Estrelas da Periferia
Literatura como fé e resistência
Aos 70 anos, Maiza Lemos transforma experiências de racismo, religiosidade e vida comunitária em poesia e memória.

A escrita chegou cedo à vida de Maiza Lemos, muito antes de qualquer livro publicado. Ali pelos 12 anos, ainda adolescente, ela já colocava no papel sentimentos que não encontravam espaço no cotidiano. Era uma escrita íntima, quase secreta, usada para “se consolar” e “curar alguma coisa”, como ela mesma define. Décadas depois, esse gesto se transformaria em uma trajetória literária que reúne 13 obras e uma presença ativa na cultura negra.
Hoje, aos 70 anos, a escritora, artesã e ativista cultural segue produzindo textos guiados por um impulso que descreve como espiritual.
- Tem que vir de dentro, entende? Eu escrevo por intuição. Às vezes estou no ônibus, lavando roupa ou dormindo, e aquilo vem na cabeça como se alguém estivesse soprando - conta.
Nascida em Pelotas, Maiza mudava-se muito quando criança por causa da profissão do pai, militar, e só retornou a Porto Alegre aos 23 anos. A vida adulta trouxe desafios comuns a muitas mulheres negras brasileiras: trabalho duro, maternidade e poucos espaços para cultivar sonhos. Mãe de seis filhos, ela acabou deixando a escrita em segundo plano durante muitos anos para se dedicar à família.
- Eu casei, tive seis filhos, quase que um atrás do outro, e morava na periferia, e aí tu tem que trabalhar, tem que trabalhar de dia para comer de noite, e nesse livro eu conto muito sobre o que eu sofri de preconceito, de racismo.
Da escrita íntima aos livros
A virada começou no ano 2000, quando descobriu uma oficina de texto ao levar os filhos para a escola. Ali passou a participar de coletâneas literárias e teve seus primeiros livros publicados.
Depois de um novo intervalo, a literatura retornou com força em 2017, quando Maiza acompanhou a neta em um projeto de educação antirracista nas escolas. O contato com o movimento reacendeu a escrita e ampliou sua atuação cultural. Desde então, ela passou a participar de novas coletâneas, publicar livros e integrar iniciativas voltadas à valorização da identidade negra, como o projeto Afroativos: Solte o Cabelo, Prenda o Preconceito, originado durante uma aula na Escola Saint Hilaire, na Lomba do Pinheiro.
Negritude, comunidade e economia solidária
Além da literatura e do projeto Afroativos, Maiza também atua em outros projetos comunitários ligados à valorização da cultura negra. Ela integra iniciativas de educação antirracista e ajudou a fundar o Fespop, Fórum Estadual de Mulheres Negras da Economia Popular e Solidária, que hoje reúne mais de 70 participantes no Rio Grande do Sul.
A proposta do grupo é construir alternativas coletivas de geração de renda e valorização cultural. Artesanato, literatura e produção artística se encontram nesse espaço, inspirado nas tradições afro-brasileiras e na ideia de colaboração.
É na sua loja física, localizada na Rua Fernando Machado, 480, que a escritora irá lançar sua nova obra A Pipoca Assustada, neste sábado, às 16h.
Uma avó que não para
Se existe um estereótipo de avó sentada em uma cadeira de balanço, Maiza garante que não se reconhece nele. Ela prefere se definir como uma “vó ativa”, sempre envolvida em projetos culturais, encontros comunitários e eventos literários.
Para ela, essa participação da família representa algo maior: a possibilidade de abrir caminhos que não teve quando era jovem.
Ao participar de palestras e encontros com pessoas idosas, Maiza percebe que sua história tem um efeito especial. Muitos se aproximam ao perceber que é possível começar, ou recomeçar, projetos de vida em qualquer idade.
É por isso que ela insiste em repetir um conselho simples, mas central em sua trajetória: não desistir dos sonhos.
- Quando vou em palestras, ou vou em alguns lugares onde tem idosos como eu, ou até mais velhos, isso me toca, me toca o olhar deles. É uma sensação de que eu levo esperança. Eu sempre digo, não desistir do sonho. Seja o tempo que for, se ele for para ti, se é o teu sonho, ele vai acontecer - afirma.
Aqui, o espaço é todo seu!
Para participar da seção, mande um histórico da sua banda, dupla ou do seu trabalho solo, músicas, vídeos e telefone de contato para michele.pradella@diariogaucho.com.br
Entre em contato com a artista pelo Instagram: @maiza.lemos83
*Com supervisão e orientação de Alexandre Rodrigues