Abrindo caminhos
"Já passou da hora de termos liberdade para sermos quem quisermos", diz Isadora Cruz, protagonista de "Coração Acelerado"
Paraibana fala sobre a preparação para viver Agrado, a conexão com a música e os desafios de construir suas protagonistas na dramaturgia


Em um país tão plural, nem sempre a dramaturgia refletiu toda a diversidade brasileira na tela, concentrando boa parte de suas narrativas no eixo Rio-São Paulo. Esse cenário, no entanto, vem mudando. O sucesso de O Agente Secreto, ambientado em Recife, evidencia o crescente espaço do Nordeste nas produções. Com isso, artistas baianos, pernambucanos, cearenses e paraibanos passam a ocupar mais espaço no audiovisual, levando consigo seus sotaques e vivências.
Aos 28 anos, a paraibana Isadora Cruz se consolida como um dos principais nomes de sua geração nas novelas. Em apenas quatro anos, emendou três protagonistas – da romântica Candoca, em Mar do Sertão (2022), à destemida Rosa, em Guerreiros do Sol (2025), até a sonhadora Agrado, em Coração Acelerado. No currículo, a atriz ainda soma uma coadjuvante que roubou a cena: Roxelle, de Volta por Cima (2024).
Em alguns desses trabalhos, emprestou o próprio sotaque às personagens, mas também impressionou ao imprimir formas de falar bem diferentes da sua. Isadora valoriza suas raízes nordestinas, mas também celebra a oportunidade de explorar a prosódia de outras regiões do país:
— É uma honra viver um momento em que posso interpretar qualquer grande personagem do nosso país e contribuir para uma narrativa mais ampla, diversa e verdadeira sobre o Brasil.
Se, na ficção, suas personagens enfrentam separações, traições e dilemas amorosos, na vida real o coração de Isadora vai muito bem – já que seu namorado vale, literalmente, ouro. Ela namora Lucas Pinheiro Braathen, atleta que conquistou uma medalha inédita para o Brasil nos Jogos Olímpicos de Inverno, na modalidade slalom gigante – prova que consiste em descer uma montanha nevada passando por uma série de obstáculos.
Em entrevista ao Diário Gaúcho, Isadora Cruz fala sobre a carreira, os desafios impostos por cada personagem, relembra os sonhos de menina que se tornaram realidade e revela o que gosta de fazer quando está longe dos estúdios da Globo.
Confira entrevista com Isadora Cruz
Em quatro anos, você está vivendo sua terceira protagonista. Sente um peso maior ao aceitar esse tipo de personagem?
Sinto que interpretar protagonistas tão potentes e importantes em suas trajetórias é, acima de tudo, uma grande responsabilidade e a realização de um sonho. Mas não enxergo isso como um peso, e sim como um aprendizado. Cada uma, à sua maneira, me transforma e me nutre como artista e também como mulher.
Mergulhar no universo de cada uma delas é sempre uma descoberta: aprender com suas histórias e, ao mesmo tempo, emprestar um pouco da minha própria vivência e essência para dar vida a cada uma delas.
Você é paraibana, mas interpretou muito bem uma carioca em Volta por Cima e agora encarna uma goiana em Coração Acelerado. Tem facilidade com sotaques? Como é a preparação?
É um desafio muito grande, sendo nordestina e paraibana, interpretar mulheres do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste. Mas também vejo isso como um grande avanço do nosso tempo e como uma prova de que nós, atrizes e artistas nordestinos, podemos dar vida aos mais diversos personagens do nosso Brasil.
Durante muito tempo, existiu uma divisão marcada por fronteiras e por visões equivocadas sobre quem somos. Mas, com o passar dos anos, por meio de muita luta e trabalho, abrimos caminhos para que nossas vozes alcançassem outros lugares, para além dessas limitações.
É você quem canta nas cenas de Agrado em Coração Acelerado? Como se preparou vocalmente para essa personagem?
A música sempre esteve muito presente na minha vida. Meu irmão toca bateria e canta em uma banda de rock desde muito jovem, minha mãe canta, e meus pais sempre foram apaixonados por música. Meu gosto musical foi muito influenciado por eles.
No momento em que recebi o convite para viver a Agrado, entendi que precisaria dar voz a essa cantora. Me propus a fazer aulas de canto, fono e violão, e a me aprimorar ao máximo. E, na verdade, isso é uma das coisas mais interessantes e gratificantes da minha profissão: poder transformar desafios em estudo e em mergulhos artísticos.
Eu canto a base das músicas com a minha voz, que depois passa por um processo de pós-produção para ser aprimorada e chegar ao resultado final de Agrado. Afinal, sou uma atriz que está aprendendo a cantar. Para mim, foi importante fazer parte de todos os processos para que Agrado pudesse existir com a maior verdade possível.
Você e a equipe da novela mergulharam fundo no universo sertanejo. O gênero já fazia parte da sua vida antes de se preparar para viver Agrado?
Escutava muito sertanejo na minha adolescência, em João Pessoa, o que mostra o quanto é um gênero universal. Apesar de ouvirmos muito forró na Paraíba, o sertanejo também tem uma força enorme. É uma expressão musical que fala de sentimentos profundos e verdadeiros de forma crua, sem amarras.
O sertanejo conecta o coletivo ao abordar temas universais, como o amor, a paixão, a saudade, a melancolia e as decepções amorosas. E agora, por meio de Agrado, estou tendo a oportunidade de mergulhar ainda mais nesse mundo.
Tenho amado ouvir e me inspirar nas músicas e nas letras de grandes potências do sertanejo, como Marília Mendonça (1995–2021), de quem sempre fui fã, além de tantos outros artistas, especialmente as mulheres que revolucionaram esse movimento.

Como tem sido a troca com Elisa Lucinda e Letícia Spiller? Deve ser um presente contar com a experiência dessa dupla.
Tem sido um presente e uma enorme honra contracenar e conhecer de perto duas mulheres que eu já admirava profundamente. São grandes atrizes de suas gerações, fortes, inteligentes, poéticas, mães dedicadas e que me inspiram a ser cada dia mais autêntica e mais engajada em tudo o que me proponho a fazer.
Trocamos poemas, livros, filmes, histórias de vida e muitas gargalhadas. Me sinto privilegiada por presenciar a potência de mulheres unidas contando histórias sobre mulheres e unindo forças e pensamentos para construir uma realidade que respeite e dê cada vez mais voz à liberdade feminina. É um aprendizado constante.
Suas personagens mais recentes têm em comum serem mulheres fortes e afrontosas. Você também é assim na vida real? E, entre as mulheres que conhece, há alguma que te inspira na vida e na arte?
As mulheres guerreiras que tenho interpretado são personagens que sabem exatamente o que querem. Eu nem as chamaria de afrontosas, essa é uma visão machista sobre mulheres livres, que não têm medo de ser quem são e de se expressar de forma autêntica no mundo.
São mulheres que reconhecem o seu lugar na sociedade, que lutam por ele com consciência e coragem, que entendem suas diferenças e seguem firmes na busca pelos seus sonhos. Olham para o futuro, para o horizonte, e aprendem a se priorizar sem pedir desculpas por isso. Já passou da hora de nós, mulheres, termos essa voz e a liberdade de sermos exatamente quem quisermos ser.
Como inspiração na arte, destaco Elisa Lucinda e Zezé Motta.
Agrado tem o sonho de ser cantora desde pequena. Quando era criança, você já imaginava chegar aonde chegou?
Sempre fui apaixonada por arte na infância e admirava os artistas por serem ferramentas de pensamento em prol da sociedade. Quando morava em João Pessoa, viver de arte era uma ideia onírica, difícil de concretizar. Eu não conhecia ninguém do meio, então tudo parecia muito distante.
Por isso, tenho muito orgulho da minha trajetória e do que venho construindo com muito trabalho, consciência, consistência e verdade. Ainda assim, sinto que estou apenas no começo de uma longa jornada. Todos os dias procuro evoluir, aprender e me tornar uma pessoa melhor.
Olho para o futuro com esperança, com mais empatia e em busca de novas conquistas, porque reconhecer e valorizar a própria caminhada também faz parte da realização dos nossos sonhos.
É urgente formar homens que respeitem as mulheres e mulheres que também se respeitem entre si e cultivem o amor-próprio. Precisamos construir uma sociedade baseada na empatia, em que as pessoas possam e cuidar umas das outras, independentemente do sexo.
ISADORA CRUZ
Atriz
Em Volta por Cima, sua personagem foi vítima de um relacionamento abusivo, algo que, infelizmente, ainda ocorre com muitas mulheres. Como foi o retorno do público na época? Você recebeu muitos relatos sobre esse tema?
Recebi muito apoio de mulheres que já passaram por situações semelhantes. Muitas me agradeceram por abordar esse assunto, o que mostra como é fundamental falarmos sobre essas questões nos dias de hoje.
Precisamos enfrentar e estancar, de uma vez por todas, o assédio, a misoginia e o feminicídio. É urgente formar homens que respeitem as mulheres e mulheres que também se respeitem entre si e cultivem o amor-próprio. Precisamos construir uma sociedade baseada na empatia, em que as pessoas possam se reconhecer e cuidar umas das outras, independentemente do sexo.
A carreira de atriz é complicada e, até surgirem as primeiras oportunidades, há muitos “nãos” pelo caminho. Você tinha um plano B caso nada desse certo?
Aos 17 anos, fiz meu primeiro curso de teatro e me apaixonei imediatamente. Foi um sentimento que me arrebatou e me atravessa até hoje. A partir disso, trabalhei muito para tornar esse sonho realidade e fazer de tudo para não precisar de um plano B.
Tive a sorte de me encontrar como artista e de poder exercer o meu trabalho de forma plena e verdadeira. Luto para construir e consolidar uma carreira que ainda está em constante desenvolvimento. Para mim, o mais importante sempre foi permanecer próxima daquilo que me faz feliz: me aprofundar na experiência humana e me expressar de forma autêntica por meio da arte.
Com a correria das gravações, deve sobrar pouco tempo para outras atividades. Mas, quando surge uma brecha, o que você gosta de fazer no tempo livre?
Gosto muito de ir ao mar, de estar na praia, sob o sol. Sou uma pessoa solar, que precisa da energia da natureza, de desbravá-la e de se conectar com ela. Adoro tomar banho de cachoeira, ir, aos domingos, a um rancho para andar a cavalo, assistir a uma peça e visitar exposições de arte.
Entre uma cena e outra, vou ao jardim dos estúdios e coloco os pés descalços na terra, isso me reenergiza bastante. Também valorizo estar perto dos meus amigos e da minha família e me abastecer das coisas simples do cotidiano.
Manter minhas leituras em dia também é uma prioridade. A literatura, o teatro, os filmes, a música e esses momentos de pausa são fundamentais para que possa sempre voltar renovada ao meu ofício, que também é a minha grande alegria.