Coluna da Maga
Magali Moraes: memórias da infância
Colunista escreve às segundas e sextas-feiras no Diário Gaúcho


Você se lembra bem da sua infância? Das brincadeiras e hábitos de rotina, dos lugares onde morou, do que decorava a parede do seu quarto, das roupas preferidas, do pátio da escola, do que gostava de lanchar na hora do recreio? Talvez você lembre só de momentos especiais, sem grandes detalhes. Uma festa de aniversário. Uma viagem pra visitar parentes em outro estado. As férias perfeitas que você nem sabe se aquilo aconteceu mesmo ou a sua imaginação completou as lacunas.
A memória tem disso: junta fatos reais com imaginários, o nosso cérebro vai editando narrativas que acabam se tornando verdades com toques de ficção. É o que acontece com um familiar que morreu faz tempo, por exemplo. É provável que as suas lembranças dele tenham sido construídas a partir das lembranças dos outros. Das fotos antigas nos porta-retratos, dos causos contados. Até que ponto você lembra de tudo ou já internalizou essa colcha de retalhos?
Costurando
Lembro pouco da minha infância, e adoro quando os primos comentam alguma história do passado e relembram situações engraçadas ou emotivas que criam um novo retalho. Pronto, já pego pra mim e vou costurando com o que tenho guardado. É impressionante como a memória traz junto cheiros, cores e vozes. Ela consegue nos transportar pra ambientes que não passavam de borrões mentais e, de repente, ganham vida e se materializam na nossa cabeça.
Se você lembra de tudo, parabéns! Saiba que eu invejo a sua memória. Já passo trabalho (e vergonha) pra lembrar de nomes. Não consigo mais decorar números de telefones e senhas. Mas cuido bem do meu punhadinho de recordações infantis. Queria ser aquele tipo de pessoa que descreve cenas antigas detalhadamente, as roupas, as falas, se o dia estava bonito ou não. Então a única saída é contar com quem fez parte da minha infância e me leva de volta até lá.