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Beleza fora de hora

Por que os ipês de Porto Alegre estão florindo no inverno e o que isso significa para a natureza

Apesar do espetáculo que encanta quem circula pela cidade, especialista alerta para os riscos à fauna e à reprodução das plantas

11/08/2026 - 09h49min


Juliano Lannes*
Juliano Lannes*
Estagiário de Jornalismo
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Renan Mattos/Grupo RBS
Ipês-roxos são atrativos de ruas e parques da Capital.

Quem circula pelas ruas de Porto Alegre em pleno inverno já percebe o colorido vibrante dos ipês-roxos e amarelos contrastando com o cinza dos prédios. 

Embora a imagem encante, a primavera ainda está a 40 dias de distância. Esse desabrochar precoce das flores, que se tornou comum em anos recentes, é um sintoma visível de que o ritmo da natureza passou a ser alterado por fatores climáticos e urbanos.

O biólogo Paulo Brack, professor do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que a árvore reage a estímulos térmicos e que períodos de calor atípico, os chamados "veranicos", funcionam para as plantas como um sinal de que a estação fria terminou

Esse processo gera o que a ciência chama de desajuste fenológico — uma alteração nas fases de desenvolvimento do vegetal, desde a queda das folhas até a floração.

Para o pesquisador, o cenário reflete uma instabilidade ambiental que atinge o ciclo biológico das plantas:

— Um desajuste bastante grande no que a gente chama de fenologia, que é a época das modificações das plantas nas diferentes fases de queda das folhas, início das brotações das flores. Isso está se alterando pelas questões de mudanças climáticas.

Leia nesta reportagem:

Renan Mattos/Grupo RBS
Até mesmo à beira do Arroio Dilúvio árvores mostram todo seu esplendor.

Ilhas de calor antecipam o colorido 

Porto Alegre apresenta condições que favorecem essa antecipação da floração em comparação a outras regiões do Estado. 

Enquanto cidades da Campanha ou da Serra, como Bagé e São Francisco de Paula, mantêm ciclos mais tardios devido ao frio persistente, a Capital sofre o efeito das "ilhas de calor". O concreto, o cimento e o asfalto retêm a radiação solar, elevando a temperatura média do ambiente urbano.

O biólogo observa que essa configuração da cidade influencia diretamente nos termômetros locais e, consequentemente, na vegetação.

— A temperatura é mais elevada nas áreas urbanas também, devido à concentração de concreto, cimento e asfalto. Então, a nossa temperatura aqui na cidade também tem alguns graus a mais do que o normal fora da cidade— avalia Paulo Brack.

Renan Mattos/Grupo RBS
Parque da Redenção já está bastante florido em pleno agosto.

Por que a pressa da natureza pode ser perigosa?

O colorido das flores que se antecipam ao calor é bonito de ver, mas esconde um risco para a natureza. Se o tempo mudar de repente e vier um frio congelante ou vento forte logo após o desabrochar, as pétalas e o miolo da flor acabam destruídos — o que impede a planta de gerar novas sementes.

Outro problema é o "desencontro" com a fauna. Se a planta floresce fora de hora, as abelhas e pássaros que dependem do pólen podem ainda não estar por perto para fazer o seu trabalho, e a flor acaba secando sem ser polinizada.

Na análise de Brack, o problema não se restringe apenas às árvores ornamentais, podendo atingir a produção de alimentos.

Pode atrapalhar bastante o florescimento de plantas, inclusive plantas alimentícias, frutíferas

PAULO BRACK

Professor do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Renan Mattos/Grupo RBS
Ipês amarelos também já dão o ar da graça nas ruas de Porto Alegre.

Um patrimônio plantado na década de 1980

A grande quantidade de ipês nas ruas e avenidas de Porto Alegre é resultado de um plano que começou há cerca de 40 anos. Na época, a prefeitura escolheu essa árvore nativa por ser forte e se adaptar com facilidade ao solo e ao clima da Capital.

O professor destaca a facilidade da árvore para se estabelecer no meio urbano, o que garantiu o seu domínio na paisagem da cidade.

— Ela pega com grande facilidade na cidade. Foi muito bem plantada e a chance de "pega" é grande. Por isso, tem sucesso na arborização — acrescentou Brack.

Embora o ipê seja a flor-símbolo do Brasil, algumas das variedades mais comuns em Porto Alegre, como o ipê-amarelo-miúdo, foram trazidas de outros Estados. 

Renan Mattos/Grupo RBS
Variedade como o "ipê-amarelo-miúdo" foi trazida de outros Estados.

Independentemente da origem, a planta se consolidou na identidade local, servindo de abrigo e sustento para a fauna urbana.

Para o futuro, Brack defende que o monitoramento dessas mudanças seja intensificado para entender os impactos de longo prazo.

— Precisaríamos ter estudos em relação a essa mudança na fenologia, que é evidente. São necessárias mais pesquisas para acompanhar esse processo, que infelizmente vai se alterar ainda mais com o aquecimento global — ressalta o especialista.

* Sob orientação e supervisão de Beto Azambuja


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