Conquista sonhada
Ex-carroceiro vira estudante de Medicina da Ulbra: "A persistência vence o talento"
Thomaz Felipe Staczak, 35 anos, de Canoas, superou obstáculos para entrar na faculdade, que escolheu após acompanhar a luta da mãe contra o câncer

Em um país com desigualdade de oportunidades, o gaúcho Thomaz Felipe Staczak, 35 anos, conseguiu um feito raro: após ter de trabalhar como carroceiro e vendedor de churrasquinho para sustentar a família, hoje cursa Medicina na Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). A escolha da faculdade foi motivada pela batalha da mãe contra o câncer.
Quando tinha 12 anos e precisou ser carroceiro em Canoas, na Região Metropolitana, Staczak saía diariamente às 3h da madrugada de casa, no bairro Olaria, e partia em direção à Central de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa), em Porto Alegre.
Lá, enchia as caixas de frutas e voltava para vendê-las nas moradias próximas de onde vivia. Ficou nessa rotina por cerca de um ano, até conseguir juntar R$ 700. Guardou o dinheiro em uma meia escondida na cama. Com o valor, comprou uma churrasqueira portátil.
Então, começou a vender churrasquinho em um ponto situado junto a uma parada de ônibus. As jornadas eram duras, mas ele nunca deixou de estudar em escolas públicas.
Hoje, inserido em uma realidade completamente diferente, o canoense cursa o quarto semestre de Medicina na Ulbra, no campus de Gravataí, na Região Metropolitana. O caminho percorrido até conseguir o ingresso no curso não foi e continua não sendo fácil.
— Fui criado somente pela minha mãe. E teve um momento em que ela teve câncer. Passamos algumas dificuldades em casa. Me vi na necessidade de trabalhar para ajudar ela — relata o universitário.

Quando comprou a churrasqueira, Staczak entregou a carroça:
— Foi aí que pude evoluir um pouco mais financeiramente e consegui pagar um curso técnico para mim.
Nessa época de dificuldades, a família — composta pela mãe, por ele e dois irmãos — recebia uma cesta básica de uma igreja evangélica para ter o que comer. E um homem ofereceu para o adolescente uma carroça com cavalo para poder ajudar no sustento em casa. Também ensinou tudo sobre venda de frutas para Staczak.
O garoto terminava o trabalho e ia para a escola. Enquanto acompanhava o tratamento da mãe na Santa Casa de Porto Alegre, apaixonou-se pela Medicina.
A persistência é muito melhor do que o talento. Porque tem muitas pessoas talentosas que estão paradas. E tem muitas pessoas persistentes que estão vencendo.
THOMAZ FELIPE STACZAK
Estudante de Medicina, 35 anos
— Eu não pensava em fazer Medicina. A minha realidade era bem diferente: criado sem pai e no meio de uma periferia. Mas eu pensava em ter uma posição que levasse a cuidados, como Enfermagem. Porque nos finais de semana, o posto de saúde não cuidava dela (sua mãe). Então, aprendi a fazer curativos e cuidar das pessoas à minha volta que se machucavam. Aprendi a cuidar, e a vocação dentro de mim me disse: "Tu precisas te dedicar a isso" — conta.
Conquista sonhada
Para chegar até o sonhado curso de Medicina, Staczak passou antes pelo curso técnico e pela graduação em Enfermagem, como bolsista da Ulbra. Sua prova de validação nessa área foi realizada nos Estados Unidos.
Atualmente, estuda pela manhã e à tarde. No turno da noite, trabalha como enfermeiro no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Canoas, também na Região Metropolitana.
A primeira vez que prestou vestibular para Medicina foi em 2022. Staczak passou, mas não tinha condições financeiras para bancar o curso.
Em 2024, passou novamente e obteve uma bolsa de 50% da Ulbra. A outra metade do valor é financiada pela igreja evangélica e por pessoas que conhecem sua história de vida. A mensalidade gira em torno de R$ 12,7 mil, e o curso dura seis anos.
— Não sei ainda a área da Medicina em que vou trabalhar. Gosto muito de pesquisa. Perdi minha mãe, sogra e sogro para o câncer. Então, é uma área que me incentiva a cuidar de diversas "Marias" (alusão ao nome de sua mãe, Maria Torrada Staczak) e pessoas que têm perdido seus familiares para essa doença — compartilha o futuro médico.
Staczak pensa em dar palestras para jovens sobre a sua história de vida para mostrar que é possível atingir os objetivos. Está escrevendo um livro para contar suas experiências de carroceiro e vendedor de churrasquinho até os bancos universitários.
— A persistência é muito melhor do que o talento. Porque tem muitas pessoas talentosas que estão paradas. E tem muitas pessoas persistentes que estão vencendo. É justamente isso que preciso colocar na cabeça dessa juventude. É possível, sim, independente da realidade financeira e da vida de cada um, que a gente sabe que não é fácil — diz.
"Tenho um propósito para cumprir"

Diariamente, ele fica das 8h às 19h na Ulbra de Gravataí. Sai da sala de aula e vai para os plantões no Caps, onde trabalha por 12 horas. Trata-se de uma carga horária extenuante. Casado e pai de dois filhos, afirma que sem o apoio da família não conseguiria cumprir a jornada.
— Eles me ajudam muito, porque ficar 35 horas fora de casa... A minha esposa separa para mim todos os dias marmitinhas para eu trazer. E eu venho de moto, pego chuva. É um pouco complicado, mas eles me ajudam muito — reconhece.
O mais difícil, segundo ele, foi "vencer a vontade própria todo dia":
— E até hoje tem sido isso. Às vezes, eu levanto, está chovendo e eu preciso ficar dois dias fora de casa e me deslocar de moto na chuva. A minha vontade era ficar só descansando, mas eu preciso levantar e ir. Tenho um propósito para cumprir.
Inspiração para os colegas

Para quem enfrenta dificuldades e até tenha uma história de vida semelhante à sua, Staczak tem uma mensagem:
— Tenha fé, muita fé mesmo. Às vezes, é o que me sustenta praticamente todo dia. E tenha persistência. A persistência hoje vence o talento.
O diretor da Faculdade Ulbra Medicina Gravataí, Alexandre Berton, orgulha-se da trajetória de Thomaz. O campus do município possui cerca de 160 alunos.
— Para nós, isso é muito gratificante. Nos deixa lisonjeados ter um aluno como o Thomaz aqui conosco. Isso reforça a nossa missão em auxiliá-lo a conquistar um propósito e oferecer um ensino de excelência. Ele serve como inspiração para nós, para os colegas e para as pessoas que tenham alguma dificuldade — elogia.