Doença digestiva
Refluxo na terceira idade: quando sintomas silenciosos podem virar risco depois dos 60 anos
Especialistas da UFRGS e da Santa Casa explicam como o enfraquecimento da "válvula" no esôfago afeta idosos e como atuar na prevenção do problema

Pigarro, tosse seca frequente e engasgos podem parecer problemas respiratórios simples, mas muitas vezes sinalizam a doença do refluxo gastroesofágico — condição que atinge cerca de 20% da população brasileira (42 milhões), conforme o professor do Departamento de Cirurgia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Richard Gurski.
Ele e outros especialistas alertam que, embora a enfermidade costume dar os primeiros sinais por volta dos 40 anos, é na terceira idade que os riscos e o progresso da doença se agravam.
O refluxo é uma condição que surge quando o conteúdo gástrico do estômago retorna de forma involuntária e repetida para o esôfago, podendo ou não a pessoa apresentar sintomas.
Em determinadas situações, pode atingir ainda a laringe e a boca. Ou seja, trata-se de uma doença digestiva.
Para Gurski, que também é diretor do Instituto do Aparelho Digestivo (IAD), sediado em Porto Alegre, e secretário-geral do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD), há uma série de sintomas atípicos, ou extraesofágicos, que podem sinalizar um risco silencioso, como pigarro, tosse crônica, asma brônquica, rouquidão, otites, sinusites, laringites e faringites.
— Tudo na via aérea superior e inferior, decorrente de um refluxo que vem do estômago, vai para o esôfago, sobe até a faringe e desce na via aérea. Principalmente pacientes que têm refluxos noturnos acabam tendo esse tipo de situação — ilustra.
De acordo com o médico, a faixa etária de início da doença gira em torno dos 40 anos. Mas o seu progresso ocorre cerca de 20 anos mais tarde.
— Temos que chamar a atenção para as pessoas mais jovens, que consultem um especialista e entendam que isso começa antes. O resultado do tratamento será melhor quanto mais cedo for feito o diagnóstico. É uma doença para ser tratada de forma multidisciplinar — destaca.
"Válvula" perde eficiência entre idosos
O gastroenterologista e hepatologista Alfeu de Medeiros Fleck Júnior, da Santa Casa de Porto Alegre, menciona que a área mais exposta aos impactos do ácido é a parte final do esôfago, mais próxima ao estômago.
— No final do esôfago, temos uma estrutura que se chama esfíncter esofágico inferior, que nada mais é do que uma válvula. Funciona como uma torneira: ela abre para passar o alimento, seja líquido ou sólido, e depois fecha para proteger o esôfago do retorno do conteúdo ácido do estômago — explica.
Segundo o médico, o público 60+ é mais suscetível a episódios de refluxo em função do comportamento dessa válvula. Na terceira idade, ainda de acordo com o gastroenterologista, aparecem outros sintomas mais frequentes, como tosse seca, rouquidão, pigarro e engasgos.
— Essa válvula vai enfraquecendo com o passar dos anos e vai ficando um pouco menos competente. Ficando mais aberta, ela vai facilitar o retorno do líquido gástrico para o esôfago, além de outras situações como a hérnia de hiato (condição que acontece quando uma parte do estômago se desloca do abdômen para o tórax, por meio de uma abertura natural no diafragma).
Principalmente depois dos 60 anos, pessoas que tenham sintomas devem fazer endoscopia para avaliar a mucosa e diagnosticar os fatores de risco e afastar outras causas.
ALFEU DE MEDEIROS FLECK JÚNIOR
Médico
Na terceira idade, alerta o médico da Santa Casa, a doença do refluxo pode levar a pessoa a ter problemas pulmonares, principalmente com a aspiração, na hora de deitar.
— Quando a pessoa deita, esse líquido (do estômago) escorre e vai em direção ao esôfago. Às vezes, é o momento que o paciente tem os sintomas do refluxo, porque se anula o efeito protetor da gravidade — observa.
Nessas condições, o líquido do refluxo pode ir para as vias respiratórias, provocando pneumonias de repetição por aspiração – algo comum de acontecer em pessoas com mais de 60 anos.
O importante é que os pacientes portadores de refluxo sejam monitorados até pelos riscos de a doença levar a uma esofagite (inflamação no esôfago).

Ao longo do tempo, essa situação crônica pode modificar a mucosa do esôfago e ser um fator de risco para o desenvolvimento de câncer.
— Existe uma adaptação que a mucosa do esôfago faz para ficar parecida com a do estômago, para se adaptar a presença da acidez. Só que essa mucosa não fica parecida com o estômago, mas sim com o intestino. Aí essa mucosa fica sob risco de, no futuro, desenvolver câncer de esôfago — detalha.
Confira alguns sintomas:
- Azia
- Queimação
- Regurgitação
- Pigarro
- Tosse seca crônica
- Rouquidão
- Engasgo
- Gosto desagradável na boca
- Soluços
- Desconforto
Conforme o médico, o diagnóstico começa ao se conhecer a história clínica do paciente. A endoscopia serve para afastar outras possibilidades, como hérnia de hiato, úlcera, gastrite e câncer.
O diagnóstico também passa pelo exame de PHmetria, que ocorre com a introdução de um cateter colocado via nasal no paciente que vai até o esôfago. O exame detecta cada vez que o PH (mede a acidez e a basicidade de uma solução) daquela região baixar a um determinado valor, caracterizando o episódio de refluxo.
Tratamento com antiácidos
O tratamento engloba o uso de antiácidos para reduzir a acidez do estômago. Tratam-se dos inibidores da bomba de prótons (IBPs), muito utilizados e altamente eficazes.
— A primeira geração dos inibidores da bomba de prótons foi o omeprazol. Às vezes, o paciente se automedica e não vai ao médico. E pessoas acima de 60 anos com esses sintomas têm que visitar um gastroenterologista, fazer endoscopia e determinar o tempo de tratamento necessário. Em geral, os inibidores funcionam muito bem e controlam mais de 90% das situações de refluxo, deixando os pacientes assintomáticos — afirma Fleck Júnior.
Também há circunstâncias em que os pacientes são refratários ao tratamento com essa medicação. Nesses casos, precisam associar remédios que aceleram o esvaziamento do estômago.
"Sou outra pessoa", diz paciente em tratamento

O diretor industrial de frigorífico César Assmann, 68 anos, começou há pouco mais de 30 dias o tratamento para refluxo na Santa Casa de Porto Alegre. O morador de Feliz, no Vale do Caí, convive com a doença há mais de 20 anos.
— Eu me lembro dos primeiros refluxos quando fui para a campanha a prefeito de Feliz, em 2005. A gente anda de casa em casa, almoça aqui e janta lá, bebida nos eventos. Aquilo era um terror. E eu achava que era em função justamente da variedade de comida e temperos — compartilha.
Entre os sintomas que sentia, recorda de tosse seca, queimação e ardência, inclusive quando estava se dirigindo para a prática de atividade física na academia.
Os sintomas persistiram. Assmann acreditava que poderia ser algo relacionado à alimentação ou ao estresse. Era um convívio diário com a ardência e com a queimação. Ele cita que não fuma e bebe álcool apenas socialmente.
— Até que, recentemente, eu fui fazer um exame e foi constatado que eu tenho uma gastrite. Esse era um dos motivos que eu estava tendo esse refluxo todo — narra.

O paciente afirma que tinha inclusive tosse seca sem motivos aparentes. No seu caso, o refluxo se manifestava mais na parte da manhã. Costumava tomar omeprazol antes de comer, mas não adiantava. A demora por buscar tratamento médico agravou a situação.
Após se submeter a exame de endoscopia e começar o tratamento, sua qualidade de vida melhorou. Basicamente, precisa tomar pantoprazol com magnésia todas as manhãs. Também cortou as frituras do cardápio.
Não sinto mais absolutamente nada. Sou outra pessoa
CÉSAR ASSMANN
68 anos
"Quando a gente fala de idoso, tem que ter um cuidado redobrado"
A nutricionista Clara Corrêa, que atende em consultório no Conecta Nutri&Psi e também no Hospital Mãe de Deus, diz que é preciso redobrar os cuidados em relação ao refluxo quando o tema envolve o público 60+.
— Quando a gente fala de idoso, tem que ter um cuidado redobrado. Porque, muitas vezes, tem a questão de começarem a fazer dietas restritivas, o que pode resolver o refluxo, mas trazer outros problemas — pondera.
Pessoas que têm refluxo precisam melhorar a qualidade da alimentação.
CLARA CORRÊA
Nutricionista

Segundo Clara, os principais alimentos a serem evitados são os gordurosos, além de café, chá preto, chimarrão e chocolates.
— Nós, gaúchos, tendemos a ter uma alimentação com mais gordura em função do churrasco. A questão da gordura é um dos principais cuidados — salienta.
O que diminuir ou evitar
- Alimentos gordurosos
- Bebidas alcoólicas
- Bebidas gasosas
- Cigarro
- Refrigerantes
- Frituras
- Café
- Chimarrão
- Chá preto
- Chocolate
A nutricionista explica que os alimentos com cafeína relaxam a musculatura do esôfago, o que acentua os sintomas no caso de portadores de refluxo.
— As pessoas sofrem quando comem muito tarde refeições gordurosas, ou café, ou chimarrão, muito perto do horário de dormir. É importante ter um intervalo de duas horas, no mínimo, até deitar.

O excesso de peso contribui para a piora do refluxo. Idosos precisam evitar o sobrepeso, mas sempre cuidando para não desenvolverem um quadro de desnutrição.
— Por isso, trabalhamos em conjunto, nutricionista e gastro, para atenuar os sintomas mantendo uma alimentação equilibrada — exemplifica.
Recomendações
- Evitar sobrepeso
- Não fumar
- Não beber álcool
- Não deitar logo após comer
- Fracionar as refeições
- Levantar um pouco a cabeceira da cama