Inverno gaúcho
Por que as casas no RS são tão frias? Entenda os motivos
Enquanto construções antigas apostavam em paredes espessas, imóveis modernos priorizam o arrefecimento no verão

Todo ano, quando os termômetros despencam no Rio Grande do Sul, os moradores costumam vivenciar um fenômeno desconfortável: muitas vezes, a sensação térmica é a mesma dentro e fora de casa. Enquanto em países de clima temperado ou polar as residências funcionam como refúgio aquecido, por aqui o ritual do inverno envolve vestir casacos pesados e se enrolar em mantas no meio da sala.
Essa sensação de "encarangar" do lado de dentro do imóvel não é fruto do acaso. Ela resulta de uma combinação:
- escolhas econômicas na construção civil
- cultura arquitetônica nacional predominantemente focada em combater o calor, e não o frio
Dos porões às esquadrias de alumínio
Historicamente, a arquitetura vernacular gaúcha – construções desenvolvidas pela comunidade local com materiais da região – buscava estratégias brutas de isolamento. Os indígenas Kaingang, na área onde hoje fica Caxias do Sul, faziam habitações cavadas na terra e cobertas com madeira e folhagens para aproveitar a proteção térmica do solo.
Mais tarde, os imigrantes italianos e alemães consolidaram a construção de casas de madeira sobre porões de pedra ou com paredes de tijolos maciços que chegavam a ter entre 25 centímetros e 45cm de espessura.
O engenheiro civil Vinicius Galeazzi explica que as moradias mais antigas priorizavam a retenção do calor justamente por meio dessa espessura e do fechamento vedado das esquadrias:
— Ao ver as casas mais antigas, nota-se que as paredes eram espessas, com tijolos maciços de até 45cm de largura. As esquadrias de madeira eram de uma qualidade que fechava 100%. Havia uma preocupação real com a espessura das paredes externas para guardar o calor — explica.
Com o avanço da urbanização e a popularização de materiais industriais mais baratos, o padrão mudou. Paredes externas passaram a ser erguidas com tijolos vazados (de seis furos) dispostos de pé, resultando em estruturas de apenas 12cm a 15cm de espessura.
Embora o ar dentro dos furos do tijolo ofereça alguma resistência térmica, a pouca espessura e a troca das antigas esquadrias de madeira por estruturas de alumínio ou ferro facilitaram a perda rápida do calor interno.
A rotina em busca do sol
Para quem mora em apartamentos e casas geralmente frias, a rotina de inverno torna-se uma logística diária em busca de um raio de sol pra se aquecer. É o caso da redatora Giana Milani, moradora do Centro Histórico de Porto Alegre.
Sem ar-condicionado quente e dependente de um aquecedor a óleo que fica restrito à sala, ela precisa mudar de cômodo ao longo do dia para trabalhar sem "congelar":
— Meu apartamento só pega sol de manhã. Como trabalho em home office, vou migrando: vou para o sofá quando tem um raio de sol, vou para o quarto quando pega um pouquinho.
Dentro de casa a gente tá morrendo de frio. Fico de polaina, meia-calça e várias camadas de blusa. Se tenho reunião, coloco um casaco mais bonito e, assim que acaba, volto para o roupão.
A moradora destaca que apartamentos com paredes grossas em prédios antigos, como o que ela mora, sem incidência de sol direto, pode ter um efeito reverso: demoram tanto para aquecer que mantêm o ambiente gelado mesmo quando a temperatura externa sobe. Ela considera se mudar para um imóvel com melhor orientação solar.
Foco no calor e problemas com umidade
Outro fator determinante é o alinhamento da arquitetura local com a tradição construtiva do restante do Brasil, onde há prioridade de imóveis com ventilação para dissipar o calor no verão. Como o frio rigoroso no Sul dura cerca de três a quatro meses, as edificações acabam privilegiando o conforto dos demais meses do ano.
O arquiteto e professor Fabio Boni exemplifica esse cenário ao analisar a Casa Boni, imóvel do início do século XX projetado por seu avô, o engenheiro Armando Boni, em Porto Alegre. A residência combina traços europeus – como a base em alvenaria de pedra com grande inércia térmica e telhas francesas com inclinação acentuada – com adaptações ao clima local.

— Na parte inferior da casa há muita inércia térmica (capacidade de manter a temperatura), feita praticamente em pedra. Já no andar de cima, quase todas as paredes internas são um misto de bambu trançado, semelhante a um pau a pique, coberto para diminuir o peso sobre o térreo. Isso era necessário porque tínhamos vãos razoavelmente grandes lá embaixo — detalha o arquiteto, lembrando que o avô projetou obras marcantes na Capital, como o Cemitério São Miguel e Almas.
Boni pondera ainda que a umidade do ar no Estado agrava a percepção de frio dentro de qualquer imóvel:
— A nossa zona é subtropical úmida temperada. Essa umidade agrava o problema do frio a ponto de o gaúcho ter a expressão "encarangar". Você vai para a Europa com -10°C e uma jaqueta resolve porque o ar é seco.
Aqui, o frio úmido gela os ossos. E essa mesma umidade se condensa nos vidros e paredes da casa gelada, criando mofo e desconforto.
O custo do conforto térmico
Enquanto países vizinhos como Uruguai e Argentina adotaram sistemas de calefação central e radiadores nas residências urbanas, no RS o tradicional ponto de encontro familiar era o fogão a lenha na cozinha. Com a verticalização e a redução das áreas privadas, o fogão a lenha praticamente desapareceu das novas construções urbanas sem ser substituído por um sistema integrado de aquecimento.
Tecnologias de alto desempenho térmico — como vidros duplos, esquadrias de PVC com vedação hermética, piso aquecido e isolamento em lã de rocha — estão disponíveis no mercado da construção civil. No entanto, o acesso a esses recursos ainda esbarra na questão financeira.
— A tecnologia para aquecimento e isolamento avançou muito, mas para ter um bom isolamento térmico em casa hoje é preciso investir bastante. Torna-se uma questão socioeconômica: tem acesso ao conforto térmico no inverno quem pode pagar por essas soluções — pontua Galeazzi.
Para quem busca amenizar o frio sem grandes reformas, arquitetos recomendam observar a orientação solar ao escolher um imóvel (priorizando ambientes voltados para o Norte), utilizar cortinas grossas e vedantes em portas e janelas para evitar a entrada do ar gelado.
Existem ainda técnicas constritivas e reformas pontuais que ajudam a reter o calor interno. A adoção de soluções no teto, paredes e piso faz diferença na temperatura dos ambientes:
- Cobertura e teto: substituir forros simples de PVC ou telhas comuns por telhas do tipo "sanduíche", ou instalar mantas aluminizadas pesadas sobre a laje ou forro, evita que o ar quente escape pelo teto
- Paredes e revestimentos: o uso de paredes duplas (com miolo isolante), sistemas de reboco térmico externo e revestimentos com materiais isolantes aumenta a capacidade do imóvel de manter a temperatura estável
- Esquadrias insuladas: a troca de janelas tradicionais por esquadrias de vidro duplo ou triplo veda frestas e reduz significativamente a troca de calor com o ambiente externo
- Pisos térmicos: A troca de pisos frios (como cerâmica e porcelanato) por laminados, vinílicos ou madeira reduz a sensação de chão gelado. Já os sistemas de piso aquecido devem ser planejados ainda no projeto devido à espessura do contrapiso e ao custo de manutenção e energia