Fé e voto
Menos pastores, mais pais de santo: veja o que mudou no perfil das candidaturas religiosas no RS em 2026
Levantamento considera candidatos que utilizam referências religiosas nos nomes de urna; evangélicos seguem maioria

O Rio Grande do Sul tem 18 candidatos que usam títulos ou referências religiosas nos nomes de urna nas eleições de 2026. O número é 14,3% menor que o de 2022, quando eram 21. O levantamento foi feito por Zero Hora, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Ainda assim, essas candidaturas representam uma parcela ligeiramente maior em relação ao total: 1,71%, contra 1,47% na eleição anterior. Isso ocorre porque o número geral de candidaturas caiu de 1.433 para 1.051 no período.
A principal mudança, no entanto, está na distribuição entre os grupos religiosos. Os candidatos que utilizam referências evangélicas nas urnas ainda são maioria, mas caíram de 16, em 2022, para 10, em 2026. Já as candidaturas associadas às religiões de matriz africana aumentaram de quatro para sete.
Para o sociólogo Carlos Gadea, doutor em Sociologia Política e professor de Ciências Sociais e Educação da Unisinos, o crescimento desse segmento pode ser lido como uma reação ao espaço conquistado pelos evangélicos nas eleições anteriores. Em 2022, o número de candidaturas associadas a esse grupo avançou 45% em relação ao pleito de 2018.
É uma questão quase de resistência. Ao colocar esse nome na urna, dão a entender ao eleitorado que são figuras políticas que, de alguma forma, vão defender a sua religiosidade também.
CARLOS GADEA
Doutor em Sociologia Política e professor da Unisinos.
O Rio Grande do Sul tem o maior percentual de praticantes de religiões de matriz africana entre os Estados brasileiros, segundo dados do Censo 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano passado. Os adeptos de religiões como umbanda, candomblé e vertentes regionais, como o batuque, representam 3,2% da população do Estado — mais de 306 mil pessoas. O percentual é superior ao registrado no país (1%).
Entre os evangélicos, a redução no uso de referências nos nomes de urna não significa necessariamente perda de espaço político. Para Gadea, parte dessas lideranças já construiu uma trajetória própria e é reconhecida pelo eleitorado para além da atuação religiosa.
— Isso não quer dizer que tenham saído de cena ou perdido lugar na política. Ao contrário, eles avançam, mas o nome estratégico agora muda — afirma.
"A questão central é gerar uma identificação"
Cleber Ori Cuti Martins, doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), avalia que o uso da religião nas campanhas se fortaleceu nos últimos anos como forma de criar identificação com determinados segmentos do eleitorado, tanto nos nomes de urna quanto nos discursos e propostas.
A questão central na campanha eleitoral é gerar uma identificação e converter isso em votos. As questões religiosas, com variantes, estão presentes nas campanhas de partidos variados. É uma estratégia.
CLEBER ORI CUTI MARTINS
Doutor em Ciência Política e professor da UFSM.
Na avaliação dos especialistas, esse uso da religião assume características diferentes entre os grupos. Nos setores evangélicos, especialmente no neopentecostalismo e no cristianismo conservador, questões morais e de valores ganham maior visibilidade, com temas como família e a presença de princípios religiosos no debate público.
— Há um projeto de poder baseado em liderança e organização. Ele é centrado nas questões morais. Isso não quer dizer que não exista um projeto para a economia, por exemplo, mas são as questões morais que ganham mais visibilidade — afirma Cleber.
Já nas candidaturas de matriz africana, Cleber identifica uma atuação mais voltada à afirmação e à representatividade do grupo:
— Busca-se mais a defesa do seu direito de exercer uma religião, de levar suas demandas para os espaços de decisão.
Pastor, Missionário, Frater: como os candidatos se apresentam nas urnas
Pastor e pastora são as referências mais frequentes entre os nomes de urna religiosos. Também aparecem termos como Missionária, Pai, Mãe, Irmão e Frater, além de referências a orixás, como Oyá, Oxalá, Ogum e Oxum.
Algumas nomenclaturas presentes em eleições anteriores, como bispo, apóstolo e frei, não aparecem em 2026.
Os 18 candidatos estão distribuídos por 12 partidos ou federações. Algumas siglas concentram candidatos de um único segmento religioso, enquanto outras reúnem diferentes grupos:
- Exclusivamente evangélicos: Podemos, Novo, Agir, Democrata e Republicanos.
- Exclusivamente de matriz africana: Federação PSOL/Rede, Avante, Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) e MDB.
- Evangélicos e de matriz africana: PSD e Federação PSDB/Cidadania.
- Exclusivamente católico: Democracia Cristã (DC).
O levantamento pelo nome de urna é diferente do registro de ocupação profissional informado ao TSE. No cadastro eleitoral, existe uma única categoria para atividades religiosas: “sacerdote ou membro de ordem ou seita religiosa”. Em 2026, apenas quatro candidatos declararam essa ocupação.