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Presença feminina

Da produção do enredo ao reger da bateria: mulheres conquistam novos espaços no Carnaval de Porto Alegre

Vencendo preconceitos, o protagonismo delas cresce em funções antes apenas restritas aos homens

28/02/2025 - 10h01min

Atualizada em: 28/02/2025 - 10h01min


Gustavo Gossen
Gustavo Gossen
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Gustavo Gossen / Agência RBS
Mulheres assumem postos que no passado eram considerados exclusivamente masculinos, inclusive regendo a bateria.

Se você associa a figura da mulher no Carnaval apenas às rainhas, musas, e passistas, é preciso olhar com mais atenção. A presença feminina nestes postos segue enchendo as escolas de orgulho, mas também avançou para funções antes ocupadas somente por homens.

Em Porto Alegre, é possível vê-las dirigindo escolas, puxando o samba na avenida, regendo bateria, redigindo os enredos e onde mais elas quiserem. A reportagem de Zero Hora conversou com algumas delas.

O Carnaval de Porto Alegre 2025 ocorrerá nos dias 14 e 15 de março.

Mulheres na gestão

Jonathan Heckler / Agencia RBS
Kelly Ramos, presidente da União da Tinga.

Estar à frente de uma escola de samba já foi função restrita aos homens. Foi, assim mesmo, com o verbo no passado. Kelly Ramos é presidente da União da Tinga e, também, da União das Entidades Carnavalescas de Todos os Grupos e Abrangentes de Porto Alegre (Uecgapa).

Aos 45 anos, Kelly é a primeira mulher a ocupar o cargo na Uecgapa. Para ela, ter uma mulher à frente de uma das ligas que representam as escolas de samba significa um olhar, muitas vezes, diferenciado:

É o nosso olhar materno, femininode luta, de carinho. O olhar diferenciado que as mulheres têm. Boa parte vê isso com bons olhos e aceita bem, vê a gestão e o engajamento. As mulheres estão fazendo a diferença. É um grande papel que está sendo desenvolvido  explica.

Por outro lado, Kelly observa que ainda há situações em que o preconceito dá as caras:

Ainda há quem enxerga as mulheres apenas como peito e bunda, que não poderiam estar na gestão do Carnaval, no máximo como secretárias. Já vivi situações em que, mesmo eu estando com a razão, sequer quiseram me escutar por eu ser mulher. É uma barreira que a gente quebra todos os dias, e seguimos na luta para fazer o melhor.

Elas puxando o samba

Gustavo Gossen / Agência RBS
Karolina Konzen, cantora da Unidos de Vila Isabel.

Quando as escolas estiverem passando pelo Complexo Cultural do Porto Seco,  atente para as vozes que dão ritmo ao Carnaval. Os timbres femininos também embalam os sambas-enredo na avenida.

Basta olhar, por exemplo, o carro de som da Unidos de Vila Isabel, onde Karolina Konzen, 24 anos, é uma das que desfilam com microfone em punho. Conforme a cantora, vozes de mulheres trazem mais leveza ao desfile.

O próprio nome diz: é harmonia musical. Então, para ter harmonia, a gente precisa ter abertura de voz. E essa leveza só a mulher consegue trazer para o samba. Antigamente, eram só homens e com vozes muito potentes e graves observa.

Mesmo reconhecendo a resistência que ainda existe, Karolina prefere não se deixar esmorecer. Ela enfatiza que há várias escolas abertas a receber mulheres em carro de som e as notas dos jurados confirmam ser algo positivo e que "faz uma diferença gigantesca".

A gente enfrenta preconceito sim, mas, aos poucos, vamos conseguir mudar isso — diz a cantora, que segue no tom de quem revela um sonho: ter, um dia, um carro de som totalmente formado por timbres femininos:

— A gente tem mulheres com vozes potentes e que estão aqui para isso. O Carnaval fala tanto em diversidade que a gente consegue sonhar com isso completa.

De rainha à temista

Jonathan Heckler / Agencia RBS
Íris Neto, temista de enredo no Estado Maior da Restinga.

Mudar de função dentro das agremiações é até comum já que os apaixonados pelo samba têm suas vidas entrelaçadas com a história das escolas. Um exemplo desta virada na "carreira carnavalesca" ocorreu com Íris Neto.

Rainha do Carnaval de Porto Alegre nos anos 2020 e 2021, ela já tinha 11 anos de muito samba no pé e de concursos quando iniciou uma nova jornada. Agora Íris, aos 38 anos, faz samba com a caneta em punho: é temista de enredo no Estado Maior da Restinga.

Sempre tive esse flerte com o tema-enredo, de saber mais sobre o que cada escola vai contar — relata ela.

Neste ano, a escola levará para a avenida um enredo sobre São Jorge, padroeiro do Estado Maior da Restinga. Isso exigiu muito trabalho de Íris, junto do carnavalesco da escola, que é o criador das alegorias, das fantasias. 

— Pesquisamos sobre São Jorge e o sincretismo com Ogum. O meu trabalho é escrever todos os detalhes que a gente vai contar na avenida. Cabe a mim fazer a parte teórica da prática detalha a temista.

Uma das demandas de Íris é redigir um material, rico em explicações e aprofundamento, que será entregue aos jurados que vão avaliar o desfile e que precisam compreender as razões e significados de cada elemento apresentado.

A nova caminhada é cheia de desafios, mas ela garante que um de seus principais objetivos é compartilhar o aprendizado. E assim abrir caminho para as que virão no futuro:

Mostrar para outras mulheres que nós também somos capazes de ocupar espaços de direção, administrativos e intelectuais.

À frente da bateria

Gustavo Gossen / Agência RBS
Ana Luísa Braga (de branco), diretora de bateria da Unidos da Vila Mapa.

O que leva uma mulher a reger um grupo de ritmistas? Se estivermos falando da Ana Luísa Braga, diretora de bateria da Unidos da Vila Mapa, é o amor pela música e pela escola de samba da qual faz parte desde quando nasceu.

A minha história (com o Carnaval) começou na barriga da minha mãe, que desfila desde a fundação da Vila Mapa. Nossa família tem uma ala há mais de 15 anos e minha vó é uma das baianas  fundadoras. Então, por ser na escola do coração, é diferente, porque não é só trabalho, é amor, então a responsabilidade fica cem vezes maior conta a musicista de 19 anos.

O programa de educação musical chamado "Orquestra Villa-Lobos", criado na EMEF Heitor Villa-Lobos, na Vila Mapa, zona leste de Porto Alegre, apresentou Ana Luísa aos instrumentos. E o samba lhe abriu portas.

Aos sete anos, ela aprendeu a tocar flauta doce. Aos 15, foi a vez do violoncelo. Ingressou na bateria, chamada Os Implacáveis, em 2019, tocando chocalho.

O esforço e a  dedicação a levaram ao posto de diretora. Se, em 2023 recusou o primeiro convite para se tornar diretora do setor de chocalhos por não se sentir pronta o suficiente, no ano passado, com apoio interno da escola, ela aceitou:

Mas estava muito nervosa. Tive muito o incentivo do diretor Kléber Mença, senti que era a hora e deu certo — conta a instrumentista. Em 2025, a escola vai apresentar enredo sobre Maria Bonita e tem ensaiado muito para levar esse espetáculo ao Porto Seco. 

Assim, também pelas mãos de mulheres que fazem a diferença nas mais diversas frentes em suas agremiações, o Carnaval de Porto Alegre avança para mais um ano de desfiles. Na passarela ou fora dela, vestindo fantasia ou a camiseta da escola, onde e como elas estiverem, o toque feminino é uma contribuição valiosa.

Confira a primeira reportagem da série sobre o Carnaval de Porto Alegre

"Dá orgulho de ver": mão de obra das comunidades torna possíveis os desfiles das escolas de samba de Porto Alegre

Carnaval de Porto Alegre 2025

Na sexta-feira, 14 de março, desfilam pelo grupo Prata: Filhos de Maria, Protegidos da Princesa Isabel e Realeza. Pelo grupo Ouro, desfilam no local Fidalgos e Aristocratas, Acadêmicos de Gravataí, Copacabana, Imperadores do Samba e União da Vila do IAPI.

Camila Hermes / Agencia RBS
Tradicional Descida da Borges, realizada em 7 de fevereiro, marcou a largada para o Carnaval 2025.

No sábado, dia 15 de março, os desfiles do grupo Prata são: Academia de Samba Praiana, Unidos de Vila Mapa, Império da Zona Norte e União da Tinga. Pelo grupo Ouro, desfilam Império do Sol, Unidos de Vila Isabel, Estado Maior da Restinga, Bambas da Orgia e Imperatriz Dona Leopoldina.

Os ingressos para frisas e camarotes estão à venda na plataforma Sympla (com taxa de conveniência). Assim como nos anos anteriores, as arquibancadas terão entrada gratuita, por ordem de chegada.

Colaborou: Frederico Feijó


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