Noveleiros
Michele Vaz Pradella: "Obrigada por tudo, Maneco"
Colunista lamenta morte do autor, que nos deixou neste sábado, aos 92 anos


É impossível falar de novela sem citar Manoel Carlos. O querido Maneco, como era chamado, escreveu como ninguém cenas do cotidiano, dores e angústias femininas, sacrifícios maternos, ou simplesmente, passeios pelo Leblon.
A primeira novela que lembro de ter assistido por vontade própria — e não porque a TV já estava ligada para os adultos — foi Felicidade. As aflições da infância de Bia (Tatiane Goulart) se misturavam às minhas, tamanho envolvimento que tive com a história.

A cena que mais me impactou na vida também foi escrita por Maneco. Só de lembrar de Helena (Regina Duarte) trocando os bebês em Por Amor, sinto arrepio até a alma. Chorei com Camila (Carolina Dieckmann) em Laços de Família, odiei Dóris (Regiane Alves) em Mulheres Apaixonadas, sofri com Luciana (Alinne Moraes) em Viver a Vida... Devo muito do meu amor pela teledramaturgia a Manoel Carlos, um autor que fazia do simples um acontecimento, usava a ficção para fazer campanhas sociais e até mudar leis.
As cenas de Camila em Laços de Família fizeram aumentar o número de doações de medula no país. O drama de Flora (Carmen Silva) e Leopoldo (Oswaldo Louzada) em Mulheres Apaixonadas impulsionou a criação do Estatudo do Idoso. A violência sofrida por Raquel (Helena Ranaldi), na mesma novela, deu início às discussões que, anos depois, culminaram na Lei Maria da Penha. Ainda em Mulheres Apaixonadas, a morte de Fernanda (Vanessa Gerbelli), vítima de uma bala perdida, motivou a criação do Estatudo do Desarmamento. Em Viver a Vida, através da personagem Luciana, foram abordadas pela primeira vez na ficção questões sobre inclusão e acessibilidade, bem antes da criação do Estatudo da Pessoa com Deficiência. Foram tantos os temas que ultrapassaram as barreiras da ficção, colocando o público a refletir sobre polêmicas, dilemas e temas que raramente ganhavam espaço na telinha...
Dos diálogos no café da manhã aos barracos familiares, dos romances polêmicos às cenas de tirar o fôlego, Manoel Carlos nos acompanhou por anos, como se fosse um parente querido a quem sempre tínhamos prazer de receber em casa. A familiaridade era tanta que o autor virou simplesmente Maneco, mesmo sem nunca o termos conhecido pessoalmente.
A próxima vez que eu for ao Leblon, certamente vou lembrar de ti, Maneco. E certamente virá à minha cabeça alguma canção de Tom Jobim.