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Entrevista

Em "A Nobreza do Amor", Bukassa Kabengele defende a nova realeza negra da TV: “Isso é uma continuidade de lutas antigas”

Confira entrevista com o ator Bukassa Kabengele, que está brilhando em "A Nobreza do Amor", na TV Globo

16/04/2026 - 15h05min

Atualizada em: 16/04/2026 - 15h37min


Michele Vaz Pradella
Michele Vaz Pradella
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Oseias Barbosa/Divulgação
Bukassa Kabengele tem origem congolesa e vive no Brasil há mais de 40 anos

Não é apenas na ficção que a conexão Brasil-África se consolida em A Nobreza do Amor. A trama tem, no elenco, atores nascidos no continente africano e que agora brilham em terras brasileiras. É o caso de Bukassa Kabengele, que tem origem congolesa. 

Com quase 40 anos de carreira, o ator vive o engenheiro José, que na verdade é Zambi, herdeiro do trono de Batanga, e abdicou do posto por amor a Teresa (Ana Cecília Costa). Bukassa também pode ser visto na série Emergência Radioativa, da Netflix, e na novela Dona Beja, da HBO Max.


A Nobreza do Amor mostra pela primeira vez personagens negros na realeza. Como você avalia esse momento histórico da TV? 

Esse momento é uma continuidade muito importante e legítima de lutas antigas. Mas estamos vendo resultados em termos de visibilidade no audiovisual e novelas da televisão, na TV Globo principalmente, na rede aberta, trazendo maior visibilidade a personagens e atores, mulheres e homens negros. Isso é fundamental para que, mesmo que a partir de obras fictícias, se mude a visão limitada, errônea e negativa calcada no racismo estrutural e de cunho racista que imperou por muitos anos. Representatividade é dar a pessoas excluídas lugares de dignidade nas telas, para se enxergarem de forma positiva com qualidade e em quantidade, se possível.    

Ellen Soares/TV Globo/Divulgação
Batanga (Bukassa Kabengele) e Teresa (Ana Cecília Costa) em "A Nobreza do Amor"

Ao vir para o Brasil, Alika e Niara se deparam com o preconceito e com a questão estrutural de que os negros eram relegados a posições subalternas. Houve esse choque de realidade na sua vida também, ao deixar o Congo e chegar ao Brasil? 

Cheguei ao Brasil em 1980, com 10 anos de idade. Moramos em Natal, Rio Grande do Norte. Eu e meus irmãos tivemos logo que ir à escola sem falar o português. Mas em pouco tempo aprendemos... Em 15 dias, perguntei a meu pai qual o significado da palavra “macaco”, pois assim era chamado diariamente. Logo que soube, no dia seguinte, voltei à escola e bati no colega que assim me chamava, quando fui o único punido e castigado pela direção. Cada dia era um episódio novo de injúrias, o que nunca parou, em outros termos, até os dias de hoje. Eu faria a pergunta: “Quando é que não sofremos racismo estrutural se essa é a base de uma sociedade racista?”.  



José e Teresa têm a questão do relacionamento inter-racial, que na época em que se passa a história era malvisto pela sociedade. Você e Ana Cecília pesquisaram sobre essas questões históricas? 

Eu vivo um casamento inter-racial com minha esposa, Vera, na vida real, e somos casados há 23 anos. Conversamos muito sobre as diferenças entre os dois mundos, o da negritude e o da branquitude. Ela aprendeu muito, assim como eu, sobre questões da mulher e não somente, temos uma filha que tem consciência de sua negritude para além da mestiçagem. Portanto, vejo em Ana Cecília uma excelente e inteligente atriz e mulher moderna na visão e lutas pela diversidade. O que nos permite ir a fundo na construção desse amor e relação madura desse casal que é José e Teresa.  

 

Você está em três produções bem diferentes entre si, todas com bastante repercussão. O que o atraiu em cada um desses trabalhos? 

Em cada uma das produções, dentro da proposta do roteiro, tem desafios e espaço para a construção de personagens importantes e muito relevantes. Isso é uma grande conquista. Em Emergência Radioativa, fiz um ótimo teste. Mas a experiência me permitiu estar mais solto e eficaz para entender esse tipo de desafio. Em Dona Beja, recebi convite direto da produção, assim como em A Nobreza do Amor. Estou numa ótima fase de maturidade, não só no meu olhar com a vida, mas com a minha profissão como ator. Sinto-me mais livre, preparado para maiores riscos, aberto a erros sem me derrubar ou me sabotar, entendo que tudo faz parte do jogo. Todos os trabalhos baseados nisso me atraíram e me fazem sentir completo.  

Considera este o melhor momento de sua carreira?  

Estou há alguns anos em um ótimo momento. Mas a vida de ator, e autônomo, é sempre um livro aberto para o desconhecido. Portanto, faço todos os trabalhos como meu primeiro e minha única oportunidade. O melhor para mim está sempre por vir, e ao mesmo tempo é o que estou vivendo no momento. A dificuldade das cenas não me preocupa, e sim não ser feliz e intenso. É um ótimo momento, pois sinto servir a minha missão de ator com sinceridade e verdade como pede o meu ofício.  

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