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Até churrasco a bordo: Itapuã, onde o Guaíba encontra a Lagoa dos Patos, torna-se reduto da pesca esportiva

Águas no extremo sul de Viamão são disputadas pelos amantes de pescarias. Paisagem deslumbrante e serviço caprichado são atrativos extras

09/08/2026 - 11h04min


Humberto Trezzi
Humberto Trezzi
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Jonathan Heckler
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São 7h e os primeiros tons alaranjados rompem o breu da madrugada. O timoneiro liga o possante motor de 150 HP do barco metálico, quebrando o silêncio que impera na Vila de Itapuã, extremo sul da Região Metropolitana, município de Viamão.

O ronco ganha força à medida que a embarcação ruma para o ponto em que dois cartões-postais gaúchos, o Guaíba e a Lagoa dos Patos, unem-se numa imensidão de águas.

No dia de julho em que Zero Hora é convidada para a pescaria, o termômetro marca 5°C, mas nem passageiros nem tripulantes parecem ligar para o frio sulino. A expectativa de fisgar bagrinhos, bagres e bagrões supera qualquer desconforto, ainda mais numa paisagem deslumbrante como aquela.

É então que a natureza se revela em esplendor. Doze quilômetros depois, o barco ancora em frente ao Farol de Itapuã, construção verde e branca erguida em 1860 num rochedo emoldurado por mata nativa e que ainda hoje funciona como guia luminoso, evitando que barcos de todos os tamanhos saiam do canal e encalhem em bancos de areia.

Por algum curioso motivo, talvez ligado à vegetação e à proliferação de grandes insetos, o local é um refeitório a céu aberto para peixes de couro, como bagres, jundiás e pintados. O lusco-fusco da alvorada parece estimular os saltos acrobáticos dos bichos, fazendo os pescadores anteverem a luta que está por começar.

— Não precisaria nem fisgar, porque só a paisagem já descansa os olhos do sujeito. Mas peixe nunca falta — comenta, com um sorriso, o capitão do barco, Ezequiel Petter Martins, 45 anos.

Martins cresceu em Itapuã, na Praia dos Passarinhos, próximo ao Parque Estadual de Itapuã, uma das joias naturais da região. Em 2022, decidiu deixar de lado a profissão de supervisor de segurança privada, interrompeu duas faculdades (Administração e Gestão em Segurança Pública) e passou a se dedicar integralmente ao que mais gostava desde criança: a pescaria. Transformou o hobby em negócio ao fundar a Cia da Pesca, empresa que leva turistas pelas águas entre a Vila de Itapuã e a Lagoa dos Patos. Hoje, conta com dois barcos: o Fala Sério e o Águia do Sul.

As embarcações são grandes e equipadas com motores a diesel, os mesmos das caminhonetes F-1000. Cada uma tem capacidade para transportar até 20 pessoas.

Ezequiel é apenas um entre cerca de duas dezenas de timoneiros ancorados em Itapuã que enxergaram na pesca esportiva uma forma de unir sustento e lazer. Apaixonados pela atividade, eles transformaram o encontro das águas do Guaíba com a Lagoa dos Patos, em formato de funil invertido, em um movimentado reduto de barcos. Uma flotilha sem chefes, na qual cada um é patrão de si mesmo.

Humberto Trezzi/Agência RBS
O barco Das Missões é um entre duas dezenas que levam pescadores até a confluência do Guaíba com a Lagoa dos Patos.

Outro que deu uma guinada na vida foi Claudinei Machado Barbosa, 61 anos. Trabalhava com reforma de casas em Porto Alegre, mas sua verdadeira paixão era a pescaria. De duas a três vezes por mês, embarcava em Itapuã para fisgar bagres. Até que, um dia, chamou a esposa para uma conversa:

— Vamos trocar o carro por um barco? Unir o útil ao agradável, ter uma renda e fazer algo de que realmente gosto.

A esposa concordou, e os dois se mudaram para Itapuã, onde passaram a morar em uma casa a apenas 10 metros do arroio que serve de canal para as embarcações que deixam o Guaíba em direção à Lagoa dos Patos.

O barco de metal reformado por Claudinei recebeu o nome de Das Missões, porque ele comparava a tarefa de levar e trazer os clientes em segurança a "uma missão sagrada". No inverno, a clientela diminui um pouco por causa do frio. Já entre setembro e o fim do verão, ele faz, em média, 25 pescarias por mês, o que lhe garante uma boa renda.

— A gente não enriquece, mas consegue viver bem — disse, satisfeito.

Apesar da potência dos motores, os barcos de Claudinei e Ezequiel navegavam lentamente, a cerca de 13 km/h. Era um ritmo de passeio, ideal para quem pescar, não disputar corrida. A velocidade varia conforme as condições climáticas e hídricas. Quando enfrentam correnteza e vento contrários, as embarcações têm mais dificuldade para avançar e são obrigadas a "cavalgar as ondas" — sim, elas existiam, mesmo no rio ou na lagoa.

— Quando o vento é oeste (o famoso Minuano), por causa das ondas o pessoal acaba enjoando, como se estivesse no mar. Já com norte ou noroeste fica tranquilo — explica Ezequiel.

Foi vento noroeste o que eu, os repórteres fotográficos Jonathan Heckler e Jefferson Botega e o motorista Gustavo Gomes encontramos na fria manhã dessa pescaria. Ninguém ficou nauseado.

A pesca pela pesca

Nessa época do ano, os pescadores buscam, sobretudo, os peixes de couro. Os escamados, como a corvina e a tainha, por alguma razão, rareiam nas imediações do Guaíba. Às vezes, a depender da sorte, entre os bagres aparece um surubim, o rei dessa família aquática, que pode chegar a 1,5 metro de comprimento. Mas é raro. O usual é que sejam pescados exemplares com até 50 centímetros.

Na maior parte dos casos, o peixe é devolvido vivo à água. É a pesca pela pesca.

Conforme o Ministério do Meio Ambiente, não existe limite de caniços, desde que o pescador seja habilitado. Como poucos exemplares são fisgados, o uso da vara de pesca não causa desequilíbrio ambiental.

Os clientes das embarcações precisam portar carteira de pescador amador. E, aos amadores, é vedado o uso de redes ou tarrafas.

Cada pescador amador pode levar até 10 quilos de peixe, além de um exemplar cujo peso não ultrapasse esse limite.

Os pescadores também precisam respeitar o período da piracema, fase de reprodução dos peixes, que varia conforme a espécie.

Espécies ameaçadas de extinção podem ser fisgadas, mas devem ser devolvidas vivas à água. Foi o caso de um bagre-branco capturado durante o passeio da reportagem.

Como se tornar pescador amador

Acesse o portal Gov.br e, na seção de Serviços, busque "Solicitar Licença de Pescador Amador ou Esportivo (Unificado)". É preciso ter um login cadastrado para fazer a solicitação.

Preencha o formulário e realize o pagamento via PIX, cartão de crédito ou boleto.

O custo da licença de pesca esportiva (também conhecida como pesca amadora) varia de acordo com a modalidade escolhida:

  • Categoria Desembarcada: R$ 20 (para pescar à beira de rios e lagos).
  • Categoria Embarcada: R$ 60 (permite pescar de barco e também inclui a pesca desembarcada). 

A licença é válida por um ano em todo o território nacional.

Aposentados não precisam pagar pela licença.

Embarcações para grupos de amigos e famílias

Os barcos que pescam na embocadura do Guaíba com a Lagoa dos Patos costumam ser alugados por grupos. O passeio custa, em média, R$ 700 e dá direito a cerca de cinco horas entre deslocamento e paradas para tentar fisgar os peixes. É possível levar para casa o que for pescado, embora muitos prefiram devolver os animais à água. Para eles, o importante é a experiência.

As pescarias têm até comida para quem não gosta de peixe. Os barcos são dotados de churrasqueiras portáteis e um dos momentos sagrados é assar carne, com vista para alguma praia repleta de mato e cercada por morros.

É um programa para adultos e também para crianças. Na manhã em que a reportagem acompanhou uma pescaria, o campeão em fisgar bagres, jundiás e pintados foi Françoá, de 8 anos. Filho de pescador profissional, ele já domina a técnica. Só naquele dia comemorou cinco peixes capturados — e devolvidos à água logo após a fisgada.

A maioria dos pescadores leva o próprio equipamento, composto por vara com molinete ou carretilha — mecanismos que recolhem e liberam rapidamente a linha por meio de um sistema de freios. Quem não tem o material pode utilizar os equipamentos emprestados pelos barqueiros. Como isca, usam-se minhocas vivas, mantidas em recipientes com terra para preservar sua qualidade.

— Vale muito a pena. Tanto que faço 350 quilômetros para ir até Itapuã e outros 350 para voltar em um fim de semana — conta Fábio Croda Bueno, motorista de ambulância que mora em Carazinho. 

É o cliente de Ezequiel que vem de mais longe. Bueno diz que deixou de pescar na Argentina — também a mais de 300 quilômetros de Carazinho — depois que conheceu Itapuã. Trocou os dourados, peixes esquivos das corredeiras, pelos bagres do Guaíba.

Aqui virou quase uma família, nos conhecemos pelo nome. É gente que usa o barco por amor. A resenha é maravilhosa, é um momento para aliviar o estresse. Tirem um dia para isso, garanto que ninguém vai se arrepender.

FÁBIO CRODA BUENO

Pescador que vem de Carazinho

Fábio Moraes/Divulgação
Fábio Moraes pesca pelo menos uma vez ao mês em Itapuã e já fisgou bagres gigantes, como o da imagem.

Outro frequentador assíduo é Fábio Moraes, 51 anos, dono de uma ferragem em Novo Hamburgo. Ele pesca desde os 15 anos. Começou atrás de corvinas e sardinhas em Cidreira e Tramandaí, depois seguiu para o Canal São Gonçalo, entre Pelotas e Rio Grande. Também frequentou a Argentina em busca dos dourados, mas encontrou em Itapuã sua nova paixão.

Há cinco anos, lidera grupos que saem do Vale do Sinos rumo aos bagres do Guaíba.

— Começou com clientes, colegas de profissão e amigos. Criamos um grupo de WhatsApp e agora é só alegria. São momentos únicos. Nem é pelo peixe; ele é consequência. Na hora da divisão, muitas vezes até doamos para conhecidos. O que importa é o prazer da pescaria, comer uma carne e colocar a conversa em dia.

Ali em Itapuã, onde o símbolo da Região Metropolitana encontra a maior lagoa gaúcha.


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