Coluna da Maga
Magali Moraes e a ciumeira nas roupas
Colunista escreve às segundas e sextas-feiras no Diário Gaúcho


Isso não se faz, estava pensando aqui. A preferência exagerada por certas roupas entre as tantas que temos. Enquanto algumas peças não saem do varal, sinal de uso frequente, outras coitadas não enxergam a luz da rua. Nem lembram mais como é a vida fora de um cabide. Desconhecem a liberdade de sair de uma pilha de roupas pra acompanhar um corpo em movimento. Foram compradas por impulso e sem necessidade? Um presente errado? Ou foi você que mudou de gosto?
Preferência, vício, adoração, aconchego, dependência, chame como quiser. Só isso explica darmos mais valor a um moletom já surrado do que a um vestido que custou três vezes mais. Se as roupas pudessem expressar seus sentimentos, elas viveriam enciumadas. E também ensimesmadas: “por que esse jeans aí vai passear de novo (terceira vez na semana), enquanto eu sou uma saia que não sai?” Melhor nem entrar nessa discussão, ela pode ter razão.
Convívio
Agora imagine uma camisa comprada há meses, mas continua com a etiqueta de preço. Nova, intacta, excluída do convívio social. Pelo menos na loja ela tinha a chance de conhecer pessoas, ver e ser vista. É claro que se sente enganada. Ao ser escolhida, esperava fazer parte de uma rotina agitada, festas, viagens. E segue esquecida no cabide. Solitária, não. Com ela estão outras na mesma situação. E se fossem doadas? Emprestadas? Trocadas? Vendidas em um brechó?
Meus uniformes de academia devem provocar ciumeira, rueiros que são. Pegam sol, vivem rodopiando dentro da lava-roupas, mal secam e já saem de novo. Como eu trabalho em casa, onde manda o conforto (e obedeço), os looks mais arrumadinhos ficam confinados no armário. É outra fase da vida, não posso agradar a todos. O que posso fazer é uma arrumação, mudar tudo de lugar pra dar uma animada. Sem criar expectativas, sem cenas de ciúmes.