Entretenimento



De cena local a fenômeno nacional

"As pessoas querem ouvir as nossas músicas": como o funk gaúcho rompeu barreiras e conquistou as paradas do Brasil

Entre as 20 músicas mais ouvidas no país em fevereiro de 2026, sete têm participação de MC Meno K, segundo a entidade Pro-Música Brasil

08/04/2026 - 14h15min


Camila Bengo
Camila Bengo
Enviar E-mail

O nome de Kauan Soares pode soar pouco familiar, mas o vulgo do porto-alegrense de 19 anos dificilmente passa despercebido: MC Meno K. Nascido e criado na Cohab Rubem Berta, na Zona Norte de Porto Alegre, o jovem figura hoje entre os artistas de maior projeção do país.

Das 20 músicas mais ouvidas no Brasil em janeiro de 2026, segundo ranking da entidade Pró-Música Brasil – que representa as principais gravadoras e produtoras fonográficas do país –, cinco levam o nome do funkeiro gaúcho. 

A predominância cresceu no mês seguinte: das 20 faixas mais executadas em fevereiro, sete têm a participação de Meno K, que passou por produtoras de destaque no gênero até assinar contrato com a Warner Music.

Os feitos, inéditos para um funkeiro do Rio Grande do Sul, colocaram Porto Alegre no mapa do funk em escala nacional. Mas o que há por trás do topo? Para além de uma conquista individual, a ascensão de Meno K é fruto de um movimento que aprendeu a sobreviver no Estado, atravessando preconceitos, barreiras regionais e ciclos de maior ou menor visibilidade.

Funk precisou aprender a existir no Sul

Para entender a importância do momento atual, celebrado por funkeiros gaúchos de diferentes gerações, é preciso voltar à gênese do funk no Rio Grande do Sul. Um dos nomes que ajudam a contar essa história é MC Jean Paul, que começou a trabalhar com o gênero ainda na década de 1990 – primeiro como DJ e, depois, como MC.

O artista, que passou a ser conhecido pela alcunha de "presidente do funk gaúcho" em razão de seu pioneirismo, lembra que os primeiros anos do movimento no Estado foram marcados por forte resistência cultural.

André Ávila/Agencia RBS
Leo Picadilha, DJ Mart, MC Jean Paul, MC Dino, Waltin (E para D) e MC Da Nasa: a cena do funk gaúcho.

A linguagem do estilo que começou a fazer sucesso nas comunidades do Rio de Janeiro, carregada de gírias e expressões que remetiam a certa liberdade sexual, não soava bem aos ouvidos conservadores da sociedade gaúcha da época.

Para ser aceito em terras rio-grandenses, o funk precisou encontrar uma forma própria de existir, como relata Jean Paul:

— A linguagem do funk carioca era difícil de ser compreendida pelos gaúchos. Coisas que eram naturais para eles, aqui não soavam legal, porque as pessoas eram mais conservadoras. Precisei mostrar que existiam muitas possibilidades dentro do movimento: comecei a falar de amor, de conquista, de energia.

Mesmo assim, o preconceito persistia. Jean Paul diz ter recebido muitos "nãos" apenas por cantar funk e lembra que, no início dos anos 2000, era comum que casas noturnas se recusassem a tocar músicas do gênero, visto como um produto cultural "menor".

— Fomos conseguindo quebrar essas barreiras com o tempo. A batida do funk é muito envolvente, faz você querer dançar, e isso acabou conquistando as pessoas — conta MC Jean Paul.

O avanço também se deu na ocupação de espaços simbólicos. Nas grandes festas populares da época, como os tradicionais aniversários da Rádio Farroupilha e do jornal Diário Gaúcho, o artista conquistou seu posto de ídolo romântico local (vide o impressionante número de mais de 200 fãs com tatuagens dedicadas ao MC).

Em 2007, Jean Paul se tornou o primeiro artista de funk a se apresentar no Theatro São Pedro, o palco mais nobre da Capital. Foi um marco para o gênero, que nasceu marginalizado, mas encontrou formas de se posicionar no centro.

— Hoje em dia, é claro que ainda existe algum preconceito, mas o funk está em todos os lugares e em todas as classes sociais. Se uma festa não toca funk, não é uma festa completa. Pode ser uma festa de sertanejo, de eletrônica, de qualquer gênero; em algum momento, tem que ter funk — avalia o "presidente".

Primeiros voos para fora do Estado

Os passos dados por Jean Paul prepararam o terreno para que outras vertentes também encontrassem espaço no Rio Grande do Sul nos anos seguintes. É o caso dos grupos de funk, conhecidos como bondes, do funk consciente e do funk ostentação – este último responsável por ampliar ainda mais o alcance do estilo.

Quem transitou por todas essas vertentes foi MC Tchesko, nome ligado à primeira geração do funk gaúcho, assim como Jean Paul. Criado nas ruas da Vila Erechim, na Zona Sul da Capital, o artista iniciou sua trajetória na cena em meados de 2006, junto ao bonde Arrastão do Funk. Depois, já em carreira solo, tornou-se uma voz do funk consciente com canções como Dia de Glória, que chegou a integrar um álbum do DJ Marlboro, um dos precursores do funk carioca.

Pode ser uma festa de sertanejo, de eletrônica, de qualquer gênero; em algum momento, tem que ter funk.

MC JEAN PAUL

Funkeiro

Apesar da primeira incursão pelo universo musical do Sudeste, com versos sobre a desigualdade social que atinge as periferias, foi com o funk ostentação – pautado na celebração de conquistas financeiras – que o gaúcho realmente rompeu a barreira regional. Com a canção É Bem Assim Que a Gente Tá, de 2013, Tchesko chegou ao topo das paradas musicais e se mudou para a Baixada Santista, em São Paulo.

Era o início da caminhada do movimento para além das divisas do Estado, mas a projeção daquele período – que acabou respingando em diversos gaúchos – é diferente do momento inédito que o funk do Rio Grande do Sul vive agora. Quem garante é MC Dino, músico da Vila Maria da Conceição, na Zona Leste da Capital, que acompanhou as diferentes fases do funk gaúcho ao longo das últimas duas décadas.

— Agora, o nosso funk está realmente sendo aceito. Eu venho plantando expressões como "guri" nas minhas músicas desde o início, mas, lá atrás, se quiséssemos fazer sucesso, nós tínhamos que nos adaptar às gírias do Rio de Janeiro e de São Paulo. Hoje, até os artistas de lá estão usando as nossas expressões — avalia.

Virada a partir da internet

Para MC Dino, a maior aceitação está relacionada ao avanço das redes sociais. Antes, o caminho era muito mais longo até que as canções de artistas locais chegassem aos ouvidos de fora do Estado. E, quando alguém conseguia – como ele próprio, que gravou diversas músicas sob o selo da produtora carioca KondZilla –, a conquista não significava necessariamente projeção para a cena.

Faltavam formas de fazer com que a qualidade dos artistas locais fosse reconhecida em caráter coletivo, não apenas individual. Algo que se tornou possível com plataformas como o Instagram e o TikTok, que encurtaram a distância entre o funk gaúcho e o público de fora, despertando interesse pelo movimento rio-grandense.

Na prática, isso se traduz em mais conexões e oportunidades de trabalho para os funkeiros do Rio Grande do Sul, diz MC Dino:

— Artistas de fora estão procurando os gaúchos para parcerias, porque os holofotes estão voltados para o funk do Sul, as pessoas querem ouvir as nossas músicas. É uma demanda que vem do público. Antes, esses caras vinham fazer shows aqui e até colavam com a gente, mas não gravavam. Agora, o jogo virou para nós.

Cena se organiza para crescer

Parte desse processo passa também por articulações coletivas dentro da própria cena. Um exemplo é o portal Zero5Um, que nasceu com o intuito de organizar e demarcar a identidade do funk gaúcho.

Em videoclipes que seguem uma estética padronizada – todos gravados sobre uma laje, com a vista de Porto Alegre ao fundo –, o projeto apresenta medleys com o suprassumo das canções de artistas locais de diferentes gerações.

— Entendemos que o cenário precisava de um portal exclusivo. A cena estava fragmentada, sem uma identidade coletiva, algo que de cara remetesse ao funk gaúcho — comenta Leo Picadilha, MC que também experimentou projeção nacional em meados de 2014, com o hit Picadilha de Vilão, e agora está à frente da Zero5Um. 

Não temos muitos investidores para o funk em Porto Alegre, o que torna caro para os artistas produzirem clipes de forma independente. A gente tem conseguido proporcionar essas gravações gratuitamente para MCs e DJs de diversas zonas da cidade, e isso está fortalecendo o movimento como um todo — detalha o artista.

Em menos de um ano, mais de 50 artistas tiveram audiovisuais produzidos com o selo da Zero5Um, que já contabiliza 22 mil inscritos e mais de 7 milhões de visualizações no YouTube. O projeto deu tão certo que a Zero5Um acaba de se tornar oficialmente uma produtora, com escritório e estúdio de gravação próprios, inaugurados no último mês.

Artistas de fora estão procurando os gaúchos para parcerias, porque os holofotes estão voltados para o funk do Sul. As pessoas querem ouvir as nossas músicas.

MC DINO

Funkeiro

O vídeo recordista de visualizações é o medley com MC J9, que tem cerca de 2,5 milhões de visualizações. Natural de Gravataí, na Região Metropolitana, o artista segue os passos de Meno K rumo ao estrelato no centro do país: em março, foi contratado em sociedade por três das maiores produtoras do gênero – Love Funk, Bololô Records e Restrito.

Além de jogar luz sobre o funk gaúcho em nível nacional, conquistas como as de MC J9 e Meno K ajudam a fortalecer o mercado interno, que também é marcado por desafios, como pontua Leo Picadilha:

— Os contratantes investem em trazer artistas de fora, assumindo custos elevados, enquanto há MCs de Porto Alegre que o público gosta e consome, mas não recebem oportunidade. Parece que, só porque é de fora, é melhor. Porém, o nosso funk já demonstrou ter a mesma qualidade, mas com um sotaque próprio.

Regionalismo como identidade

Esse "sotaque" do funk gaúcho não aparece apenas nas letras, mas também na forma como a música é construída. Segundo DJ Mart, que se junta a nomes "da antiga" e assina É Bem Assim Que a Gente Tá com MC Tchesko, a cadência do funk foi impactada pela cultura local quando chegou ao Rio Grande do Sul.

— No funk, o DJ é quem traz o ritmo, a alma da música. Aqui no Sul nós temos um ritmo próprio. O nosso funk tem uma levada percussiva que é diferente da batida que se vê em outros lugares.

STEFF LIMA/Divulgação
Meno K atingiu o primeiro lugar do Spotify com "Jetski", parceria com Pedro Sampaio e Melody.

Leo Picadilha destaca que, cada vez mais, artistas gaúchos têm feito da regionalidade uma forma de conquistar o público e se diferenciar no mercado fonográfico. Ou seja, se antes a adaptação aos repertórios culturais do Sudeste era uma necessidade, agora deixa de ser regra para os artistas.

— A nova geração está trazendo essa essência gaúcha para as letras, colocando as nossas gírias e falando do cotidiano periférico daqui. Isso é interessante, porque mostra uma realidade que muita gente não sabe que existe no Rio Grande do Sul — pontua.

Exemplo disso é o funkeiro Waltin, nome da nova geração que ganhou notoriedade por canções que unem a batida do funk a elementos da música nativista.

A mistura começa pela estética: como marca registrada, o MC usa um "chapéu-boné", confeccionado a partir da junção de acessórios que remetem aos dois universos musicais. Nas faixas, explora a linguagem tipicamente gauchesca e incorpora instrumentos caros ao nativismo, como a gaita, sem deixar de lado a identidade funkeira.

Longe de limitar o alcance de seu trabalho, Waltin enxerga nessa escolha um diferencial – que pode levá-lo, inclusive, para além das divisas do Estado.

Acredito que posso fazer sucesso no Brasil levando a nossa cultura. Assim como o público do funk abraçou o que vinha de São Paulo e do Rio, também pode abraçar o que vem do Sul — projeta o MC. — Eu acho que, cada vez mais, o caminho está em entender quem a gente é e qual é o nosso lugar. Um exemplo é o Bad Bunny, que ganhou o Grammy levantando a bandeira do lugar de onde ele veio.

A aposta já tem rendido frutos. Com canções como Colé que Vai Ser e Imagina Eu e Tu, o funkeiro viralizou nas redes sociais, viu sua agenda de shows crescer e se tornou uma espécie de garoto-propaganda do Grêmio, time do coração que aparece com frequência em suas letras. Recentemente, participou da campanha de lançamento do novo uniforme do clube, assinado pela New Balance.

A estratégia dialoga com o caminho percorrido pelos nomes que agora puxam essa nova fase do funk gaúcho. Meno K, por exemplo, explodiu primeiro com canções que apostavam em referências locais – como Camisa do Grêmio, que, depois da repercussão inicial, ganhou também uma versão alusiva ao Flamengo. A ligação com o Estado seguiu após o artista alcançar a atenção do país, estando presente em sucessos como Gauchinha, do ano passado.

Do exemplo ao sonho

Para quem está iniciando no funk, a trajetória de Meno K é fonte de inspiração. MC Mirim, que também é "cria" da Cohab Rubem Berta, vê no sucesso do conterrâneo de comunidade um exemplo de que é possível ascender por meio do gênero musical periférico.

— O meu objetivo é dar estrutura para a minha família. Quando puder comprar uma casa para a minha mãe, apoiar os meus amigos que estão "na pior", saberei que cheguei lá. Fazer funk no Sul não é fácil, mas a gente está vendo que dá para acreditar no sonho — diz.

O jovem MC acredita que a configuração da cena também vem sendo impactada pelo sucesso dos nomes regionais. Vindo de uma trajetória que começou em um estúdio improvisado dentro da barbearia em que trabalhava, Mirim vê, hoje, o funk gaúcho mais disposto a cooperar.

— O momento puxado pelo Meno K e o J9 está mudando as coisas por aqui. Os olhos de todo o país estão voltados para o Sul, e a galera está entendendo que a gente precisa andar junto para aproveitar as portas que vão se abrir — opina.

"O ano do Sul"

No que depender de quem faz o funk gaúcho acontecer, as oportunidades serão abraçadas com pujança. Entre quem iniciou a caminhada, quem sustenta a base e quem começa a despontar agora, há o entendimento coletivo de que o movimento vive um momento ímpar – que pode mudar de vez a trajetória dos artistas do Estado.

André Ávila/Agencia RBS
"2026 será o ano do Sul", diz MC Dino.

Depois de décadas encontrando formas de existir, o funk feito no Rio Grande do Sul parece, finalmente, pronto para ocupar o espaço que sempre buscou – como projeta o veterano MC Dino:

— O ano passado serviu para mostrar que viemos para ficar, mas agora será a nossa ascensão definitiva. Eu tenho dito isso para todo mundo na cena: 2026 será o ano do Sul no cenário musical do funk.

Últimas Notícias