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Trauma das águas

"Temo que o pior aconteça": o que é ansiedade climática e como ela transformou a rotina em Porto Alegre

O retorno das chuvas reacende memórias traumáticas da enchente de 2024. Especialistas explicam a reação emocional que atinge tanto vítimas diretas quanto quem testemunhou a tragédia de perto

24/07/2026 - 09h50min


Carlos Redel
Carlos Redel
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Duda Fortes//Agencia RBS
Chuvarada desta semana trouxe aos porto-alengrenses más lembranças e receio de que 2024 pode se repetir.

Os porto-alegrenses ainda estão em processo de entender e superar a enchente de 2024, que foi a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul. Dentro deste difícil processo, surge a previsão de uma nova temporada de chuvas intermitentes, motivadas pelo fenômeno meteorológico El Niño. E isto intensifica a chamada ansiedade climática.

O termo, que vem ganhando mais popularidade à medida que as mudanças no clima estão mais aceleradas, ajuda a explicar o comportamento dos gaúchos que ficam preocupados quando começa a chover. De acordo com a psicóloga Karen Scavacini, coordenadora do SkillsLab, programa da Fundação Getúlio Vargas voltado ao desenvolvimento de competências socioemocionais e de vida, esta insegurança é normal para quem presenciou o episódio traumático.

Quando começa a chover, já começo a consultar todos os dias o nível dos rios. Não só do Guaíba, mas do Estado inteiro. Era algo que nunca imaginei que faria. A minha esperança, agora, é que tenham arrumado as casas de bombas.

JOSÉ SILVEIRA

74 anos, morador do bairro Praia de Belas

— Essa ansiedade climática pode aparecer em quem sofreu diretamente o desastre, mas também em quem acompanhou o sofrimento da cidade. Essas pessoas começaram a perceber que o lugar onde elas vivem e que deveria ser seguro, na verdade, é vulnerável. E isso traz o medo de a cidade sofrer da mesma forma, que pode levar à irritabilidade, dificuldade de concentração, dificuldade de dormir, raiva, frustração — detalha a psicóloga.

É o caso de José Silveira, 74 anos, do bairro Praia de Belas, que se viu no meio de um pesadelo em 2024, quando o prédio onde mora foi tomado por dois metros de água. Ele precisou ser resgatado de barco, tal qual como as histórias que ouvia da enchente de 1941 — que parecia tão distante, quase como uma lenda. Depois da experiência, a sua rotina mudou.

— Quando começa a chover, já começo a consultar todos os dias o nível dos rios. Não só do Guaíba, mas do Estado inteiro. Era algo que nunca imaginei que faria. A minha esperança, agora, é que tenham arrumado as casas de bombas para que tudo não se repita. Não é nada confortável a situação — relata Silveira, que caminhava pela Avenida Ipiranga nesta quinta-feira (23) com um guarda-chuva na mão.

Atuante na ajuda aos atingidos pela enchente de dois anos atrás, trabalhando como voluntária em abrigos, a massoterapeuta Simone Gross, 53, moradora do Menino Deus, enxerga nos seus próprios clientes a ansiedade com o clima:

— As pessoas estão mais tensas, deprimidas, comem menos, ficam com uma irritabilidade maior. Isso de não ter o sol presente, esse tempo sempre cinza, deixa todo mundo para baixo. Eu mesma tenho vontade de ir embora daqui, para um lugar que tenha sol, mas Porto Alegre também tem as suas belezas. Só que tanta chuva assim desanima.

Para o psicólogo Mateus Luz Levandowski, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a ansiedade climática não é irracional. É uma resposta emocional e comportamental compreensível diante de ameaças ambientais reais, especialmente depois de uma experiência concreta como a da enchente de 2024.

— Esta reação é fundamentada e concreta, seja pelo o que as pessoas passaram na pele ou presenciaram no noticiário. O problema surge quando esse medo passa a dominar a rotina, o sono, o relacionamento e a própria capacidade de agir — avalia o Levandowski.

Quem presenciou

A psicóloga da FGV explica que, até mesmo quem não teve a casa atingida pela enchente, pode sentir um "trauma vicário", ou seja, um sofrimento emocional profundo que surge ao escutar relatos, ver imagens ou absorver a dor de outras pessoas.

Este tipo de sofrimento, por exemplo, atinge Elaine Oliveira, 50, autônoma, que mora na Azenha. Ela não teve a água invadindo a sua casa, mas presenciou tão de perto a tragédia que, hoje, não consegue ficar tranquila quando o tempo fecha.

Eu estou morrendo de medo dessa chuva toda. Temo que 2024 se repita. Ou que seja até mesmo pior. As pessoas nem se recuperaram ainda, sabe? Me causa muita ansiedade, me tira o sono ver que a previsão do tempo é sempre ruim. Isso também afeta o comércio, as pessoas ficam com medo de sair de casa — detalha Elaine.

A jornalista Maria Eduarda Rabelo, 29, mora no bairro Boa Vista e enxerga com preocupação a influência do El Niño sobre o Estado, bem como a pouca informação sobre obras de prevenção para evitar novas tragédias. Além disso, ela também se incomoda com a umidade que não abandona a cidade, deixando tudo com uma sensação "gosmenta".

Estou depressiva, ansiosa, temendo que o pior aconteça de novo. Quem é porto-alegrense sabe que, com duas gotinhas de chuva, a gente já fica atiçado, lembrando de tudo que vivemos. A gente só quer que o sol volte — afirma a jornalista.

Para a psicóloga, existe um agravante nesta situação, que é a impotência frente a problemas tão grandiosos quando uma enchente e, também, a impossibilidade de deter as águas — um trabalho que demanda muitas pessoas e um investimento milionário.

— Quando um episódio tão grave acontece, mas se você foi cuidado, houve um investimento, infraestrutura, você se sente mais protegido. Então, caso haja um novo desastre, você já se sente mais seguro. Agora, quando as pessoas são deixadas a deus-dará, aumenta a sensação de impotência — avalia Karen.

Para Levandowski, quem mora em uma cidade que já sofreu com duas grandes enchentes e que pode vir a enfrentar outro episódio semelhante, está sujeito a ter conviver com a ansiedade climática. E ela pode estar inserida na rotina, incentivando a ter cuidados, planejamento e monitoramento da situação em fontes confiáveis. Só que isso não pode afetar as outras atividades.

A preocupação produtiva é boa. A gente aprendeu enquanto sociedade que precisamos estar preparados para não sermos pegos de surpresa, como em 2024. Só que, quando ela toma proporção grande demais, pode acarretar em ter alterações de humor, ataques de ansiedade, problemas de sono e, em última escala, até mesmo  atrapalhar na preparação para agir. Quando chega neste nível, talvez seja preciso de um atendimento especializado — enfatiza o psicólogo.

Falta o sol

Nestes dias de chuvas insistentes, Nair Maria da Silva, 73, dona de uma banquinha de variedades — que vende de bolsas a guarda-chuvas —, bem na esquina entre as avenidas Azenha e Professor Oscar Pereira, preocupa-se constantemente com quem mora em áreas alagáveis. E, com o seu olhar atento à cidade, afinal, trabalha na rua diariamente há 32 anos, enxerga uma hostilidade climática cada vez maior.

— Fico com medo das tempestades, com muito vento. Isso é terrível. E percebo que está cada vez mais frequente. Antes, não era tão seguido. Sair de casa com esse tempo sempre nublado deixa a gente para baixo, dá vontade de nem sair. Nem para os negócios essa chuva toda é boa: ontem, por exemplo, não vendi um guarda-chuva sequer — comenta Nair.

As pessoas nem se recuperaram ainda, sabe? Me causa muita ansiedade, me tira o sono ver que a previsão do tempo é sempre ruim.

ELAINE OLIVEIRA,

50 anos, comerciante do bairro Azenha

Michele Costa, 38, moradora do Partenon, está desempregada e sente um grande desânimo cada vez que abre a janela de casa e percebe que a chuva não parou. Segundo ela, os dias cinzas afetam diretamente o anímico e, com a previsão do tempo mostrando um cenário não muito melhor para o futuro próximo, sobra pouco espaço para a alegria de encarar um novo dia.

— De 2024 para cá, fiquei mais ansiosa, analisando tudo, vendo se o rio está subindo, sempre atenta ao Guaíba. Hoje, se eu pudesse, iria embora para um lugar com mais sol e calor — conta Michele.

Scavacini avalia que esta vontade de ir embora da cidade que foi atingida pela enchente no passado pode ser classificada como uma ansiedade antecipatória, em que a pessoa não quer estar presente no lugar para reviver toda a tragédia. E, neste contexto, ela explica a importância de se ver o sol:

— Quando o sol está lá, ele dá certeza de que não vai ter uma grande chuva e que algo ruim não vai acontecer. E para as pessoas que viveram a enchente de 2024, muitos dias sem sol podem trazer lembranças ruins. E, claro, um dia de sol ajuda bem a saúde mental.

Nas redes sociais

O tema da chuva insistente na Capital também está sendo debatido nas redes sociais. Veja alguns posts:



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