Além dos sucessos
Musical sobre Djavan chega a Porto Alegre com Raphael Elias no papel principal: "Não é só interpretar, é se reconhecer ali"
Montagem, que destaca momentos marcantes da trajetória do cantor, terá três apresentações no Teatro do Bourbon Country


O espetáculo Djavan — O Musical: Vidas pra Contar chega a Porto Alegre para celebrar a trajetória de um dos maiores artistas da música brasileira. A montagem fica em cartaz no Teatro do Bourbon Country com três apresentações: nesta sexta-feira (24), às 21h, e no sábado (25), às 17h e às 21h. Os ingressos estão à venda pela uhuu.com ou na bilheteria do local, com preços a partir de R$ 25.
Raphael Elias assume o palco para dar corpo e voz a Djavan em diferentes momentos da carreira. Natural de Divinópolis (MG), o ator de 31 anos traz na bagagem um caminho que começa no interior de Minas, impulsionado pela música e pelo apoio da família, até chegar ao primeiro protagonista em uma grande produção nacional.
Escolhido entre mais de 250 candidatos, Raphael constrói uma interpretação que vai além dos sucessos e ilumina o lado humano do músico — uma travessia feita de escolhas, deslocamentos e persistência.
Confira entrevista com Raphael Elias
O musical conta a trajetória do Djavan a partir das escolhas e dos sentimentos, e não só do sucesso. O que mais te surpreendeu sobre a trajetória dele?
A gente constrói um arco que começa lá na adolescência, quando ele ainda jogava futebol no CSA, em Maceió, e vivia esse conflito real entre seguir no esporte ou se entregar à música. É nesse momento que surge o encantamento pelo violão, pela composição, como se fosse uma chama acendendo e apontando um destino.
O que mais me surpreende é que, apesar do sucesso gigantesco, tudo nasce de uma conexão muito profunda com a arte, quase como uma missão. Ele chega ao Rio (de Janeiro), nos anos 1970, sem conhecer ninguém, deixa a esposa em Maceió, num contexto difícil de ditadura, sendo um artista negro e nordestino. E, ainda assim, ele segue. A fé e a persistência são o motor dessa trajetória. Ele bancou a própria originalidade o tempo todo. No início, queriam moldar, opinar, até o nome dele quiseram mudar, e ele sustentou aquilo que era verdadeiro.
Isso atravessa toda a carreira. Não é à toa que chega aos 77 anos (idade atual de Djavan), com 50 de estrada, ainda criando, lançando disco, fazendo turnê. Existe uma coerência muito forte entre quem ele é e o que ele coloca no mundo. Essa fidelidade à própria essência, somada à fé, é o que mais me impacta.
Você foi escolhido entre mais de 250 candidatos para viver o papel. O que esse desafio te ensinou sobre confiar no próprio talento?
Me ensinou muito sobre confiar no processo e no tempo das coisas. É um trabalho que se constrói passo a passo, com disciplina, entrega e muita conexão com a minha essência e com o que eu entendo como propósito. Esse papel chegou de um jeito muito especial, foi quase como um presente, mas também como uma resposta: de que eu posso, de que eu tenho potência pra mergulhar num desafio desse tamanho, de representar um dos maiores artistas do país.
E tem um espelhamento muito forte. Eu também saí do Interior, de Minas, fui pro Rio sem conhecer ninguém, tentando viver da minha arte, do que pulsava dentro de mim. Então não é só interpretar, é se reconhecer ali. Isso atravessa o trabalho de um jeito muito profundo.

Cada cidade traz uma escuta diferente. Você já percebeu reações específicas do público ao longo da turnê?
Com certeza. No Rio, na estreia, foi aquele momento de experimentar o espetáculo ao vivo, sentir o público e ouvir os primeiros retornos. Ali a gente começou a enxugar, cortar cenas e "azeitar" a montagem. Em São Paulo, veio uma fase de afirmação, com um público mais acostumado a musicais, muito atento, e retornos muito generosos, inclusive de artistas que eu admiro bastante.
No Nordeste, foi especialmente marcante. O espetáculo homenageia artistas de lá, como Caetano (Veloso), (Maria) Bethânia e Gal (Costa). E em Maceió, terra do Djavan, a emoção tomou conta de um jeito muito único, parecia torcida de futebol a cada referência, uma vibração muito forte, algo inesquecível.
Depois vieram outras cidades, como Curitiba e Belo Horizonte, onde tive a chance de ter minha família na plateia, o que dá um outro peso emocional. Hoje o espetáculo está mais maduro, mais redondo, com casas cheias, e é bonito ver como o público se reconhece na obra dele. Pra mim, tem sido também um grande processo de crescimento e de conexão com o país.
O musical é cheio de música, emoção e história. Pra quem raramente vai ao teatro ou não conhece tanto o Djavan, por que vale a pena ir assistir?
Porque é uma história que fala com todo mundo. Fala de fé, de origem, de família, de escuta interior. Mostra a relação dele com a mãe, com a ancestralidade, com essa intuição que guia as escolhas, algo muito humano e muito potente. E tem uma coisa curiosa: muita gente se surpreende durante o espetáculo, percebe que conhece muito mais músicas do que imaginava. O Djavan está nas novelas, nos bares, no cotidiano, atravessa gerações sem a gente nem perceber. É um espetáculo muito musical, leve e emocionante. A gente ri, chora, canta, dança. Tem momentos íntimos e outros de celebração coletiva. No fim, é um convite a celebrar a vida, com uma energia muito bonita. Mesmo quem não conhece tanto sai tocado, porque a história conecta e a música abraça.