Sequência de dias nublados
O inverno gaúcho provoca redução na vitamina D? Saiba quando e quem precisa suplementar
Menor exposição solar pode influenciar as reservas do organismo, mas reposição não é indicada para todas as pessoas

Faz semanas que o céu do Rio Grande do Sul teima em não nos dar dias consecutivos de sol e a conclusão parece automática: falta vitamina D, hora de comprar cápsula. A medicina, porém, recomenda o contrário. Para o adulto saudável, não há benefício comprovado em tomar o suplemento e o exame que mede a concentração da vitamina no sangue também não precisa ser feito de forma rotineira.
A ciência separa a população em dois grandes grupos:
- Quem pode se beneficiar da suplementação, como crianças, gestantes e idosos acima de 75 anos, além de pessoas com determinadas condições de saúde ou situações específicas que podem exigir reposição, como quem passou por cirurgia bariátrica ou apresenta deficiência comprovada
- Adultos saudáveis com menos de 75 anos, para os quais os estudos não encontraram vantagem em tomar o suplemento nem em fazer o exame de rotina
— Um adulto saudável não precisaria nem dosar nem repor a vitamina D, porque de acordo com os grandes estudos científicos, não há nenhuma vantagem médica em fazer isso — afirma Letícia Schwerz Weinert, endocrinologista e presidente eleita da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do Rio Grande do Sul (SBEM-RS).

A orientação acompanha a diretriz publicada em junho de 2024 pela Endocrine Society, principal entidade médica de endocrinologia dos Estados Unidos. O documento recomenda não fazer o exame de rotina em pessoas saudáveis de qualquer idade e não indica suplementação para adultos com menos de 75 anos que não tenham nenhuma doença associada.
A seguir, tire as suas dúvidas sobre:

Por que o inverno gaúcho pode influenciar a vitamina D
A principal fonte de vitamina D é o sol. Quando a radiação ultravioleta do tipo B, conhecida como UVB, atinge a pele, desencadeia a produção da substância. Depois, fígado e rins participam da ativação, permitindo que ela exerça suas funções no organismo.
— Cerca de 90% vem da ativação pelo sol. Uma pequena parte vem de alguns alimentos, como a gema do ovo e derivados de peixes oleosos, caso da sardinha — afirma Clair Battastini, médica pós-graduada em nutrologia médica pela Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).
No inverno, o problema está principalmente na posição do sol. Ele fica mais baixo no céu, inclusive ao meio-dia, e os raios precisam atravessar uma camada maior da atmosfera até chegar ao solo. Nesse percurso, parte da radiação UVB é absorvida. Por isso, quanto mais distante da linha do Equador, maior pode ser o impacto da estação.
— Regiões acima do paralelo 30 no hemisfério norte e abaixo do mesmo paralelo aqui no hemisfério sul recebem os raios solares em posição mais inclinada e não são esses os raios capazes de produzir vitamina D na pele — explica Letícia.
Porto Alegre fica praticamente sobre essa faixa, a 30º02' de latitude Sul do Equador.
Alguns dias sem sol são suficientes para reduzir a vitamina D?
Não. Duas ou três semanas de tempo fechado não esgotam as reservas do organismo. A queda ocorre gradualmente e está relacionada à chamada meia-vida, período necessário para que a concentração de uma substância caia pela metade.
— Poucos dias de céu encoberto não costumam fazer grande diferença. O impacto pode ser maior depois de meses com pouca exposição ao sol, principalmente em quem já apresenta tendência a níveis baixos — explica Andressa Vargas, dermatologista formada pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).
Além da estação, outros fatores podem impactar a produção de vitamina D:
- Ambientes fechados: passar grande parte do dia longe do sol reduz a exposição da pele
- Idade: com o envelhecimento, a pele perde eficiência para produzir o nutriente
- Localização: por estar distante da linha do Equador, o Rio Grande do Sul recebe menos radiação UVB no inverno
Para que serve a vitamina D

Apesar do nome, a vitamina D tem características de um hormônio. Ela é produzida pelo próprio organismo e, depois de ativada, atua em diferentes tecidos, como explica Andressa. A principal função comprovada está ligada ao cálcio e ao fósforo, minerais importantes para os ossos e os músculos.
O nutriente ajuda o organismo a:
- Absorver cálcio e fósforo no intestino
- Controlar a quantidade de cálcio eliminada pela urina
- Manter os ossos saudáveis
- Preservar o funcionamento dos músculos
Em casos graves de deficiência, podem surgir problemas como raquitismo em crianças, o que prejudica o desenvolvimento dos ossos, e osteomalácia em adultos, que deixa os ossos mais frágeis e pode causar dor.
E a imunidade?
A vitamina D também costuma aparecer nas redes sociais associada à prevenção de doenças cardiovasculares, metabólicas, autoimunes e ao fortalecimento da imunidade.
— Muitas dessas associações ainda estão em investigação e não significam necessariamente que a suplementação previna essas doenças — pondera a dermatologista.
Quem deve suplementar
A diretriz publicada em 2024 aponta grupos que podem obter benefícios específicos. Além dos citados acima, há indicação para pessoas com pré-diabetes, pois pode ajudar a reduzir a progressão da doença.
Outros casos
Há ainda situações em que a reposição pode ser indicada, de acordo com a avaliação médica.
- Osteopenia ou osteoporose, quando os ossos perdem densidade e ficam mais frágeis
- Problemas de absorção intestinal
- Cirurgia bariátrica, que pode dificultar a absorção de nutrientes
- Deficiência já identificada em exames anteriores
- Alguns casos de tratamento oncológico, conforme avaliação individual
Nesses casos, a indicação depende das condições de saúde e das necessidades de cada pessoa. A preocupação é que uma mensagem genérica acabe deixando de lado justamente quem tem indicação para fazer a reposição. Na prática pediátrica, por exemplo, a falta de suplementação entre crianças ainda é frequente, completa a endocrinologista Letícia:
— É muito comum atendermos crianças que não estão fazendo a reposição básica.
Como tomar quando há indicação
A vitamina D é lipossolúvel, ou seja, é absorvida melhor na presença de gordura. Por isso, quando houver indicação médica, o suplemento deve ser tomado junto com uma refeição.
Por que o exame virou rotina sem necessidade
Se o adulto saudável não tem benefício comprovado com a cápsula, fica a pergunta: por que tanta gente faz o exame e acaba levando o suplemento para casa? A dosagem de vitamina D se popularizou nos consultórios brasileiros na última década, acompanhada pelo aumento do uso de suplementos.
Para a endocrinologista, esse movimento faz parte de um problema maior: a ideia de que mais exames e mais vitaminas significam, necessariamente, mais cuidado com a saúde:
— Estamos vivendo um exagero de exames e de suplementação de vitaminas. Existe um mercado que se interessa muito, do ponto de vista financeiro, por vender a imagem de que precisamos tomar diversas cápsulas.
Sol sem filtro não é a saída
Se o sol ajuda o corpo a produzir vitamina D, surge outra dúvida: quanto tempo é preciso ficar exposto? Não existe uma resposta única. A produção varia conforme alguns fatores.
- Horário
- Estação do ano
- Região
- Idade
- Quantidade de pele exposta
- Tom da pele
Pessoas com pele negra produzem mais melanina, pigmento que funciona como uma espécie de filtro natural contra a radiação. Por isso, precisam de mais tempo de exposição para produzir a mesma quantidade de vitamina D.
Isso, porém, não significa que seja recomendado ficar no sol sem proteção. A dermatologia não endossa o conselho de deixar braços e pernas expostos sem filtro solar para "fabricar" vitamina D.
— Do ponto de vista dermatológico, não recomendamos exposição solar sem proteção com o objetivo de produzir vitamina D, pois a radiação ultravioleta aumenta o risco de fotoenvelhecimento e câncer de pele — orienta Andressa.
Quem usa protetor solar diariamente também não precisa abandonar o hábito. Na prática, o uso habitual do produto não atrapalha de forma relevante a produção da vitamina.
Quanta vitamina D há nos alimentos
A dieta fornece vitamina D, mas em quantidades relativamente pequenas. Para medir a quantidade da vitamina, usa-se a unidade internacional (UI), uma medida padronizada para indicar a atividade de determinadas substâncias, como vitaminas. Para se ter uma ideia:
- 100 gramas de salmão contém cerca de 473 UI de vitamina D
- 100 gramas de gema de ovo tem cerca de 83 UI
Considerando as 600 UI usadas como referência diária, seriam necessários aproximadamente 130 gramas de salmão todos os dias para atingir essa quantidade apenas com a alimentação. Fora peixes oleosos, gema de ovo e produtos enriquecidos pela indústria, a concentração de vitamina D nos alimentos costuma ser baixa ou inexistente.

O que acontece se eu tomar vitamina D em excesso
A deficiência costuma ser silenciosa. Quando os sintomas aparecem, o quadro pode estar mais avançado. Os sinais podem incluir:
- Fraqueza muscular
- Dor nos ossos
- Dor muscular
- Enfraquecimento dos ossos em casos prolongados
Porém, o excesso também merece atenção. Tomar doses muito altas por conta própria pode elevar a concentração de cálcio no sangue, provocando hipercalcemia.
Os primeiros sinais podem ser:
- Náusea e vômito
- Perda de apetite
- Prisão de ventre
- Dor abdominal
- Fraqueza
- Aumento da frequência urinária
- Desidratação
Em casos mais graves, o excesso de cálcio pode prejudicar os rins e alterar o ritmo do coração.
— Mais vitamina D não significa necessariamente mais saúde — alerta a dermatologista.
A situação também aparece na prática clínica.
— Não é raro depararmos com pacientes com níveis altíssimos de vitamina D e hipercalcemia, já desidratados e com outras consequências — relata Letícia.
Por isso, as três médicas reforçam o mesmo ponto: doses elevadas não devem ser definidas por conta própria.
— Sempre devemos ter o exame de controle, que diz o quanto precisamos usar e por quanto tempo — conclui Clair.