Retratos da vida
Conheça o projeto que ensina pessoas com deficiência visual a montar livros artesanais
Certificada pela Biblioteca Nacional em abril, metodologia desenvolvida por artista da Região Metropolitana apresenta processo de encadernação a cegos


O artista Alex Riegel, 56 anos, tem trajetória consolidada em Novo Hamburgo, onde mantém desde 2019 o Espaço Cultural Projeto do Lixo ao Livro. No local, resíduos como filtros de café, sacos de juta, fios e sobras industriais são transformados em obras de arte, cadernos e livros de cordel.
Em busca de recursos para o espaço, Alex inscreveu o projeto em um edital da Política Nacional Aldir Blanc de Novo Hamburgo (Pnab NH). Como contrapartida, desenvolveu uma metodologia inédita para ensinar encadernação a pessoas cegas e com baixa visão.
— Era uma aventura que a gente queria fazer para ver se descobria uma novidade. Ela juntou as técnicas que eu já trabalho com a encadernação artesanal e algumas técnicas básicas — explica Alex.
A metodologia foi desenvolvida em parceria com a Associação das Pessoas com Deficiência Visual de Novo Hamburgo (Adevis-NH), com incentivo do então presidente da entidade Ricardo Seewald, falecido em 16 de fevereiro deste ano.
Alex conta que, ao longo de quase quatro meses, o projeto permaneceu em contato com pessoas cegas e com baixa visão e criou grupos para entender como as instruções poderiam ser repassadas.
Trocas constantes
Das percepções que teve ao longo do projeto, o artista destaca que, mesmo precisando de auxílio inicial, a “visão tátil” permitia que os cegos totais se ambientassem à atividade. Além disso, a necessidade de descrições aprofundadas do ambiente ao redor foi um dos grandes aprendizados:
— Como eu, enquanto instrutor, estou sendo percebido no local, dentro do ambiente? O que eu estou fazendo? Tudo tem que ser descrito. Se eu digo assim para o pessoal: “Vocês têm o material sobre a mesa que está na frente de vocês”. Não posso simplesmente passar só essa informação. Eu tenho que aprofundar. Isso tudo a gente foi descobrindo. Então, não é só uma descoberta artística, mas científica também.
Essa troca constante garantiu o protagonismo das pessoas com deficiência visual: todas realizavam todo o processo: pegar a agulha, passar o fio, furar e dobrar o papel e fazer a costura.
Por causa disso, o educador social da Adevis-NH Lourenço Bernardo Dasenbrock, 64 anos, avalia que o projeto foi um sucesso:
— Toda experiência é fundamental na vida das pessoas com deficiência visual: trabalhar a importância da reciclagem, valorizar a experiência manual, projetar a elaboração de um material inédito gera bem-estar, alegria e motivação.

Metodologia recebeu certificação da Biblioteca Nacional
Em abril, a metodologia foi certificada pela Biblioteca Nacional. Para Alex, esse é só o começo:
— A gente começou a ficar pensando nos próximos desafios. Com essa metodologia, a gente consegue entrar em outros editais, consegue fazer isso render.
Seja transformando resíduos em livros ou ensinando pessoas com deficiência visual a encadernar, Alex segue unindo arte à inovação e à responsabilidade social:
— A arte é uma das maiores formas de nós nos tratarmos melhor. Ela pode servir como um processo terapêutico ou educativo; pode ajudar na assistência social. A arte seria um grande mecanismo pacificador da humanidade.
*Com orientação e supervisão de Lis Aline Silveira