Estrelas da Periferia
Ritmos latinos tomam conta das ruas da Capital
Formada a partir do encontro de músicos latino–americanos, Latin Jambu transforma candombe, salsa e son cubano em ponte cultural.

Quando o saxofonista argentino Javier Contrera desembarcou em Porto Alegre, em março de 2023, trazia na bagagem a expectativa de encontrar uma cena alternativa pulsante, e acabou encontrando, também, um ambiente acolhedor para quem chega de fora. Ao lado do conterrâneo Agustín e de Marcelo Pimentel, ele formou um trio que, em 2024, passou por reformulação. Com a saída deles e a entrada de novos integrantes, o projeto cresceu e adotou o nome Latin Jambu.
– Cheguei aqui sem conhecer nada do idioma. Ainda tenho um portunhol. Mas me surpreendeu muito o acolhimento artístico que há aqui, as oportunidades e como chegar de fora com uma proposta totalmente diferente. Eu sempre fui bastante cigano nesse sentido de armar minha barraca e mudar–me – relembra Javier.
Da guajira ao candombe, da salsa ao son cubano, o repertório da Latin Jambu costura ritmos e memórias do continente em uma sonoridade vibrante – um jeito de afirmar latinidade pela música, mesmo quando os integrantes (e o público) não compartilham o mesmo idioma.
Em março de 2025, o grupo lançou no YouTube seu primeiro EP, com quatro faixas. O primeiro single oficial, Puente de Piedra, chegou às plataformas digitais em 13 de abril, junto de um show no térreo da Casa de Cultura Mario Quintana.

Para o percussionista Edu Pacheco, a trajetória da Latin Jambu dialoga com um movimento já consolidado na cidade, marcado pelo intercâmbio entre músicos de Porto Alegre e artistas argentinos e uruguaios, além de décadas de relação com a música afro–uruguaia e com a dança.
– Porto Alegre tem uma ligação com o candombe de 20 anos atrás, que se reinaugurou há uns cinco, seis anos. Eu entendo que a cidade já tem uma cena. O que eu acho distinto, hoje, é a proposta da Latin Jambu de ampliar esse repertório – afirma.
Edu também aponta que o reconhecimento da música latina passa pela negritude, pela relação com o mundo indígena, pelo tambor e pelo diálogo com o jazz.
– Isso abre uma possibilidade de conversa: pessoas que não falam o mesmo idioma conseguem sentar e tocar juntas porque compartilham repertório e entendimento musical. Esse é o nosso caminho, ampliar nosso lugar e nossa presença por meio dessas composições – diz.
A Latin Jambu é formada por Javier Contrera (saxofone e coros), Tomás Valdivia (baixo e coros), Leonardo Bretas (piano), Edu Pacheco (congas), Gabriel Buzaky (flauta) e Lucas Oberdan (trombone). Entre os palcos por onde já passaram está a Noite dos Museus e o Festival de Jazz Sesc Gravataí.
Projetos
Com a banda ganhando corpo, o grupo busca estruturar a circulação para alcançar outros espaços, seja por editais, seja por produção independente.
– A gente está tentando elaborar uma estratégia que nos leve ao contato com outros ambientes e com outros modos de poder compartilhar nossa música – afirma Edu.
Para ele, fortalecer a latinidade no Brasil passa menos pela língua e mais por elementos compartilhados – negritude, perspectiva indígena, tambor e improviso.
– Produzir de fato um movimento de integração, de resistência e de produção artística... Eu chamo para a negritude, para a perspectiva indígena, para o tambor, para o sax – frisa.
Com produção em andamento, a Latin Jambu prepara o lançamento de um novo EP no segundo semestre, desta vez com composições autorais.
– Tem onze faixas. Tem música brasileira, escrevi pagode, frevo, baião. O disco vai ter convidados e a gente pode mostrar uma fase artística nova. Me Queima el Alma seria a primeira música do grupo – conta Javier.
Entre os músicos, o convívio é parte do que sustenta o projeto, com ensaios que viram churrasco, café e encontros entre amigos. Mas a realidade de uma banda independente e numerosa também impõe percalços, especialmente na hora de montar a formação completa e remunerar todo mundo.
– Temos uma banda considerável, com muitas pessoas. Às vezes tem músicos convidados, como foi no lançamento no térreo da Casa de Cultura Mario Quintana. Uma das dificuldades é conseguir chamar todo mundo, ter a banda completa e pagar dignamente – destaca Tomás.
*Sob supervisão e orientação do jornalista Alexandre Rodrigues