesões. No entanto, a Justiça não deferiu os pedidos de prisão.
A polícia obteve um vídeo gravado pelos próprios seguranças. Na imagem, o professor aparece caído no chão, ensanguentado. É possível ouvir um dos agressores gritar: "Salta, quer roubar, vai tomar". O bailarino grita "polícia, polícia" e sai cambaleante.
— Que as agressões ocorreram não há dúvidas, tem vídeo gravado pelos próprios suspeitos. Para nós, nesse momento da investigação, está bem caracterizada a motivação homofóbica, tanto pelo relato da vítima, quanto pela extensão das lesões e pela gratuidade, que espantou de certa forma. Não teve nenhum fato que ao menos justificasse alguma legítima defesa ou algo nesse sentido — afirma o delegado.
Foram agressões gratuitas, o que corrobora o fato delas terem sido motivadas por homofobia. Essas agressões se caracterizam como um crime de ódio contra pessoas LGBTs
DELEGADO VINICUS NAHAN
Titular da Delegacia de Combate à Intolerância
Conforme Nahan, as informações obtidas até o momento indicam que os investigados continuam trabalhando como seguranças. Os suspeitos ainda devem ser ouvidos pela polícia.
"Você se sente totalmente desprotegido"

Naquela madrugada, o bailarino saiu da escola, onde dá aulas noturnas de balé para cerca de 40 alunos, e seguiu até o parque, do outro lado da rua. Cléber relata que estava sentado nas proximidades do pedalinho da Redenção, fumando um cigarro, quando teria sido abordado.
— Ele foi bem claro comigo: "Eu não quero saber de veado mais passando aqui". Aí eu falei: "Então tu muda de emprego, porque aqui o que mais tem é isso, inclusive logo vai ter a Parada Gay". E aí ele veio com a taser (arma de choque) e o spray de pimenta. Na mesma hora, saquei uma pedra e uma madeira do chão, e aí consegui ir me defendendo dele — recorda.
O bailarino descreve que, após serem acionados pelo radiocomunicador, outros dois seguranças se aproximaram e pediram que eles se acalmassem. Neste momento, Cléber teria sido agredido.
— Quando me abaixei para largar a pedra, assim que levantei, levei a primeira paulada e tonteei. Não me recordo de mais nada. Só me lembro de andar cambaleando em direção à escola, porque estava sem celular, e chamar a Brigada. Meu rosto estava muito ensanguentado. Levei oito pontos, perdi seis dentes na frente. Fraturei o ombro — diz.
O professor conta que ficou mais de um mês sem conseguir trabalhar devido às lesões. Atualmente, ainda enfrenta as sequelas físicas e psicológicas.
— Estou com crise do pânico, insônia, coisas que nunca tive antes. Tenho uma dificuldade enorme de respirar. Você se sente totalmente desprotegido de tudo. Está vulnerável naquela situação, então isso acaba contigo, acaba com o teu psicológico, tu perde as forças. Sempre fui um bom cidadão, sempre trabalhei. Qual é o problema de eu ser gay? Essa é a pergunta — diz.
Após as agressões, um ato chegou a ser realizado na Redenção contra a homofobia. Agora, o bailarino evita se aproximar do parque:
— Tenho medo. A minha única preocupação antes era não levar o celular, por medo de que um ladrão quisesse me assaltar, me machucar. Se isso acontecesse, eu iria correr para os vigilantes. Nunca imaginei na minha vida que ia ter um ataque homofóbico, nunca pensei. Isso tem que acabar.

Campanha de arrecadação
Uma campanha online (acesse neste link) foi criada para ajudar o bailarino com os custos dos procedimentos médicos, como a reconstrução do nariz, que está fraturado, e o implante dentário.
— O bailarino é um profissional muito vaidoso. É difícil me encarar no espelho. Isso me destrói psicologicamente. Por isso, neste momento, preciso de toda ajuda possível — diz Cléber.