Estrelas da Periferia
A caminhada de Stif entre voz e coletivo
MC, beatmaker e produtor cultural, Stif transforma vivência em música
Matheus Ramos da Silva, mais conhecido como Stif, transformou a rima em ferramenta de sobrevivência. Há 15 anos, quando começou como MC, não era sobre carreira. Era sobre voz, sobre transformar o cotidiano em palavra.
Nascido em Viamão e criado em Porto Alegre, Stif carrega duas cidades que se atravessam. Foi na rua que aprendeu a ler o mundo. E foi na comunidade que entendeu o peso da coletividade: as contradições, os afetos, as escolhas difíceis que moldam quem vive à margem.
Aprender a criar os próprios beats, gravar, editar e dirigir tornou-se não apenas uma ampliação de competências, mas um gesto de autossuficiência diante das limitações impostas a artistas periféricos. Nesse processo, as diferentes funções que exerce não se dissociam, mas se articulam dentro de uma mesma matriz cultural, o hip hop.
– Com o tempo eu fui entendendo que depender dos outros me limitava e era mais difícil. Então eu comecei a produzir meus próprios beats, aprender a produção de forma independente. A produção cultural também vem desse mesmo lugar. De perceber que eu precisava construir espaços onde os meus pudessem entrar.
Sua música não pretende ser autobiográfica. Não é sobre si, é sobre representar um lugar:
– A minha música, a minha arte, ela carrega isso. Não é sobre contar a minha história. É sobre representar um lugar e um sentimento que muita gente reconhece, mas às vezes não tem a possibilidade ou não consegue expressar.
Esse gesto encontra síntese em Limiar, seu trabalho mais recente. O projeto nasceu de dúvidas, pressões e silêncios, mas também de insistência. Continuar, mesmo sem respostas claras, é parte da construção.
– Tudo isso nasceu da necessidade de continuar mesmo sem ter essas respostas. Ao longo da caminhada de 15 anos, eu consigo ver do ponto que eu parti até o ponto que eu cheguei. Me da certeza de que eu trilhei o caminho certo. As músicas não foram pensadas como conceito. Elas vieram de vivência e depois eu percebi que elas falavam desse ponto de transição.
Mas talvez o ponto central da trajetória de Stif não esteja apenas na produção artística, e sim naquilo que ela gera ao redor. A criação de espaços. A abertura de caminhos.
Fortalecendo a cena
Stif desenvolve iniciativas voltadas à ampliação do acesso à cultura. A criação do estúdio Caixa de Utopia, na Vila Cruzeiro, exemplifica esse movimento. Inicialmente concebido como espaço para produção própria e de seu círculo próximo, o estúdio passa a funcionar como plataforma de apoio a outros artistas locais.
Sua atuação também se estende a projetos como o Instituto Sócio-Educativo Afro Laboratório e a Casa de Hip Hop Galpão Cultural, além da participação na Nação Hip Hop Brasil. Em todos esses espaços, a coletividade se reafirma como eixo central.
Ao refletir sobre sua trajetória e sobre os caminhos possíveis para novos artistas, Stif enfatiza a combinação entre autonomia e colaboração. Se, por um lado, é fundamental compreender diferentes etapas do processo produtivo, por outro, o fortalecimento de vínculos coletivos aparece como condição indispensável para a consolidação de uma cena cultural mais ampla e inclusiva.
– Eu acredito na autonomia de aprender a produzir e entender o mínimo de cada área. Tu não precisa fazer tudo, todo dia, mas sempre que tu fizer um pouquinho de cada coisa, se dedicar 100%. Ao mesmo tempo que tem que ter essa autonomia, tem que entender também que ninguém cresce sozinho. Então construir redes de apoio, fortalecer os amigos que estão do teu lado, isso faz a diferença - reflete.
Aqui, o espaço é todo seu!
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/// Entre em contato com a artista pelo Instagram: @o_stif
*Com orientação e supervisão do jornalista Alexandre Rodrigues