Beleza fora de hora
Por que os ipês de Porto Alegre estão florindo no inverno e o que isso significa para a natureza
Apesar do espetáculo que encanta quem circula pela cidade, especialista alerta para os riscos à fauna e à reprodução das plantas


Quem circula pelas ruas de Porto Alegre em pleno inverno já percebe o colorido vibrante dos ipês-roxos e amarelos contrastando com o cinza dos prédios.
Embora a imagem encante, a primavera ainda está a 40 dias de distância. Esse desabrochar precoce das flores, que se tornou comum em anos recentes, é um sintoma visível de que o ritmo da natureza passou a ser alterado por fatores climáticos e urbanos.
O biólogo Paulo Brack, professor do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que a árvore reage a estímulos térmicos e que períodos de calor atípico, os chamados "veranicos", funcionam para as plantas como um sinal de que a estação fria terminou.
Esse processo gera o que a ciência chama de desajuste fenológico — uma alteração nas fases de desenvolvimento do vegetal, desde a queda das folhas até a floração.
Para o pesquisador, o cenário reflete uma instabilidade ambiental que atinge o ciclo biológico das plantas:
— Um desajuste bastante grande no que a gente chama de fenologia, que é a época das modificações das plantas nas diferentes fases de queda das folhas, início das brotações das flores. Isso está se alterando pelas questões de mudanças climáticas.
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Ilhas de calor antecipam o colorido
Porto Alegre apresenta condições que favorecem essa antecipação da floração em comparação a outras regiões do Estado.
Enquanto cidades da Campanha ou da Serra, como Bagé e São Francisco de Paula, mantêm ciclos mais tardios devido ao frio persistente, a Capital sofre o efeito das "ilhas de calor". O concreto, o cimento e o asfalto retêm a radiação solar, elevando a temperatura média do ambiente urbano.
O biólogo observa que essa configuração da cidade influencia diretamente nos termômetros locais e, consequentemente, na vegetação.
— A temperatura é mais elevada nas áreas urbanas também, devido à concentração de concreto, cimento e asfalto. Então, a nossa temperatura aqui na cidade também tem alguns graus a mais do que o normal fora da cidade— avalia Paulo Brack.

Por que a pressa da natureza pode ser perigosa?
O colorido das flores que se antecipam ao calor é bonito de ver, mas esconde um risco para a natureza. Se o tempo mudar de repente e vier um frio congelante ou vento forte logo após o desabrochar, as pétalas e o miolo da flor acabam destruídos — o que impede a planta de gerar novas sementes.
Outro problema é o "desencontro" com a fauna. Se a planta floresce fora de hora, as abelhas e pássaros que dependem do pólen podem ainda não estar por perto para fazer o seu trabalho, e a flor acaba secando sem ser polinizada.
Na análise de Brack, o problema não se restringe apenas às árvores ornamentais, podendo atingir a produção de alimentos.
Pode atrapalhar bastante o florescimento de plantas, inclusive plantas alimentícias, frutíferas
PAULO BRACK
Professor do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Um patrimônio plantado na década de 1980
A grande quantidade de ipês nas ruas e avenidas de Porto Alegre é resultado de um plano que começou há cerca de 40 anos. Na época, a prefeitura escolheu essa árvore nativa por ser forte e se adaptar com facilidade ao solo e ao clima da Capital.
O professor destaca a facilidade da árvore para se estabelecer no meio urbano, o que garantiu o seu domínio na paisagem da cidade.
— Ela pega com grande facilidade na cidade. Foi muito bem plantada e a chance de "pega" é grande. Por isso, tem sucesso na arborização — acrescentou Brack.
Embora o ipê seja a flor-símbolo do Brasil, algumas das variedades mais comuns em Porto Alegre, como o ipê-amarelo-miúdo, foram trazidas de outros Estados.

Independentemente da origem, a planta se consolidou na identidade local, servindo de abrigo e sustento para a fauna urbana.
Para o futuro, Brack defende que o monitoramento dessas mudanças seja intensificado para entender os impactos de longo prazo.
— Precisaríamos ter estudos em relação a essa mudança na fenologia, que é evidente. São necessárias mais pesquisas para acompanhar esse processo, que infelizmente vai se alterar ainda mais com o aquecimento global — ressalta o especialista.
* Sob orientação e supervisão de Beto Azambuja