Memória preservada
"O pelego é o meu colchão": conheça o jovem que escolheu viver como os antigos tropeiros no Rio Grande do Sul
Apaixonados pela cultura construída sobre o lombo de mulas e cavalos ajudam a manter vivo legado das antigas expedições que moldaram o Estado

Em deslocamento pela RS-110, a reportagem de Zero Hora envia uma mensagem de celular ao divulgador da cultura tropeira Willian Marcelo dos Santos Goulart para pedir referências que facilitem localizá-lo no interior de Bom Jesus, nos Campos de Cima da Serra. Recebe de volta um áudio marcado pela típica prosódia campeira:
"Vou estar aqui na frente, de a cavalo já. Quando o senhor enxergar um tropeiro de a cavalo, ou numa mula, para o bicho!"
O bicho, no caso, é a caminhonete da equipe. Pela voz, parecia tratar-se de um peão curtido pelo sol e pelo vento há pelo menos 60 anos. Ao avistar o gaúcho de chapéu e relho junto à cerca do sítio e "parar o bicho", vem a surpresa: Goulart tem 24 anos. Faz parte de uma nova geração que, embora não tenha vivenciado os anos áureos do tropeirismo, herdou a paixão por uma atividade que remonta a mais de três séculos em solo gaúcho.

O jovem integra um movimento articulado para manter vivo o espírito tropeiro no Rio Grande do Sul — fenômeno que ganhou força no século 18 e se manteve relevante até as primeiras décadas do século 20 por meio de viajantes que conduziam tropas de muares ou bovinos (embora porcos, ovelhas e até perus também fossem tocados) por dias a fio. As iniciativas incluem o Seminário Nacional sobre Tropeirismo (Senatro), realizado a cada dois anos desde 1992, em Bom Jesus, um número crescente de tropeadas culturais e turísticas (que evocam as antigas caravanas, mas sem propósito comercial) e até lições em sala de aula de redes municipais de ensino de cidades como Bom Jesus, São José dos Ausentes e Taquara, no Vale do Paranhana.
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Willian costuma representar a figura do tropeiro serrano em escolas dos Campos de Cima da Serra, em um trabalho conjunto com os pesquisadores Valter Fraga Nunes e Marco Aurélio Angeli, autores do livro Tropeirismo: Uma Síntese Didática, lançado como material de apoio para professores.
— Em cidades com um número muito grande de alunos, como Taquara, a gente faz a capacitação dos professores. Em municípios menores, levamos material audiovisual, montamos um pouso tropeiro do início do século 20 e, em uma terceira etapa, levamos um cargueiro (burro de carga) — afirma Nunes.
Por vezes, Goulart chega aos pátios escolares montado no burro Faísca, acenando o chapéu e puxando uma mula cargueira com antigos apetrechos, ou no linguajar tradicional, "traias". Parte dos itens conduzidos nas expedições, como arroz, charque ou paçoca, era estocada em bolsas de couro cru que pendiam de ambos os lados dos animais, as "bruacas", capazes de transportar até 45 quilos em cada flanco.

Embora suas tarefas envolvam apresentações em colégios e passeios com turistas, Goulart não se considera um tropeiro postiço, mas um legítimo herdeiro de uma tradição imemorial. Desde pequeno, habituou-se a enfrentar quem tentava ridicularizar seu jeito de falar ou de se vestir — anda pilchado da hora em que o galo canta até o silêncio da noite. No colégio, em tom provocativo, era chamado de "Willian Gauchinho". Respondia às tentativas de bullying com firmeza.
— Sempre fui meio brabo — explica.
O tropeiro tardio argumenta que a maior parte de seus ascendentes vivia no lombo das mulas sacolejando Rio Grande afora. Por isso, considera natural resgatar a cultura forjada nas andanças das tropas.
— Trago isso dos meus antepassados. Do meu tataravô, Ludorino Cardoso, que passou para Felizardo Cardoso. A herança passou para Sandoval Varela, que passou para o meu avô, Sinval Varela, que passou para o Willian tropeiro. Às vezes, quando não tenho companheiro, eu saio solito. Boto três, quatro mulas enrabichadas uma na outra, e vou de pago em pago — conta o rapaz.
Assim, quando vai visitar algum amigo, em vez de pegar um carro e percorrer a estrada por uma ou duas horas, prefere cruzar os campos ao passo lento do Faísca, dormindo e comendo ao relento, cruzando arroios e coxilhas, ao longo de um par de dias como se vivesse nos anos 1800.

Foi esse modo de vida que contribuiu para a expansão de cidades gaúchas a exemplo de Santo Antônio da Patrulha, Bom Jesus, Rolante e Taquara, entre outras. Um ponto de parada de cavaleiros dava lugar a um pouso, depois a um ou outro comércio, e assim floresciam povoações que por vezes viravam municípios. Por isso, o tropeirismo é considerado fundamental para a povoação do interior gaúcho, para a consolidação de rotas que deram lugar a rodovias e para a integração do território gaúcho ao restante do Brasil, além dos impactos no modo de vestir, falar e comer.
Ao contrário de outros jovens de sua idade, Goulart não se interessa por carros velozes ou celulares de última geração:
— Não me interessa muito o luxo do mundo. Me interessa o luxo dos meus arreios.
Não digo que não devo seguir a evolução, mas tenho de trilhar o futuro carregando o passado vivo na garupa, ou ele se perde.
WILLIAN MARCELO DOS SANTOS GOULART
Divulgador do tropeirismo
Ele garante não se ressentir de ter nascido quando a era de ouro do tropeirismo deu lugar a caminhões:
— Naquela época, tinha bastante (tropeiro). E, se não tivesse eu meio tiatino (sem paradeiro) hoje, estaria terminando. Deus me fez assim para mostrar um pouco daquela realidade. Porque nada disso que eu uso é enfeite. Eu uso no dia a dia. O pelego é o meu colchão.
É a vontade de não deixar a tradição morrer. Faço porque gosto, porque amo. Muitos dizem que eu sou a reencarnação de um tropeiro antigo.
WILLIAN MARCELO DOS SANTOS GOULART

Terminada a entrevista, Goulart dá meia-volta no Faísca e ruma para o galpão da propriedade. Puxa atrás de si os burros Vacariano, Anastácio e Serrano e carrega consigo um vasto passado que ajudou a moldar e a povoar o Rio Grande do Sul sob o passo lento e imparável das tropas.
O que é o tropeirismo
Fenômeno histórico, socioeconômico e cultural caracterizado pela condução organizada de tropas de animais (principalmente bovinos e muares) e mercadorias por terra, servindo como sistema fundamental de transporte e integração do Brasil entre os séculos 17 e 20. Resiste hoje, de forma esporádica, por meio de deslocamentos curtos e de menor duração ou de eventos culturais e turísticos.