Retratos da Vida
Acesso à saúde mental ampliado com a tecnologia
Daniel Bortolin e Fernanda Gomes criam plataforma para facilitar a conexão entre pacientes e terapeutas

As dificuldades para encontrar um terapeuta, os altos custos do tratamento e o preconceito em torno da saúde mental motivaram um casal a transformar um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em um projeto de impacto social. Desenvolvido por Fernanda Gomes Canan e Daniel Bortolin, estudantes do UniSenac – Porto Alegre, o 100 Neura pretende facilitar a conexão entre pacientes e terapeutas por meio de uma plataforma que deve entrar em operação até o fim deste ano.
A ideia surgiu a partir da própria trajetória do casal. Ambos são terapeutas e neurodivergentes e vivenciaram, de diferentes formas, as dificuldades de acesso ao acompanhamento psicológico.
– Sou uma mulher autista e fiquei cerca de dois anos sem acesso à terapia por não conseguir pagar. Só depois descobri que existiam atendimentos com valor social. Essa experiência mudou completamente a forma como enxergamos esse mercado – conta Fernanda.
Inicialmente, o projeto nasceu como tema do TCC de Fernanda, 30 anos, aluna de Processos Gerenciais. Daniel, 33, estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, assumiu o desenvolvimento tecnológico da plataforma, enquanto Carmen Alzira de Oliveira, colega de Fernanda, colaborou na estruturação do trabalho.
Durante a pesquisa inicial, realizada com mais de 500 terapeutas, os estudantes identificaram dois problemas centrais: o desafio de pacientes encontrarem profissionais compatíveis e a dificuldade dos próprios terapeutas em captar clientes.
– Descobrimos que a maioria dos profissionais oferecia atendimento social, mas muitas pessoas simplesmente não sabiam disso. Ao mesmo tempo, mais de 95% dos terapeutas relatavam dificuldade para conseguir pacientes – explica Fernanda.
Foi a partir desse diagnóstico que nasceu o 100 Neura. O principal diferencial da plataforma será o Match Mental, um sistema que utiliza informações fornecidas por pacientes e terapeutas para indicar profissionais com maior compatibilidade. Fernanda explica:
– Terá um questionário que cruza as informações, faz um match entre o analisando e o terapeuta. Às vezes, a pessoa chega e não entende nada sobre abordagens. A gente vai deixar possível que a pessoa filtre por abordagem, mas se a pessoa não entende nada, tem o nosso match ali que talvez a ajude a ter uma ideia. Porque o que a gente tem muito hoje em dia é recomendação, que é ótima, só que, às vezes, o que funcionou para o nosso coleguinha não funciona com a gente. Nós sabemos da importância desse vínculo na terapia, e quando não há, existe muita evasão.
Democratizar a terapia
Além da tecnologia, o projeto pretende reduzir barreiras financeiras. A plataforma permitirá que terapeutas ofereçam tanto atendimentos pelo valor integral quanto consultas com preços sociais, ampliando o acesso de pessoas que normalmente não conseguem manter um acompanhamento psicológico.
Embora o projeto esteja em fase avançada de desenvolvimento, o casal conta que o caminho não foi simples.
Além de investir recursos próprios, eles precisaram vencer desafios pessoais. Fernanda diz que superar a timidez e aprender a apresentar a plataforma em eventos foi uma das maiores conquistas. Daniel destaca outro obstáculo.
– Eu sou do Sarandi, bem no final da vila, tive muitas dificuldades. Então, sempre foi muito difícil o acesso para pessoas da minha origem. É muito difícil localizar, conseguir identificar um terapeuta, saber que tem valor social. Acho que, pelo menos para mim, esse foi um dos pontos principais. Eu acho que uma das principais causas da gente querer fazer o 100 Neura é que a saúde mental é muito desvalorizada e não é explicada a importância.
Próximos passos
A expectativa é de que a primeira versão da plataforma esteja disponível até novembro.
Inicialmente, ela permitirá o cadastro de pacientes e terapeutas, além do funcionamento do Match Mental. Em seguida, novas funcionalidades serão incorporadas, como lembretes de consultas, ferramentas para organização dos profissionais, transcrição de prontuários e otimização dos perfis para mecanismos de busca.
Todos os profissionais terão seus registros verificados antes da aprovação, enquanto os dados dos pacientes permanecerão privados.
Mesmo antes do lançamento oficial, o 100 Neura já reúne centenas de terapeutas interessados em participar da plataforma e começa a receber reconhecimento.
O projeto disputa o 6° Prêmio Impactos Positivos, com votações abertas no site gzh.digital/Premiação.
*Com orientação e supervisão de Émerson Santos