Clima severo
É possível ter tornado em Porto Alegre? Saiba qual o risco de o fenômeno ocorrer em áreas urbanas
Episódios recentes registrados no Estado provocaram estragos em zonas rurais


Nas últimas semanas, tornados espalharam medo e destruição no Rio Grande do Sul, mas também deixaram um rastro de dúvidas: esse tipo de fenômeno ocorre apenas em zonas rurais ou pode afetar uma área urbana como a de Porto Alegre?
Embora ainda faltem estudos conclusivos sobre os registros no sul do Brasil, a principal avaliação de especialistas é de que há uma possibilidade maior desses vórtices ocorrerem em zonas com predomínio de vegetação pelo simples fato de serem muito mais vastas do que os espaços urbanizados.
Não é coincidência que as últimas ocorrências no Estado, como em Giruá e Pedro Osório, tenham sido observadas em campo aberto. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2019 revelam que, dos 281,7 mil quilômetros quadrados que formam o Rio Grande do Sul, apenas 1,28% corresponde a áreas urbanizadas. Se forem consideradas somente aquelas de alta densidade, como nos principais municípios, a proporção é ainda menor: 1%. Esse conceito se refere a espaços com "mancha construída contígua que apresente aglomeração de residências, ruas e outras edificações" próximas umas das outras, segundo o instituto.
— Boa parte dos tornados ocorre em zonas rurais simplesmente porque elas são muito maiores do que as urbanas — atesta a geógrafa Karin Linete Hornes, coordenadora do Observatório de Tornados do Paraná.
Meteorologista e sócia-diretora da Catavento Meteorologia, Natália Pereira afirma que a origem desses eventos severos está vinculada a outros fatores:
— A formação de um tornado está relacionada principalmente às condições da atmosfera e à dinâmica da própria tempestade, e não ao fato de a região ser rural ou urbana. Portanto, se essas condições ocorrerem sobre uma área urbanizada, ou se o tornado se deslocar em direção a ela, uma cidade também pode ser atingida.
O município de Canoas, na Região Metropolitana, é um exemplo de como esses vórtices podem ser formar em meio ao asfalto e a edificações de alvenaria. Em 2015, um tornado provocou destruição no bairro São Luís — danificou casas, comércios e chegou a arrancar uma parada de ônibus de uma calçada.
Embora seja possível, como demonstra o caso de Canoas, a probabilidade de esse episódio se repetir em um município como Porto Alegre é pequena porque a cidade abrange somente 0,17% do território gaúcho. Além disso, ainda haveria uma chance significativa de o cone de vento tocar uma parte pouco habitada da Capital, já que, ainda conforme o IBGE, 56% da área da Capital não é urbanizada pelo critério da mancha de ocupação.
Karin observa, porém, que ainda é preciso avançar na documentação dessas ocorrências na Região Sul — faixa favorável ao surgimento de tornados por razões climáticas — para dizer com mais segurança como o relevo e a cobertura do solo influenciam em sua formação e no seu deslocamento nessa fração do continente.
— Nos Estados Unidos, o chamado Corredor de Oaklahoma (onde esse tipo de evento é comum) se concentra em áreas de campo que permitem maior aquecimento do ar na superfície. No Brasil, ainda estamos formulando bancos de dados que permitam fazer comparações — complementa a geógrafa.
Dimensão e duração do fenômeno reduzem abrangência
Doutorando em meteorologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e “caçador de tempestades”, Rafael Santana observa que a dimensão e a duração de um tornado limitam seu impacto e, por consequência, reduzem a chance de cruzar por uma faixa de alta densidade populacional:
— É diferente de uma linha de instabilidade, pela qual tempestades alinhadas avançam sobre regiões inteiras e atingem zonas rurais e urbanas. Um tornado costuma deixar um rastro de cem metros a um quilômetro, e dura de alguns minutos a uma hora. Por isso, muitas vezes acaba pegando só área rural.
Ou seja, por se tratar de um fenômeno relativamente breve e de menor escala, é como lançar uma agulha sobre um extenso mapa: a possibilidade de atingir o coração de uma cidade é remota. Santana faz a ressalva de que há, sim, influência do relevo sobre a condição de um tornado — mas não o suficiente para determinar ou impedir sua formação.
— Como é um fenômeno de microescala, sofre influência do influxo de ar conforme interage com encostas, regiões de vegetação ou prédios maiores. Isso faz com que não seja linear ao longo do rastro, pode se intensificar ou diminuir, de forma não linear. Pode ter flutuações de intensidade, mas vai ocorrer (se houver condições atmosféricas para isso) — observa Santana.
Crescimento urbano e mudanças climáticas podem ampliar exposição
Outra questão é se há uma tendência de que grandes centros urbanos se tornem alvos mais frequentes de tornados ao longo dos próximos anos. Segundo o meteorologista e professor da UFSM Maurício Ilha, que também integra o Prevots (grupo que monitora tempo severo), há dois fatores principais que reforçam essa possibilidade: o crescimento urbano e o eventual impacto das mudanças climáticas.
— Quanto mais gente e mais centros urbanos ou mesmo mais habitações em áreas rurais houver, também haverá mais alvos, além de mais potenciais registros — analisa Ilha.
O meteorologista do Prevots diz ainda que há estudos recentes apontando para um cenário cada vez mais favorável à ocorrência dos vórtices de vento em determinadas áreas:
— Um estudo recente publicado pela UFSM em colaboração com os Estados Unidos coloca o Rio Grande do Sul em um risco maior de tornados. Outros estudos corroboram que há um aumento das condições, em algumas épocas, e às vezes ao longo de todo o ano, favoráveis à formação de tornados. É como se houvesse mais dias, por ano, favoráveis a isso.
Esse perigo é ampliado justamente em períodos de El Niño, como agora.
— O El Niño oferece ainda mais dias com possibilidade de ocorrência, e com um pouco mais de intensidade também — alerta Ilha.