Bateu asas
O sumiço dos pardais: por que a ave que era comum em Porto Alegre está desaparecendo?
Especialista da UFRGS explica como a falta de alimentos e a modernização das casas estão afastando a espécie da Capital

Um dos pássaros mais adaptados aos grandes centros urbanos, o pardal tem sido avistado com menor frequência em Porto Alegre. No passado, essa ave predominava em parques, calçadas e árvores da cidade.
Conforme o professor Ismael Franz, do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o pardal sumiu de vista em decorrência de questões relacionadas a aspectos de sua nutrição e reprodução.
— O que o pardal mais gosta é de grão, e a gente percebe hoje na cidade uma diminuição desse tipo de alimento. Temos menos terrenos baldios. E até nas praças se troca o capinzal e o gramado por uma área pavimentada — explica o especialista.
O pássaro, de cerca de 15 centímetros, é onívoro, possui bico forte e se alimenta especialmente de sementes. Porém, também come insetos, frutas e o que é descartado pelo homem. Normalmente, vive em pequenos grupos e pode ser visto no chão dando saltinhos e fazendo grande algazarra.
Entre as espécies que podem ser visualizadas com mais facilidade hoje estão joão-de-barro, sabiá-laranjeira, caturrita, bem-te-vi e pomba-rola (conhecida ainda como rolinha-roxa).
Transformações urbanas
Além da escassez de alimento, o pardal acabou sendo vítima das transformações arquitetônicas dos grandes centros urbanos. A ave costuma entrar nas calhas ou em fissuras das casas para fazer seu ninho de capim. Mas agora há menos moradias e mais edificações.
— A construção das casas mudou e se modernizou. Não temos tanto os beirais junto às calhas. Essa modernização na forma de construir promove uma diminuição de substrato ou micro-hábitat para o ninho dessa espécie — afirma Franz, coautor do livro Aves do Pampa (UFRGS, 2025), com Felipe Zilio.
O professor cita referências de pesquisas internacionais sobre a diminuição do pardal também em outros países. Ou seja, trata-se de um fenômeno global.
Entretanto, o curioso dessa situação é que esse pássaro tem como principal marca a facilidade de adaptação aos grandes centros urbanos, como é o caso de Porto Alegre. Sumir parece um contrassenso.
— Apesar de ser uma espécie de áreas urbanas, a superurbanização e a verticalização da cidade podem estar prejudicando o pardal — conclui Franz.
O que o pardal mais gosta é de grão, e a gente percebe hoje na cidade uma diminuição desse tipo de alimento.
ISMAEL FRANZ
Professor do Departamento de Zoologia da UFRGS
Origens incertas
De acordo com o professor, que se dedica ao estudo dos pássaros há 25 anos, o pardal não é nativo da fauna do país. Teria sido introduzido no começo do século passado, trazido provavelmente de navio da Europa.
— Tem informação de que um cidadão português havia trazido uns 200 pardais para o Rio de Janeiro para controlar os mosquitos, já que é onívoro (alimenta-se tanto de substâncias vegetais como animais). Mas não temos certeza sobre qual foi o momento e de que forma ele passou a colonizar outras áreas. Até a metade do século 20, o pardal ocupava todos os Estados do Brasil — contextualiza.
Pássaros ativos e agressivos

O pardal macho apresenta plumagem de cor branca no lado da garganta e uma espécie de "babador" de cor preta. Por sua vez, a fêmea — conhecida como pardoca — exibe cor marrom cinzenta, sem traços distintivos nas penas. Ela não possui a mancha negra no peito. São pássaros ativos e agressivos, podendo expulsar outras aves de seus hábitats e ocupar os ninhos de algumas.
Segundo o livro As Aves no Folclore do Rio Grande do Sul (Edigal, 2009), de Roberto Gonçalves de Oliveira, o pardal é bastante prolífico, fazendo três posturas em cada estação de cria, com ninhadas de três a quatro ovos.
"O período de incubação é de 12 dias, e os filhotes com pouco mais de 10 dias já deixam o ninho", diz trecho da obra.
Chegada da espécie ao RS
Ainda conforme o livro, o pardal teria chegado ao território gaúcho entre 1910 e 1923, vindo do Uruguai. Teria adentrado pela Fronteira Sul, de Santa Vitória do Palmar a Uruguaiana, chegando até Santa Maria, na Região Central. Desde 1917, também era conhecido em São Leopoldo, no Vale do Sinos.
Mas as origens são realmente incertas e até variadas. Em São Gabriel, na Fronteira Oeste, teriam sido importados de Portugal — não há registros da data —, entregues a um homem e depois soltos na Praça Fernando Abott.
Outra versão diz que o então prefeito de Bagé, Nabuco de Gouvêa, teria trazido casais de pardais como elementos ornamentais. Porém, não se sabe se diretamente de Paris ou do Rio de Janeiro.