Vida da Gente
Histórias da vizinhança ganham vida no projeto Reside Alegre
Intervenções artísticas criadas a partir das memórias de moradores da rua Alberto Torres serão apresentadas gratuitamente neste sábado e domingo

Neste fim de semana, a Rua Alberto Torres, na Cidade Baixa, se transforma em palco. Entre casas, praças, calçadas, um restaurante e uma creche centenária, moradores e artistas se encontram para contar histórias que fazem parte do cotidiano da rua. É o Reside Alegre, projeto que abre a programação do 33º Porto Alegre em Cena, que inicia oficialmente em 10 de setembro.
As ações serão realizadas neste sábado e domingo, das 17h30 às 22h, com entrada gratuita. As apresentações, com duração entre 20 e 30 minutos, serão repetidas três vezes por noite e ocorrerão simultaneamente em diferentes pontos da rua, inclusive dentro das casas de moradores, na Creche São Francisco de Assis, no restaurante KiloGrama e nas calçadas. As senhas para participar das atividades serão distribuídas a partir das 16h30min, na bilheteria da sede do Reside Alegre, na Rua Alberto Torres, 27.
Esta é a segunda edição do projeto na Capital. Em 2025, a iniciativa ocupou o Centro Histórico. A proposta, no entanto, não é simplesmente levar espetáculos para um território: é criar as obras a partir das pessoas que vivem nele.
Primeiro vem a escuta
Para conhecer a comunidade que receberia o projeto em 2026, a equipe do Reside Alegre esteve em Porto Alegre em maio. O grupo retornou no fim de julho para uma residência artística que reuniu moradores, artistas da cidade e 15 estudantes do Departamento de Arte Dramática (DAD) da UFRGS.
A equipe é formada pela diretora e coordenadora argentina Monina Bonelli, pela curadora e coordenadora pernambucana Paula de Renor, pelo curador e diretor Celso Curi, pelo coordenador Wesley Kawaai e pela diretora de produção artística Sandra Possani.
A edição deste ano também conta com a diretora, iluminadora e produtora Nara Lucia Maia como vizinha-embaixadora, figura responsável por aproximar ainda mais artistas e comunidade. Moradora da Rua Alberto Torres há mais de 20 anos, ela recebeu com entusiasmo o convite para atuar como ponte entre o evento e quem vive na região.
- É uma quadra que as pessoas se conhecem muito, essa é a parte legal. Claro, tu chamar as pessoas que tu não conhece foi um desafio, mas foi uma parte divertida também. Há famílias que estão aqui há muitos anos e há muitas histórias que fazem parte desse lugar. Foi muito emocionante conhecer ainda mais essas pessoas – conta.
Orgulhosa de integrar o projeto, Nara destaca o vínculo afetivo que mantém com a rua:
- Fiquei muito feliz por poder ser essa ponte para realizar o evento aqui, que é uma rua que a gente tem muito amor, amor pela vida que a gente tem aqui.
Moradores protagonistas
A curadoria do projeto começa justamente nas conversas com os moradores. Não existe uma programação pronta, as histórias ouvidas durante o processo orientam as escolhas dos artistas e dão origem às intervenções.

Paula explica que a equipe escuta as histórias, identifica possibilidades e conversa com diferentes artistas para encontrar formas de transformá-las em arte. O resultado é uma programação que mistura fotografia, teatro, música, performance e memória.
Para a curadora, justamente por não seguir uma fórmula, o projeto consegue preservar a singularidade das histórias contadas. Ela conta que a equipe chega ao território sem saber exatamente o que encontrará.
- Isso tudo é um olhar curatorial, de formas diferentes de você contar e de não ter fórmula nenhuma, porque na hora que tiver uma fórmula, deixa de ter autenticidade. Acho que o mais importante desse projeto é ele ser honesto e autêntico. Honesto com os vizinhos e honesto com o que a gente propõe, que a gente não chega com nenhuma expectativa. Sabe que muita gente junta, com vontade, com amor pela arte, com amor pelo outro ser humano, e querendo conhecer melhor o outro, só pode sair coisa boa dali, porque coisa ruim é que não pode.
Uma rua histórica
O cenário escolhido para a residência também carrega sua própria memória. A rua Alberto Torres preserva construções que ajudam a contar a evolução da Cidade Baixa, entre elas sobrados geminados erguidos em 1935 e edificações residenciais construídas em meados do século 20.
Na programação, essa memória se encontra com a de quem vive hoje no território. A Creche São Francisco de Assis, que existe há mais de 90 anos e é considerada a primeira creche do Rio Grande do Sul, também participa da programação.
No espaço serão apresentadas três ações: Vozes e Gerações, com coral formado por crianças da creche e direção de Madalena Rasslan; Trilha de Afeto, uma caminhada pelo jardim com criação e edição de áudio de Jaques Machado e depoimento de Rodrigo Dias; e Infância Adormecida, experiência sensorial assinada por Paulo Guimarães.
Para Paula, é justamente essa relação de troca entre artistas e moradores que diferencia o Reside Alegre de uma ocupação artística convencional.
- É um trabalho feito com essas pessoas, desse território, é com elas, é para elas, é através delas.
Programação
As histórias da Alberto Torres aparecem em diferentes formatos. O Álbum dos Vizinhos, da fotógrafa Justine Maia, reúne retratos feitos nas portas e dentro das casas dos moradores. As imagens serão projetadas na própria rua, transformando a fachada dos imóveis em uma espécie de álbum de família coletivo.
No Bailinho, histórias sobre festas realizadas nas casas da rua dão origem a uma celebração com DJs. Já Antônio, criação de Fernando Kike Barbosa, apresenta, por meio de um audioguia, a história do guardador de carros que se tornou uma figura conhecida no cotidiano da rua.
Há ainda espaço para humor, memória e cultura popular em Harmonia Cabaré, que reúne moradores, estudantes da UFRGS e artistas em uma ação inspirada nos antigos shows de talentos.
A obra do cartunista Santiago, Neltair Abreu, também ganha espaço em Caminhos de Santiago, que leva personagens do artista para a rua em forma de totens, como se eles próprios fossem vizinhos da Alberto Torres.
Presença feminina
Entre as histórias transformadas em cena está a de Eva dos Santos, professora de inglês apaixonada por viagens. Em As Viagens da Dinda, criação de Anna Chepp e direção de Silvana Rodrigues, o público terá contato com um acervo de slides deixado por Eva e com as memórias construídas a partir de suas viagens.
A presença e a força das mulheres também atravessam o processo de escuta do projeto. Paula destaca que grande parte das pessoas ouvidas pela equipe era formada por mulheres.
- As mulheres são muito fortes, sabe? Estão sempre à frente das famílias, elas têm um posicionamento grande. Então, quando a gente fez todas as entrevistas, a gente vê que a maioria eram mulheres.
Pernambucana, a curadora brinca que chegou a Porto Alegre e se surpreendeu nas gaúchas a mesma força que costuma atribuir às mulheres nordestinas:
- Eu sempre falei: nós achamos que as mulheres nordestinas é que eram o máximo, eram guerreiras. Mas, vamos dizer, as gaúchas, eu estou tirando o chapéu.
Essa constatação também aparece em Encontrando Ariadne, de Paulina Nólibos. A partir do mito de Ariadne, a obra percorre uma antiga casa para discutir mulheres, violência de gênero e as diferentes versões sobre os destinos femininos. Na Biblioteca Feminista Lélia Gonzalez, da Casa MEL, o público poderá participar do Oráculo Feminista, uma experiência que mistura literatura e jogo para apresentar escritoras e suas ideias.
Nara se emociona ao falar sobre a expectativa para o projeto e destaca a importância de aproximar o público da arte:
- Espero que as pessoas tenham esse olhar para a arte, que se sensibilizem. Precisamos, cada vez mais, formar público e sensibilizar as pessoas para olhar, consumir e valorizar a produção artística.
Reside Alegre
Onde: Rua Alberto Torres, Cidade Baixa
Quando: neste sábado e domingo, das 17h30 às 22h
Ingressos: gratuitos, com retirada a partir das 16h30, na bilheteria da sede do Reside Alegre (Rua Alberto Torres, 27)
Programação completa: no site portoalegreemcena.com.br/reside-alegre