Operação Leite Compen$ado
Fraudador confesso detalha adulteração do leite
"Quando falaram dos danos à saúde, caiu a ficha", afirma o transportador Antenor Pedro Signor
Depois de fazer o acordo de delação premiada e confessar sua participação no esquema de adulteração de leite, o transportador Antenor Pedro Signor, 40 anos, mostrou-se disposto a conversar também com a reportagem de ZH na sala de espera da sede do Ministério Público em Sarandi. Sem demonstrar abatimento, disse que se sentia envergonhado perante a comunidade e a família em decorrência do envolvimento. Contou que percebeu a gravidade do que havia feito quando o assunto começou a aparecer na imprensa, acompanhado de informações sobre o mal que os produtos adicionados ao leite faziam à saúde.
- Aí a ficha caiu, comecei a ficar em desespero - disse Antenor.
Na cadeia desde quarta-feira, o transportador afirmou ter passado por momentos de pânico. Ouviu recriminações de seu irmão Adelar, que também foi preso. Sentiu que os familiares não conseguiam olhá-lo como antes.
Começou a dar a entrevista calmo, mas foi ficando nervoso. Usou várias vezes a expressão "o mal que eu fiz", mas também "estou quebrado", no sentido financeiro. Veja os principais trechos da entrevista.
Zero Hora - Como o senhor entrou no sistema de fraude de leite?
Antenor Pedro Signor - No final do ano passado, eu rompi o contrato que eu tinha com Latvida e fiquei com uma dívida de R$ 135 mil. Enquanto eu negociava entrega de leite com outra empresa, fui procurado pelo Daniel (Villanova, veterinário representante da Confepar), que me fez uma oferta. No começo, não dei bola. Mas ele continuou insistindo, ligando quase que diariamente, até que aceitei.
ZH - Que oferta foi essa?
Antenor - Pelo pagamento de R$ 2,5 mil mensais, ele zeraria a quebra das minhas cargas.
ZH - O que é quebra de carga?
Antenor - Acontece quando falta leite para preencher a carga de um caminhão, ou tem uma carga que pode vir a ser recusada.
ZH - Como era feito o processo?
Antenor - A gente adicionava 300 gramas de ureia, misturados em 70 litros de água ao leite. Isso era feito para preencher a carga.
ZH - Só 70 litros?
Antenor - Setenta litros a menos, diariamente, significa um prejuízo de R$ 2 mil por caminhão, sendo que eu tenho cinco caminhões.
ZH - Por que o senhor aceitou a delação premiada?
Antenor - Porque o meu irmão (Adelar Roque Signor) está pagando pelo que não fez, e a minha família também.
ZH - O senhor sabia que adulterando leite prejudicaria a saúde da população?
Antenor - No início, a gente entra e não percebe, mas quando aconteceu a primeira batida e falaram dos danos à saúde, caiu a ficha.
ZH - E agora?
Antenor - Vou pagar pelo que fiz. Lamento muito. Peço desculpas para minha comunidade e para minha família. Foi um ato de desespero, eu tinha muitas dívidas. Entrei há três meses, mas tem gente que está há muito tempo nesse esquema, e ganha muito dinheiro.
ZH - A Confepar sabia?
Antenor - Não só sabia como incentivava. Sabia que minhas cargas tinham problema e, através do Daniel, eles me recrutaram.