Zona Norte
Menino morto por queda de árvore teria primeira aula em nova escola: "Estava feliz porque ganhou um tênis novinho"
Uva-do-japão de 12 metros caiu sobre casa na Vila Barranco, vitimando Willyam Gustavo Barboza, 8 anos


A calça e a jaqueta jeans estavam impecavelmente dobradas e já separadas para que Willyam Gustavo Barboza, 8 anos, vestisse para ir à aula à tarde. Contudo, só um dos pés do par de tênis número 31 que o menino havia ganhado e que estrearia para ir à escola foi encontrado em meio aos escombros.
Gustavo morreu na manhã desta sexta-feira (28), após uma árvore cair sobre a casa em que ele morava com a família. Pouco antes das 9h, sob chuva torrencial, um pé de uva-do-japão, de 12 metros de altura, desabou sobre o casebre de madeira de um só cômodo.
— Ele estava tão feliz porque tinha ganhado um tênis novinho para o primeiro dia de aula. Não consigo acreditar, olho para roupa e não acredito — lamenta a avó Neli Barboza, 63 anos.
A criança foi atingida enquanto estava deitada na cama com a mãe e com o irmãozinho mais novo, de quatro meses. O barulho da destruição e os gritos que vinham do local mobilizaram a vizinhança na Avenida Élvio Antônio Filipetto, na Vila Barranco, próximo ao Porto Seco, na zona norte de Porto Alegre. Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e Brigada Militar chegaram em seguida.
Antes das 8h, o pai de Gustavo, que atua na área da construção civil, tinha saído para trabalhar. A mãe também levantou cedo. Ela tirou da cama a outra filha, de um ano e nove meses, para levá-la à creche, mas com medo do temporal, desistiu. A menina acabou ficando com a vó, que mora em uma casa de fundos, no mesmo pátio.
— A outra pequena estava aqui comigo quando aconteceu. Poderia ter atingido mais gente. Eu só consegui sair com ela gritando e pedindo socorro, com o coração na boca — conta Neli.
Willyam Gustavo será velado na capela 1 do Cemitério Santa Casa, a partir das 2h deste sábado (29). O sepultamento está previsto para as 14h.
Família já morou em vários endereços
A família de Gustavo tinha voltado para Porto Alegre há cerca de um mês, e a matrícula escolar fora feita nesta semana. Saíram da cidade de Arroio do Silva (SC) porque o pai do menino conseguiu emprego na Capital. Eles já tinham morado no mesmo endereço anos atrás, bem como viveram em outros bairros da capital gaúcha e em municípios da Região Metropolitana.
O comerciante João Rodrigues, 63 anos, acompanhou as idas e vindas da família. Ele foi uma das pessoas que prestou socorro nesta manhã, tentando remover a árvore e a criança do local do acidente.
Um dia antes, Gustavo tinha ido até o minimercado de Rodrigues comprar refrigerante e salgadinho na companhia do pai.
— O menino saiu de dentro de casa nos meus braços. Como vou esquecer isso agora? Ontem à tardinha estava aqui, quietinho e educadíssimo junto daquele pai que dava tudo que podia para ele. Eu até brinquei que não vendia fiado para adultos, somente se fosse para ele — recorda o comerciante.

Gustavo já saiu sem vida da casa. A mãe e os irmãos foram encaminhados ao hospital e tiveram alta à tarde. O pai, que chegou depois da queda da árvore, foi encaminhado para atendimento psicológico e também já foi liberado.
A dona de casa Simone Quadros de Farias, 42 anos, também esteve no local do acidente. Foi ela quem socorreu o bebê de quatro meses. Inconsolável, diz que vai se esforçar para lembrar de Gustavo da melhor maneira possível:
— Saí descalça, do jeito que estava, peguei o bebê e enrolei em um manto. Vi o Gustavo ainda falando. Mas o que quero lembrar é da carinha dele correndo e jogando bola pela rua.
Árvore instável

O secretário-geral da Defesa Civil, Evaldo Rodrigues de Oliveira Júnior, afirmou que a área onde a família vive não é classificada como de alto risco. Segundo o secretário, a situação foi pontual, já que não era uma árvore estável, tinha raízes pequenas e tombou em função do solo encharcado.
Em nota, o Departamento Municipal de Habitação (Demhab) informou que "o prefeito Sebastião Melo determinou que a família da vítima receba todo o atendimento e suporte necessários por parte das equipes municipais, nas áreas de saúde, assistência social, habitação e acolhimento psicológico."
O Demhab afirma também que "não havia protocolo ou solicitação prévia para poda ou corte. A casa está situada em uma área de ocupação irregular." No entanto, parentes que seguiam em frente ao local destruído alegaram que haviam feito pedidos para poda de galhos há meses.
Segundo a prefeitura de Porto Alegre, famílias de outras duas casas do entorno foram encaminhadas à moradia solidária.
Escola lamentou
Gustavo nasceu no dia 18 de janeiro de 2018 e cursou o primeiro ano do Ensino Fundamental na Escola Municipal Ildo Meneghetti. A instituição, que fica na divisa entre os bairros Rubem Berta e Santa Rosa de Lima, publicou uma nota de pesar nas redes sociais.
Gustavo retomaria na escola, nesta sexta, o 2º ano, após retornar para a Capital.
— Era criança tímida, carinhosa e estimada por todos. Estava previsto para retornar à nossa escola hoje, após uma temporada em Santa Catarina com a família. Infelizmente, uma fatalidade interferiu neste retorno. Minha oração é de conforto ao coração da mãe e demais familiares — lamenta Raquel Grasel Nothen, que foi professora de Gustavo.
Vizinhos estão organizando uma vaquinha para arrecadar donativos e dinheiro para a família. Quem quiser ajudar pode enviar qualquer valor para a chave Pix 51995043574 (telefone), em nome de Evelin Bruski Dias, líder comunitária da região.