Clima
Umidade favorece o mofo no inverno e pode causar doenças; veja como reduzir o problema
Especialista explica como a combinação de umidade, calor e pouca ventilação favorece o surgimento do fungo e orienta formas de reduzir a propagação

A chegada do inverno traz um problema recorrente para muitos moradores da Serra: o mofo. A combinação de umidade, pouca circulação de ar e calor favorece o desenvolvimento do fungo dentro das residências. Em Caxias do Sul, uma moradora relata as dificuldades enfrentadas e uma especialista explica como reduzir a propagação.
Há três meses, a nutricionista clínica Camila da Rocha se mudou de Porto Alegre para um apartamento em Caxias do Sul. Pouco tempo depois, começou a perceber o surgimento de mofo no teto do banheiro e em outras partes da casa.
— Vim de Porto Alegre e percebi esse problema mais nos dias em que tinha neblina. Vi muita umidade dentro de casa, nas janelas, e começou a surgir no banheiro. Deixo a janela aberta sempre que termino o banho para arejar e evitar que apareça mais — conta.
Segundo Camila, ao alugar o imóvel ela sabia que nem todos os cômodos recebiam luz solar, mas acreditava que a ventilação e a área verde ao redor seriam suficientes para evitar o problema.
— A surpresa é que parece que mantém mais úmido. Eu não tenho muita luz solar desse lado, as árvores também tapam. Parece que conserva a umidade no apartamento — afirma.
A professora do curso de Engenharia Química da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Camila Baldasso, explica que o mofo está presente no ambiente, mas só se desenvolve quando encontra condições favoráveis.
— Ele está sempre na nossa casa, só que a gente não enxerga. Ele precisa de um ponto para crescer. A alimentação dele é o pó, a tinta e as sujeiras que estão no ambiente.

De acordo com a professora, no inverno o problema tende a se intensificar porque as pessoas mantêm a casa fechada e utilizam fontes de calor para aquecer os ambientes.
— A gente fecha a casa e liga as fontes de calor. As paredes e janelas ficam geladas. Quando o calor encontra essas superfícies frias, ocorre condensação, formando umidade. Aí temos o conjunto de calor, poeira, fungo e umidade.
Segundo a especialista, uma vez instalado, o mofo precisa ser tratado. Para reduzir a propagação, ela recomenda manter a casa ventilada sempre que possível, especialmente em dias de sol, abrindo janelas opostas por 15 a 20 minutos.
Ela também orienta o uso de soluções simples para a limpeza das áreas afetadas. Uma delas é aplicar vinagre de álcool sobre o mofo, deixar agir por cerca de uma hora e, depois, limpar com um pano úmido, sempre utilizando luvas e máscara para não respirar o fungo durante a limpeza.
Para superfícies como azulejos e vidros, a professora indica o uso de água sanitária diluída na proporção de um para um. Ela ressalta que o produto deve ser utilizado com cuidado, principalmente em ambientes fechados, por ser tóxico, e não é recomendado para materiais porosos.
Outra alternativa é utilizar desumidificadores de ambiente ou esferas de cloreto de cálcio, que ajudam a absorver a umidade em locais como guarda-roupas.
Mofo pode desencadear crises de asma e alergias, alerta pneumologista
Para Camila da Rocha, controlar o mofo é uma preocupação ainda maior por causa da saúde.
— Eu sempre tive asma, problemas respiratórios e sou bastante alérgica. Na semana passada já comecei a sentir mais alergia e precisei usar medicamentos. Como ainda estamos no início do inverno, isso me deixa bastante preocupada com a minha saúde.
A exposição ao mofo pode agravar doenças respiratórias e provocar reações alérgicas, principalmente durante o inverno. Em entrevista ao Jornal do Almoço, o médico pneumologista Luciano Grohs explicou como a inalação dos fungos afeta a saúde e orientou sobre medidas de prevenção.
Segundo o especialista, a principal forma de exposição ocorre pela inalação dos esporos do fungo. Por isso, ele recomenda o uso de máscara durante a limpeza de locais com mofo.
— O mofo tem uma série de repercussões na nossa saúde, principalmente quando a gente o inala. A principal repercussão é a descompensação das doenças respiratórias, como asma, alergias e rinite.
De acordo com Grohs, pessoas com doenças relacionadas à imunidade também podem desenvolver quadros mais graves. No entanto, ele ressalta que, na prática clínica, a asma é a principal condição agravada pela exposição ao mofo.
O pneumologista afirma que mesmo quem não tem diagnóstico prévio de doença respiratória pode ser afetado. Segundo ele, quanto maior o tempo de exposição ao fungo, maior é o risco de desenvolver processos inflamatórios e outras complicações.
— Quanto mais a gente se expõe, maior é o risco. O fungo pode descompensar doenças alérgicas e até causar doenças específicas, como a aspergilose alérgica.
Segundo o médico, os sintomas costumam surgir de forma gradual. Tosse, chiado no peito, aperto no peito, coceira e obstrução nasal estão entre os sinais mais frequentes. As mudanças bruscas de temperatura, comuns no inverno, podem acelerar o aparecimento desses sintomas.
— Em geral, o quadro é progressivo. A pessoa começa a tossir, coçar o nariz e sentir o nariz trancado, principalmente quando deita.
Para reduzir os riscos, Grohs orienta manter uma alimentação equilibrada, boa hidratação, controlar doenças crônicas e seguir corretamente os tratamentos prescritos para quem já tem diagnóstico de doenças respiratórias.
Ele também recomenda atenção às variações de temperatura e o uso de roupas adequadas para evitar mudanças bruscas na exposição ao frio.
O pneumologista destaca ainda que o mofo é um dos fatores que podem contribuir para o aumento de problemas respiratórios no inverno, especialmente em ambientes úmidos e com pouca ventilação.
— Banheiros úmidos, azulejos molhados e locais pouco arejados favorecem o surgimento do mofo, que pode contribuir para o agravamento das doenças respiratórias.
Durante a entrevista, o especialista reforçou a importância da vacinação como medida de prevenção. Segundo ele, além da vacinação contra a Covid-19, é fundamental manter em dia a imunização contra a gripe e outras doenças preveníveis.
— A gente pode fazer muita coisa para não ficar doente. Sem dúvida, vacinas de qualidade fazem muita diferença.
Por fim, Grohs orienta que pessoas com doenças respiratórias mantenham o tratamento preventivo durante todo o ano e procurem acompanhamento médico antes do surgimento de crises.
— A asma, por exemplo, precisa ser tratada continuamente. Não é indicado esperar a crise aparecer para iniciar o tratamento.