Longe das urnas
Número de eleitores de 16 e 17 anos cai 30% no Rio Grande do Sul; veja o perfil de quem vai votar este ano
Participação de adolescentes no processo eleitoral havia batido recorde em 2022, após campanha da Justiça Eleitoral


O número de adolescentes aptos a votar no Rio Grande do Sul em outubro caiu cerca de 30% em comparação com as eleições gerais de 2022. Conforme estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são 54.702 eleitores de 16 e 17 anos no Estado. Em 2022, eram 80.044.
Embora a população em geral tenha encolhido nessa faixa etária no período, a queda no número de eleitores é maior. De acordo com a Secretaria Estadual de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), a projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o Estado tem 10% menos pessoas de 16 e 17 anos em 2026 do que tinha em 2022.
O movimento também foi observado nacionalmente. Nas eleições gerais passadas, eram cerca de 2,1 milhões jovens aptos a votar em todo o país, número mais alto da história. Já na deste ano, serão 1,6 milhão, uma retração de cerca de 22%. O voto só é obrigatório a partir dos 18 anos.
Conforme a professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFRGS, Jennifer Azambuja de Morais, que estuda a participação de jovens na política, a falta de interesse desta faixa da população pela política institucional é histórica. Entre 2018 e 2022, no entanto, houve um aumento após uma campanha da Justiça Eleitoral.
A gente viu na eleição anterior um forte movimento do TSE para os jovens poderem se cadastrar, fazerem o seu título de eleitor. Aquela campanha, que se utilizou de influencers, de várias personalidades, chamou muitos jovens. Como a gente não viu esse mesmo movimento neste ano, isso volta a cair.
JENIFFER AZAMBUJA DE MORAIS
Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFRGS.
Outros fatores incluem a falta de representatividade entre os políticos, que são, em sua maioria, adultos mais velhos, e o desencanto com o sistema político.
Ativos nas redes, mas não nas ruas
Embora não seja nova, essa realidade é reforçada pelas ondas de polarizações e pelo processo de informação e comunicação via redes sociais. O que no passado levou a protestos nas ruas, conforme Jeniffer, hoje gera apatia.
— O engajamento online é diferente do presencial. O jovem é muito engajado nesses espaços, nas redes sociais, mas isso também é um fator que diminui (a participação nas eleições) — observa.
A professora aponta ainda que jovens de famílias com rendas mais elevadas tendem a ter cerca de 10 a 15% mais participação política.
— As escolas privadas trazem mais o debate político em sala de aula. E os pais, às vezes, também falam mais, colocam mais a política como algo central para a resolução de problemas. Os adolescentes e jovens de classe mais baixa estão vivendo tantos problemas que a política acaba ficando mais afastada deles — complementa a professora.
Transição demográfica estimula voto de pessoas mais velhas
Na direção oposta, o eleitorado com idades acima de 60 anos vem aumentando. De acordo com o TSE, o número de eleitores nessa faixa etária aumentou 13% entre 2022 e 2026 no Estado, percentual ligeiramente superior ao crescimento da população nessa faixa etária (11%). A tendência é a mesma no plano nacional.
Para o cientista político Rodrigo Stumpf Gonzalez, o fenômeno demográfico de envelhecimento da população serve como elemento de mobilização das pessoas mais velhas, em questões como aposentadorias, saúde, levando a uma maior participação.
Hoje, uma pessoa com 65 anos ou mais tende a ser muito mais ativa do que há 30 ou 40 anos, até mesmo pelo aumento do período de trabalho ativo e aposentadoria tardia. Em várias partes do mundo, como Reino Unido, Espanha, os mais velhos estão mais presentes em manifestações políticas do que os jovens.
RODRIGO STUMPF GONZALEZ
Cientista político.
A maior fatia do eleitorado gaúcho, entretanto, está na faixa entre 40 e 49 anos — o que também se repete a nível nacional. Já com relação ao gênero, as mulheres representam 53% enquanto os homens são 47%. No total, são 8,5 milhões de pessoas aptas a votar no Estado este ano.
Ainda segundo o TSE, o Estado tem 21.022 eleitores com cem anos ou mais. O Censo de 2022, no entanto, apontou 1.536 pessoas centenárias no Rio Grande do Sul. Em nota, o TSE alegou que utiliza metodologia distinta do IBGE e que a divergência pode estar relacionada a "eventuais inconsistências na data de nascimento registrada no cadastro eleitoral" ou a "situações em que o falecimento da pessoa ainda não tenha sido comunicado oficialmente à Justiça Eleitoral" (veja a manifestação completa abaixo).
Confira a nota do TSE
Os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) decorrem de metodologias e finalidades distintas. Enquanto o TSE informa o quantitativo de eleitoras e eleitores inscritos no cadastro eleitoral, o IBGE apresenta dados populacionais obtidos no Censo Demográfico. Assim, a comparação direta entre os dois levantamentos deve ser feita com cautela, não sendo possível atribuir a diferença observada a uma única causa.
Além disso, a divergência pode decorrer de diferentes fatores, entre eles eventuais inconsistências na data de nascimento registrada no cadastro eleitoral, bem como situações em que o falecimento da pessoa ainda não tenha sido comunicado oficialmente à Justiça Eleitoral.
O cancelamento da inscrição eleitoral em razão de falecimento somente pode ser realizado após o recebimento da respectiva comunicação pela Justiça Eleitoral. Atualmente, esse fluxo ocorre de forma automatizada, inclusive mediante integração com os cartórios de registro civil. Em relação aos registros mais antigos, a Justiça Eleitoral também adota procedimentos específicos para identificar e corrigir eventuais inconsistências remanescentes.
A Justiça Eleitoral realiza, de forma permanente, procedimentos de depuração e atualização do cadastro eleitoral, com o objetivo de assegurar a consistência e a confiabilidade das informações nele registradas. Além disso, vem ampliando a integração com bases de dados oficiais, de modo a aperfeiçoar continuamente a qualidade do cadastro.
Cumpre destacar, ainda, que a Justiça Eleitoral conta com mecanismos de segurança destinados a assegurar a correta identificação do eleitor no momento da votação. Atualmente, mais de 89% do eleitorado possui cadastro biométrico e, nesses casos, a habilitação para votar ocorre mediante a validação de impressão digital, ficando registrado o uso da biometria para a liberação da votação. A expansão do cadastramento biométrico representa importante aperfeiçoamento do processo eleitoral e integra o conjunto de medidas adotadas pela Justiça Eleitoral para fortalecer os mecanismos de identificação do eleitor e conferir ainda mais segurança e confiabilidade ao processo de votação.