Direto da Redação
Luiza Weiler: o poder da adaptação
Jornalistas do Diário Gaúcho opinam sobre temas do cotidiano

Recentemente, eu estava conversando com um amigo sobre uma peça de teatro que ele havia assistido. Ele comentou que não tinha gostado da experiência, pois achou que o texto original, escrito nos anos 1970, não tinha sido bem adaptado para a linguagem dos dias atuais.
Algumas semanas depois, outra pessoa me relatou experiência similar. Foi ao cinema assistir a um filme, baseado em um livro que leu quando era criança, e saiu da sala decepcionada. A produção não tinha conseguido traduzir toda a emoção descrita nas páginas que marcaram sua infância: nem o poder da nostalgia foi capaz de salvar o texto.
Esses diálogos me fizeram refletir sobre a importância da adaptação. Uma adaptação bem feita tem o poder de acrescentar algo diferente, atual ou original a uma história que já foi contada diversas vezes. É capaz de se apropriar de um texto escrito anos, décadas, séculos antes e aproximá-lo de um novo público.
Intraduzível
Existem casos, porém, onde a adaptação simplesmente não funciona. Pode ser porque a obra não conseguiu atingir a magnitude da antiga, ou apenas porque não foi escolhido o veículo ideal para recontar uma história.
Mas também pode acontecer de uma obra ser intraduzível. Nasceu no momento perfeito, com as características específicas de seu tempo, e não funcionaria de maneira nenhuma em qualquer outra época, linguagem ou contexto.
Pensei que isso também acontece ao longo da vida. Muitas vezes, nas nossas relações familiares, amorosas ou de amizade, tentamos ressuscitar uma coisa que já não faz mais sentido para nenhuma das partes.
A conversa com meus amigos me fez perceber que, às vezes, por mais que a gente tente, as coisas não precisam de uma boa adaptação. Às vezes elas são só intraduzíveis. E está tudo bem.