Diálogos de Vorcaro
STF, eleições e Caso Master: como as revelações sobre Moraes podem impactar o cenário político no país
Aprofundamento do escândalo ameaça travar pautas no Congresso, impulsionar candidaturas outsiders e ampliar a crise na Suprema Corte


Ainda sob a turbulência das revelações envolvendo o banqueiro preso Daniel Vorcaro e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes — detalhadas em relatório da Polícia Federal —, o meio político se questiona sobre o impacto do caso em três frentes: a campanha eleitoral em curso, a credibilidade da Suprema Corte e o futuro do próprio processo do Caso Master.
Provocada pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master, a Procuradoria-Geral da República (PGR) sugeriu a nulidade do relatório sobre Moraes. Porém, o relatório da PF também aponta proximidade entre Vorcaro e o atual procurador-geral da República, Paulo Gonet.
— A questão Vorcaro se tornou o fator imponderável desta eleição — resume o cientista político Carlos Borenstein.
Efeitos na disputa do Senado e a pauta do impeachment
Segundo Borenstein, os desdobramentos do caso na disputa eleitoral dependem do que ainda surgirá a respeito de Moraes e de outras tantas figuras da República, inclusive o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), que recorreu ao banqueiro para arrecadar fundos para a cinebiografia do pai.
Contudo, a campanha que se incendeia desde já é a do Senado, que renovará dois terços de suas vagas em 4 de outubro. O impeachment de Moraes já é pauta de candidatos bolsonaristas, que defendem a destituição do ministro sob a alegação de perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado em setembro do ano passado.
Quanto à possibilidade de Moraes enfrentar um processo de impeachment ainda neste ano, a abertura do expediente dependeria de uma decisão monocrática do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Conforme veículos de imprensa de Brasília, Alcolumbre descarta a ideia antes que qualquer medida sobre o ministro seja tomada pelo próprio plenário do STF.
Risco de paralisia legislativa e impacto no governo
Entretanto, além de elevar a pressão sobre o presidente do Senado, o desvio do foco do Congresso para o ministro pode paralisar outros projetos de forte impacto eleitoral. Entre os principais estão a PEC da Segurança Pública e, de forma ainda mais decisiva, o fim da escala de trabalho 6x1.
Se essas pautas travarem, pode haver impacto sobre a candidatura de Lula à reeleição, que aposta na aprovação das propostas para obter um salto final de popularidade que poderia definir o pleito a seu favor. Borenstein, todavia, considera pouco provável que o acordo para votar o fim da jornada 6x1 nas próximas semanas tenha sido comprometido pelos fatos recentes.
— Não podemos desprezar que o fim da 6x1 é uma pauta popular também para os senadores, até porque boa parte deles também concorre à reeleição — aponta.
O desgaste da classe política e a força aos outsiders
Outro desdobramento eleitoral provável é que o desgaste do Caso Master, por atingir políticos e autoridades de diferentes espectros, termine beneficiando uma candidatura outsider — isso se já não estiver beneficiando. Borenstein destaca o crescimento de Augusto Cury (Avante), que alcançou o terceiro lugar, com 11% das intenções de voto, em duas pesquisas recentes.
Mesmo dispondo de poucos segundos na propaganda eleitoral, sua inserção na TV é emblemática. Atrás de uma cadeira vazia, um telão exibe ruídos, notícias sobre escândalos de corrupção e imagens de episódios traumáticos, como os atos de 8 de Janeiro. Cury surge em cena, senta-se na cadeira e questiona:
“É isso que vocês querem? Mais quatro anos disso? Ou a gente para de gritar, senta, se escuta e cura este país?”
— Ainda é uma incógnita se Cury vai ganhar tração, mas vale ficar atento à pesquisa Quaest que sai nesta quarta-feira (2), que testará cenários de segundo turno com o nome dele. Mesmo que ele não cresça mais, a simples existência de uma terceira via forte pode ser decisiva para levar a disputa ao segundo turno — analisa Borenstein.
Crise de imagem e divisões no STF
Além do impacto eleitoral, os desdobramentos da investigação da Polícia Federal podem submeter o Supremo Tribunal Federal a uma crise de imagem ainda maior do que a enfrentada em janeiro, quando Dias Toffoli deixou a relatoria do Caso Master.
Na ocasião, a PF entregou ao presidente da Corte, Edson Fachin, documentos que ligariam Toffoli a personagens do escândalo. Após uma reunião a portas fechadas, os ministros divulgaram uma carta em apoio ao colega, que, desde o afastamento, vem se declarando impedido em decisões sobre o processo.
O impacto no futuro da Corte é incerto. Um desdobramento possível é dar impulso ao código de ética da Corte, ideia do atual presidente, Fachin, que terá a relatoria da ministra Carmen Lúcia, mas que enfrenta a resistência de parte dos ministros e pouco avançou desde que Fachin assumiu o mandato, há quase um ano. Outro, mais provável, é ampliar a cisão entre os membros da Corte.

Desmembramento e os próximos passos
Atualmente sob a relatoria de André Mendonça, o processo teve o sigilo retirado em relação às menções a Moraes. Assim, foi tornada pública uma troca de mensagens na qual o banqueiro perguntava ao ministro se deveria sair do país às vésperas de ser preso — a resposta de Moraes não foi recuperada pela perícia.
Mendonça determinou o desmembramento das apurações referentes a Moraes para um processo autônomo, atribuindo ao plenário da Corte futuras decisões sobre o colega. As investigações sobre Vorcaro — que negocia um acordo de delação premiada — permanecem sob sua responsabilidade.