Notícias



Meio Ambiente

O que explica o corte de mais de 150 árvores à beira-mar das praias ao sul de Torres, no Litoral Norte

Supressão das casuarinas, espécie originária da Ásia e Austrália, atende a uma determinação do Ministério Público Federal e da Procuradoria Geral da União (PGU)

30/07/2026 - 09h27min


Pedro Zanrosso
Pedro Zanrosso
Enviar E-mail
Prefeitura de Torres/Divulgação
Segundo a prefeitura, as árvores da espécie Casuarina equisetifolia, que estão fixadas à beira-mar das praias ao Sul de Torres, serão removidas até o fim do ano.

A Prefeitura de Torres pretende cortar, até o fim do ano, de cinco a seis mil exemplares de árvores da espécie Casuarina equisetifolia, que foram plantadas ao longo dos anos nas dunas costeiras localizadas em um trecho de cerca de 20 quilômetros entre o balneário Paraíso e os Molhes.

Segundo o biólogo e secretário do Meio Ambiente, Douglas Gomes, por ser considerada exótica e invasora, a árvore casuarina inibe o crescimento de outras espécies vegetais, empobrecendo o ecossistema do entorno.

Na última segunda-feira (27), mais de 150 exemplares foram cortados em um jardim da Praia Real, que é mantido por moradores e veranistas, a partir de uma ação individual encaminhada ao Ministério Público Federal (MPF) que determinou o corte.

— É uma ação antiga que sempre empurramos para frente e este ano começamos de forma efetiva para não sofrer multas diárias. Naquele ponto específico, o corte foi determinado por uma ação individual de um morador que ganhou a causa no MPF, o qual nos deu até a quarta-feira (dia 29/7) para cortar. Agora temos uma ação global da Fepam e vamos cortar de cinco a seis mil árvores nessa faixa — confirma o secretário.

Em substituição, serão plantadas espécies rasteiras e herbáceas, como capim-da-praia e margarida-das-dunas, revela a Secretaria do Meio Ambiente.

Prefeitura de Torres/Divulgação
Ação iniciou na segunda-feira e desagradou moradores que utilizavam o local para lazer.

Moradores questionam cortes e cobram infraestrutura

Com bancos e balanços, o local onde as primeiras árvores foram cortadas, na Praia Real, a cerca de 18 quilômetros do centro de Torres, era utilizado por moradores que criticaram a ação.

— Era a extensão dos nossos jardins. Na pandemia, construímos uma capelinha e até missas foram rezadas ali. Entendemos que não são espécies nativas, mas ofereciam sombra e um ótimo local de lazer — pondera a empresária Marcia Merlin.

Já o presidente da Associação de Moradores da Praia Paraíso, Wilson Diaz, que com frequência pede intervenções para melhoria da infraestrutura do bairro, questiona a rapidez com que as árvores foram cortadas.

— Somos um bairro organizado e administrado pela iniciativa privada, falta limpeza pública das ruas e placas de sinalização de trânsito. O poder público faz o mínimo do mínimo em ruas intrafegáveis. Agora, obedecendo a uma lei federal, todas as árvores que estão há mais de 50 anos lá, protegendo nosso clima, estão sendo removidas. Ou seja, assistência pública paupérrima nas condições básicas, mas extrema presteza para cumprir uma ordem federal que está sob discussão há mais de 20 anos — salienta Diaz.

De acordo com a prefeitura, os bairros são irregulares e as intervenções, quando realizadas, são autorizadas por liminares da Justiça. O recolhimento de lixo, segundo a Secretaria de Meio Ambiente, é realizado três vezes por semana.

— São bairros irregulares que começaram na década de 1970 e 1980, e o empreendedor abandonou o processo de urbanização. A prefeitura não consegue fornecer serviços porque eles ainda são chamados a concluir a obra. Mas trabalhamos nisso e fazemos serviços pontuais, como a coleta de lixo três vezes por semana e saibramento de ruas quando conseguimos liminares.

Em Arroio do Sal, plano de manejo propõe corte de exemplares de até dois metros

A exigência para que as casuarinas sejam eliminadas das dunas costeiras não é exclusividade de Torres. Em Arroio do Sal, onde a determinação também já chegou, o plano de manejo propõe o corte de exemplares de até dois metros, manutenção das árvores maiores e controle de brotação de novas espécies.

A proposta da Secretaria Municipal do Meio Ambiente ainda depende da aprovação dos órgãos estaduais, mas é, segundo o biólogo e consultor ambiental da prefeitura, Marcos Munhoz, uma forma de levantar o debate para que as árvores, mesmo que invasoras, sejam mantidas nos locais.

— Não vamos nos eximir da obrigação, mas é uma tentativa de equilibrar a pauta. Não é a melhor árvore para se ter nessa área, mas é a que temos. É preciso ponderar o manejo da espécie com os serviços que ela passou a fornecer. A casuarina não é a árvore ideal para a duna, mas cumpre papéis práticos que o morador sente diretamente, como a proteção contra o vento, o sombreamento e até a atração da fauna como poleiro. O cidadão enxerga ali uma árvore adaptada e com valor afetivo. O plano busca criar esse diálogo: em vez de um corte total e abrupto, propomos o controle da expansão e uma transição que respeite a identidade visual e o bem-estar do litoral — defende Munhoz.


MAIS SOBRE

Últimas Notícias