Direto da Redação
Henrique Moreira: A crueldade é Humana
Jornalistas do Diário Gaúcho opinam sobre temas do cotidiano


Ultimamente tenho encontrado notícias que eu preferia não ter lido. Outro dia, enquanto via vídeos de gatos (porque eu tenho dois e sempre paro quando surge um na tela) apareceu uma notícia. Um filhote tinha sido queimado vivo por um ser humano. Ele ficou internado por 28 dias.
Veterinários tentaram salvá-lo. Não conseguiram. Até onde acompanhei, ninguém foi responsabilizado. Fechei o celular, mas a notícia não foi embora junto. Volta e meia lembro daquele gato. Eu não conhecia ele. Não sei em que cidade aquilo aconteceu. Não posso fazer justiça. Mas mesmo assim, fiquei triste.
Quando acontece uma coisa dessas, a gente costuma dizer que “o mundo está perdido”. Eu não acho. O mundo não queimou um filhote. Um ser humano queimou.
E faço questão de repetir essas duas palavras porque elas costumam aparecer quando alguém ajuda um desconhecido, adota um animal abandonado ou doa sangue. “Que ser humano bonito.” “Ainda existem seres humanos bons.” Mas elas também servem para isso.
Não foi um monstro
Quem colocou fogo naquele gato também era um ser humano. Acho importante lembrar disso.
Não porque eu queira acreditar que as pessoas são ruins. Mas porque fingir que a crueldade pertence a monstros inventados é uma forma de afastá-la da realidade. Ela pertence a nós, humanos.
É desconfortável escrever isso. Também é desconfortável ler. Ainda não sei o que fazer com essa informação e não sei se escrever muda alguma coisa. Não sei se dividir essa tristeza faz alguma diferença. E, desde que li essa notícia, tenho pensado menos na definição de humanidade e mais na responsabilidade que ela carrega.
Porque, no fim, quem queimou aquele filhote não foi um monstro. Foi um ser humano.