Direto da Redação
Breno Bauer: Pensando em... nada
Jornalistas do Diário Gaúcho opinam sobre temas do cotidiano

No começo havia… espera, o que havia no começo? Para a ciência, havia uma concentração de energia que, numa grande explosão, deu origem ao Universo. A Bíblia aposta que no começo havia a Palavra, que a tudo deu origem. Tudo parte de algum lugar. Nunca partimos do nada.
Afinal, a experiência do nada é perturbadora. Quando estamos há tanto tempo em silêncio, pensativos – e alguém pergunta no que estamos pensando –, respondemos que estamos pensando em nada. Mas cá entre nós, isso não é verdade: tem sempre alguma coisa.
A impossibilidade do nada nos apavora, e talvez por isso o nosso pânico quando pegamos uma folha em branco e temos que começar a escrever do zero. Do nada.
O jornalismo cria diversas estratégias para colocar ordem no nada. O lide é uma delas. Ele oferece perguntas que o texto deve responder logo no começo. Quem? Fez o quê? Quando? Onde? Como? Por quê? Tudo isso na tentativa de fazer aquele documento em branco, contendo o mais próximo de nada que posso conceber, parecer menos amedrontador.
Um dos meus autores favoritos, J. R. R. Tolkien conta que certa vez, enquanto corrigia provas, encontrou uma das folhas de resposta em branco. Prontamente começou a escrever: “Numa toca no chão vivia um hobbit”. E assim nasceu Bilbo Bolseiro, que ao roubar o anel de Gollum deu origem à saga do Senhor dos Anéis, uma das mais importantes da literatura. Aí está a prova do poder criativo do nada. Cientistas vêm explicando a importância do tédio para a criatividade.
Hoje, o que mais há são formas de escapar disso. Quando chego em casa, posso colocar uma música para me distrair. Quando vejo a folha em branco, basta pedir para a inteligência artificial “Ei, chat, começa um texto diferente pra mim”. Mas nesses casos também posso contemplar o silêncio, encarar o nada e ver no que dá. Fica aí o desafio: que tal exercitar a criatividade e partir do nada uma vez na próxima semana?