Entrevista
Evelyn Castro fala sobre os desafios de ser uma mulher na comédia: "O humor é muito difícil de se fazer"
Atriz está se despedindo de Zenaide, sua personagem em "Êta Mundo Melhor!"


Evelyn Castro é uma das melhores comediantes da atualidade, enfrenta os preconceitos de ser uma mulher no humor, e busca seu espaço, como ela mesmo diz, quebrando regras. Como Zenaide em Êta Mundo Melhor!, novela das seis que termina na próxima semana, mostra a redenção de sua personagem, que no começo da trama era cúmplice da vilã Zulma (Heloísa Perissé). Se na trama de Walcyr Carrasco e Mauro Wilson, Evelyn contracenou com um burro, agora ela se prepara para interpretar um burro no musical Shrek. Romper paradigmas e mostrar facetas inusitadas é com ela mesma! Confira o bate-papo com a atriz.
Sua primeira participação na TV foi como cantora no programa Fama (2005). Que papel a música exerce na sua vida hoje em dia?
Hoje em dia, a música faz parte da minha arte, parte da forma de eu me expressar artisticamente. Eu gostaria de estar cantando mais, mas ela (a música) faz parte do que eu sou enquanto artista. É a minha forma de expressar.
Você ficou conhecida como humorista a partir de suas participações no Porta dos Fundos. Conta um pouco como isso começou.
Tudo começou quando eu fui fazer um longa, em 2015, chamado Apaixonados, e o Fábio Porchat viu o trailer desse filme, e ele achou que eu tinha a ver com o canal Porta dos Fundos. O Gregório (Duvivier) também já tinha tentado entrar em contato comigo através de amigos em comum. Então eu recebi esse convite, para começar a fazer as esquetes, se eu tinha interesse em fazer. Imagina! Eu tinha muito interesse em fazer! Comecei com um teste, e depois de seis meses, fui contratada como elenco fixo.
Ser uma mulher que faz comédia não é fácil e há muitos preconceitos envolvidos. Como você lida com isso e de que forma tenta se manter nesse ramo?
É uma ótima pergunta essa, porque ser mulher fazendo comédia, ser mulher na sociedade ainda é muito complicado, de uma forma geral. Mas como rir já é um ato de resistência, eu lido da seguinte forma: eu procuro burlar o sistema aceitando fazer personagens. Eu estou sempre disposta a ser o clown (palhaço), a fazer a esquisita, a estar disponível. E aí eu consigo fugir de estereótipos, de etarismos, de certos lugares que tentam nos cobrar absurdamente, enquanto mulheres, sendo atrizes, porque eu me considero uma atriz que faz o humor. Então, é na quebra dessa engrenagem que eu tento burlar de alguma forma, tentando fugir desses estereótipos. A gente tenta, mas nem sempre a gente consegue, são muitas questões.
Em Êta Mundo Melhor! você faz uma dobradinha impagável com Heloísa Perissé. Como têm sido esses meses ao lado dela, que é uma das comediantes mais consagradas do país?
Foi um intensivão, eu falo que foi o MBA que eu ganhei de Deus na vida, estar ao lado dela, podendo jogar com ela. É uma das pessoas a que eu mais assisti e admiro, e admiro mais ainda pela pessoa que ela é. Eu só ganhei com essa troca, eu observei muito, e ela é uma excelente atriz, ela não só faz humor, tem muitas camadas. E eu brinco com isso também, eu acho que nós podemos fazer personagens com humor que tenham muitas camadas.

Zenaide começou a novela ajudando a “patroinha” em várias armações, mas sempre pareceu mais humana do que Zulma. Podemos esperar um final feliz para sua personagem?
Sim, ela sempre esteve nesse lugar tóxico de manipulação, de estar ali ao lado da patroinha dela. Então, eu acredito sim, eu acho que vai ser uma dicotomia. Eu posso falar para vocês que Zenaide vai sofrer uma ruptura. E posso dizer que sim, no final das contas, é feliz.
Sua personagem na novela tem um pé no humor, o que de certa forma deixou você dentro da sua zona de conforto. Gostaria de fazer algo bem diferente em futuros trabalhos, mais dramático, por exemplo?
Eu não acho que isso é lugar de conforto. Eu acho que, pelo menos pra mim, é um incômodo tremendo no sentido da gente sempre buscar algo diferente pra trazer nessa pitada de humor que é a Zenaide. Então, em nenhum momento eu me senti num lugar confortável, ainda mais estando com a Heloísa Perissé. Eu procurei trazer o que eu posso trazer de diferente pra esse humor aqui. O humor é muito difícil de se fazer. Não é fácil. Existe uma música que é cantada, e a Zenaide teve a sua própria música, a sua própria melodia. Eu tive muitas oportunidades de momentos dramáticos que eu nunca havia vivido. Então, acho que a Zenaide é um presente por isso, de mostrar que a gente pode fazer personagens com humor e com camadas. Personagens que vivem o cotidiano. Mas, sim, tenho vontade de fazer algo mais dramático, tenho vontade de fazer comédias “dramédias”.
Já tem trabalhos programados após o fim da novela? Pode adiantar alguma coisa?
Tenho sim, eu estreio agora dia 15 de abril no Teatro Renault, em São Paulo, o musical Shrek. Eu vou ser o burro do Shrek, o burro falante, e isso pra mim, acho que responde até a pergunta lá em cima, sobre ser uma mulher que faz comédia e de que forma eu lido com isso. Dessa forma, quebrando tradições, quebrando regras, porque sempre foi um homem que fez o burro, quem fez o original foi o Eddie Murphy, com muita honra, eu amo o Eddie Murphy, cresci vendo ele. Na Broadway, sempre foi um homem (quem fez o burro), e o que está acontecendo agora é um marco pra mim e pra minha carreira. Então, estou muito feliz com isso.
